{"id":4398,"date":"2026-08-10T16:52:10","date_gmt":"2026-08-10T19:52:10","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4398"},"modified":"2026-08-10T16:52:10","modified_gmt":"2026-08-10T19:52:10","slug":"o-ultimo-rosto-que-a-noite-guarda-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4398","title":{"rendered":"O \u00faltimo rosto que a noite guarda. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p class=\"isSelectedEnd\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013\u00a0 <\/strong>O sono \u00e9 esse rio escuro que nos convida ao mergulho todas as noites, e n\u00f3s, cansados viajantes da luz do dia, entregamos o corpo \u00e0 correnteza morna dos len\u00e7\u00f3is enquanto a mente ainda ensaia as suas \u00faltimas voltas antes de se deixar levar pela queda. Nesse instante preciso, quando o quarto se desfaz em sombras e os ru\u00eddos do mundo se transformam em uma respira\u00e7\u00e3o distante, a mem\u00f3ria, como uma jardineira descal\u00e7a que caminha pelo terreno \u00famido da consci\u00eancia, escolhe a semente mais bela entre todas as que o dia espalhou pelo ch\u00e3o, e essa semente \u00e9s tu, minha amada, com o teu cabelo desalinhado que a tarde bagun\u00e7ou quando o vento entrou pela janela, com o tom exato da tua voz quando disseste aquela palavra que ningu\u00e9m mais ouviu, com o teu sorriso inclinado que eu guardei como quem guarda a \u00faltima flor do ver\u00e3o. E essa semente \u00e9 plantada com uma delicadeza t\u00e3o extrema que nem a terra sente o seu toque, e a noite, essa guardi\u00e3 silenciosa que conhece todos os segredos do escuro, n\u00e3o a esconde para cobrar nada em troca, mas a preserva como quem guarda uma p\u00e9tala entre as p\u00e1ginas de um livro que jamais ser\u00e1 vendido, porque o amor verdadeiro nunca se oferece ao com\u00e9rcio, ele apenas floresce onde a alma decidiu plantar, e o lugar dessa planta\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre o mesmo: a \u00faltima fresta de luz que a minha vis\u00e3o alcan\u00e7a antes que a p\u00e1lpebra se feche sobre o mundo inteiro.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Eu j\u00e1 tentei, ao longo de todos os dias que vivi, entender por que essa lembran\u00e7a espec\u00edfica, essa imagem minuciosa do teu rosto, do teu cabelo a cair sobre os olhos, do teu modo de inclinar a cabe\u00e7a quando pensas em sil\u00eancio, por que ela insiste em ser a \u00faltima a se despedir quando o cansa\u00e7o me envolve, e a resposta que encontrei depois de tantas noites de observa\u00e7\u00e3o \u00e9 que o cora\u00e7\u00e3o, quando j\u00e1 est\u00e1 de pijama e com os olhos pesados, assume o governo da nave e descarta todas as preocupa\u00e7\u00f5es, todos os afazeres esquecidos, todas as pequenas vit\u00f3rias e derrotas do expediente, para reter apenas aquilo que verdadeiramente o sustenta. Nesse ato de depura\u00e7\u00e3o noturna, o teu rosto emerge como a \u00fanica ilha que resiste ao naufr\u00e1gio, como a derradeira coordenada que o navegador guarda na mem\u00f3ria antes que o mapa se desfa\u00e7a na \u00e1gua salgada, e n\u00e3o \u00e9 um ato de vontade, desses que a raz\u00e3o comanda com a sua m\u00e3o fria, porque, se dependesse de mim, eu talvez escolhesse uma lembran\u00e7a mais conveniente, um instante mais heroico ou mais bonito aos olhos do mundo, mas o amor, esse arquiteto misterioso que constr\u00f3i as nossas noites com a argila do invis\u00edvel, n\u00e3o pede a nossa permiss\u00e3o nem consulta a nossa agenda; simplesmente exerce sobre n\u00f3s a mesma for\u00e7a silenciosa com que a gravidade atrai os corpos, conduzindo a minha aten\u00e7\u00e3o para o centro mais denso da minha pr\u00f3pria exist\u00eancia, e esse centro \u00e9s tu, minha amada, n\u00e3o como uma fotografia que se pendura na parede, mas como a respira\u00e7\u00e3o que se torna uma s\u00f3 com a minha quando o sil\u00eancio \u00e9 absoluto.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">E \u00e9 por isso, minha alma, que afirmo com a do\u00e7ura de quem j\u00e1 testemunhou esse milagre todas as noites que o teu amor n\u00e3o se encontra nas declara\u00e7\u00f5es grandiosas que o dia pode colecionar, nem nos gestos ensaiados que a mem\u00f3ria diurna exibe com orgulho, mas nesse instante fr\u00e1gil e definitivo em que a minha p\u00e1lpebra se fecha sobre o mundo e a minha \u00faltima vis\u00e3o, antes que a escurid\u00e3o absoluta tome conta, \u00e9 a lembran\u00e7a viva de ti, t\u00e3o n\u00edtida e t\u00e3o quente que parece at\u00e9 que o teu corpo est\u00e1 deitado ao meu lado, mesmo quando a cama est\u00e1 vazia e o vento da janela sopra frio. Essa lembran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 uma fotografia, n\u00e3o \u00e9 um filme, n\u00e3o \u00e9 um documento que se consulta, mas uma presen\u00e7a t\u00e3o real quanto a \u00e1gua que toca a pele do mergulhador, o timbre da tua risada ecoando dentro do meu peito como um sino que toca sem que ningu\u00e9m o fa\u00e7a soar, e, enquanto o sono vai subindo como uma mar\u00e9 negra pelos meus membros, sinto que essa \u00faltima imagem n\u00e3o se apaga, antes se intensifica, ganha contornos mais n\u00edtidos, cores mais vivas, porque a noite, longe de ser a ladra das lembran\u00e7as, \u00e9 a sua mais fiel guardi\u00e3. Ela recolhe o teu rosto no crep\u00fasculo da minha consci\u00eancia e o rega com o sil\u00eancio mais puro, para que desabroche nos meus sonhos como uma flor que n\u00e3o precisa de luz solar para ser bela, porque a sua luz \u00e9 gerada dentro de mim, \u00e9 a luz do amor que n\u00e3o se mede em quilates nem se troca em mercados, mas se derrama como um perfume que o escuro n\u00e3o esconde, antes real\u00e7a, da mesma forma que o jasmim s\u00f3 revela toda a sua fragr\u00e2ncia quando o sol se retira e a noite abra\u00e7a os jardins.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o verdadeiro testamento do meu dia, a p\u00e1gina final que escrevo sem tinta nem papel, apenas com a subst\u00e2ncia invis\u00edvel de quem amou durante todas as horas que passaram e que, ao chegar ao fim da jornada, n\u00e3o precisa de nenhum outro tesouro sen\u00e3o dessa imagem \u00faltima que carrego como uma \u00e2ncora leve para o mundo dos sonhos, porque, se o amor fosse uma casa, ela n\u00e3o seria constru\u00edda com as paredes dos encontros marcados ou com o telhado das palavras bonitas, mas com esse instante de penumbra em que tudo se cala e a alma, livre das amarras do rel\u00f3gio, pode finalmente reconhecer o seu \u00fanico e verdadeiro norte, que \u00e9s tu, sempre tu, minha amada, na exata forma em que te fixei no crep\u00fasculo da minha consci\u00eancia, com os olhos que brilham de um jeito que nenhuma fotografia consegue reter e com essa maneira tua de existir que transtorna toda a l\u00f3gica do mundo para se tornar a \u00faltima certeza que o meu ser abra\u00e7a antes de se entregar ao esquecimento reparador. E assim eu durmo sabendo que, mesmo que o dia seguinte venha com as suas exig\u00eancias e os seus ru\u00eddos, a primeira lembran\u00e7a que despertar ser\u00e1 o eco dessa \u00faltima vis\u00e3o, porque o amor verdadeiro tem essa propriedade misteriosa de se dobrar sobre si mesmo como um rio que encontra o mar e, ao encontr\u00e1-lo, descobre que o mar \u00e9 feito da mesma \u00e1gua que o alimentou desde a nascente, e nesse encontro o teu rosto, que foi a minha \u00faltima imagem antes do sono, ser\u00e1 tamb\u00e9m a minha primeira imagem ao abrir os olhos, completando o ciclo sagrado que transforma cada noite em um renascimento e cada despertar em uma confirma\u00e7\u00e3o de que o amor, quando \u00e9 o \u00faltimo a se despedir, \u00e9 tamb\u00e9m o primeiro a nos receber do outro lado da escurid\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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