{"id":4384,"date":"2026-08-08T01:39:46","date_gmt":"2026-08-08T04:39:46","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4384"},"modified":"2026-08-09T20:12:14","modified_gmt":"2026-08-09T23:12:14","slug":"o-copo-que-nao-queria-a-despedida-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4384","title":{"rendered":"O copo que n\u00e3o queria a despedida. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p class=\"isSelectedEnd\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013 <\/strong>A cerveja sempre soube mais sobre n\u00f3s do que imaginamos, talvez porque tenha aprendido, ao longo dos s\u00e9culos, a sentar-se \u00e0 mesa sem fazer perguntas, a ouvir sem interromper, a permanecer fria enquanto o cora\u00e7\u00e3o de quem a segura arde por dentro, e por isso ela chega aos bares como uma velha confidente vestida de ouro, coroada por uma espuma branca e breve, encostando o corpo no vidro como quem se aproxima devagar da intimidade de algu\u00e9m, esperando que a noite fa\u00e7a aquilo que o dia quase nunca permite, isto \u00e9, desarmar os homens, desfazer as apar\u00eancias, afrouxar os n\u00f3s da garganta e devolver \u00e0s palavras a coragem que elas perdem diante das obriga\u00e7\u00f5es, das vitrines, dos cargos, das conveni\u00eancias e de todas essas armaduras que usamos para atravessar as horas sem que ningu\u00e9m perceba onde realmente d\u00f3i.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Nos bares da vida, a cerveja aprendeu a reconhecer os que chegam apenas para beber e os que chegam para esquecer, os que procuram amigos e os que procuram a si mesmos, os que riem porque est\u00e3o felizes e os que riem para n\u00e3o chorar, e talvez essa seja a sua humanidade secreta, porque ela nunca denuncia ningu\u00e9m, nunca pergunta por que aquele homem demora tanto a levar o copo \u00e0 boca, nunca estranha a mulher que gira lentamente a alian\u00e7a no dedo enquanto contempla uma cadeira vazia, nunca cobra explica\u00e7\u00f5es do sujeito que pede mais uma rodada quando todos os outros j\u00e1 se levantaram, pois conhece essa gram\u00e1tica subterr\u00e2nea da alma em que um gole pode significar saudade, outro pode significar perd\u00e3o e um terceiro, tomado em sil\u00eancio, pode ser apenas a tentativa desesperada de adiar por alguns minutos o momento de voltar para uma casa onde ningu\u00e9m mais espera atr\u00e1s da porta.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 na madrugada, por\u00e9m, que a cerveja se transforma, porque deixa de ser apenas dourada e passa a parecer incandescente, como se algum fogo \u00edntimo come\u00e7asse a arder dentro do copo quando as horas avan\u00e7am, as vozes diminuem e os homens j\u00e1 n\u00e3o precisam representar para ningu\u00e9m, e ent\u00e3o a luz amarela do bar se mistura \u00e0 espuma, o vidro devolve reflexos de um ouro cansado e a bebida parece respirar junto com aqueles que permanecem sentados, recusando-se a aceitar a despedida, como se ela tamb\u00e9m soubesse que o \u00faltimo gole \u00e9 uma senten\u00e7a, que depois dele vir\u00e1 a conta, a cal\u00e7ada vazia, a chave na fechadura, o quarto silencioso e a constata\u00e7\u00e3o de que a madrugada, por mais generosa que tenha sido, n\u00e3o pode impedir que certas aus\u00eancias voltem a ocupar todos os c\u00f4modos da casa.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Por isso, quando os copos se erguem nessa hora em que a noite j\u00e1 come\u00e7a a perder sua for\u00e7a para o amanhecer, os brindes quase nunca s\u00e3o exatamente aquilo que dizem, porque h\u00e1 vozes que pronunciam sa\u00fade querendo dizer volta, h\u00e1 homens que dizem amizade quando na verdade imploram n\u00e3o me deixe sozinho, h\u00e1 quem bata o copo contra o do companheiro com uma voz quase arfante, como quem tenta esconder o choro provocado por um amor que foi embora e deixou para tr\u00e1s n\u00e3o apenas uma pessoa, mas uma geografia inteira de lembran\u00e7as, o perfume ainda preso numa camisa, a metade vazia da cama, uma fotografia esquecida numa gaveta, o h\u00e1bito de esperar um telefone que j\u00e1 n\u00e3o toca e aquela esp\u00e9cie de absurdo \u00edntimo que consiste em continuar amando algu\u00e9m que j\u00e1 aprendeu a viver sem n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">E ent\u00e3o, em algum canto do bar, a velha radiola de ficha desperta como uma senhora que conhece todos os segredos daquela casa, porque ela tamb\u00e9m passou a vida ouvindo confiss\u00f5es que nunca lhe foram feitas diretamente, vendo rapazes entrarem cheios de juventude, cabelos longos, camisas abertas e sonhos capazes de ocupar o mundo inteiro, para depois receb\u00ea-los d\u00e9cadas mais tarde com os ombros mais baixos, os cabelos embranquecidos e uma cole\u00e7\u00e3o de aus\u00eancias guardadas atr\u00e1s dos olhos, e bastava que algu\u00e9m colocasse uma moeda em seu ventre de metal para que ela devolvesse n\u00e3o apenas uma can\u00e7\u00e3o, mas uma rua, uma varanda, uma pra\u00e7a, um vestido, um perfume, uma viagem de \u00f4nibus, um beijo roubado, uma promessa feita debaixo da chuva e at\u00e9 a voz de algu\u00e9m que j\u00e1 n\u00e3o estava mais vivo para ouvir o pr\u00f3prio nome.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A radiola de ficha nunca tocou apenas m\u00fasica, porque quem viveu os bares de outros tempos sabe que ela tinha algo de parteira e de coveira, capaz de fazer nascer novamente uma lembran\u00e7a e de sepultar, no mesmo instante, a ilus\u00e3o de que certas coisas poderiam voltar a ser como eram, e por isso havia sempre algu\u00e9m que levantava os olhos quando os primeiros acordes de uma can\u00e7\u00e3o atravessavam o sal\u00e3o, algu\u00e9m que sorria e dizia que aquela era a sua m\u00fasica, usando essa pequena palavra, nossa, sem perceber que dentro dela cabiam duas pessoas, uma casa, uma cama, uma briga, uma reconcilia\u00e7\u00e3o, uma estrada, um domingo, talvez alguns filhos e, em muitos casos, uma despedida que nunca terminara completamente, porque existem amores que deixam de existir na vida concreta, mas continuam respirando nos por\u00f5es da mem\u00f3ria como brasas escondidas sob a cinza.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A cerveja e a radiola, se pudessem conversar, talvez fossem duas velhas amigas sentadas depois do expediente, comentando baixinho a fragilidade dos homens, uma contando quantas l\u00e1grimas j\u00e1 viu desaparecerem dentro de um copo, a outra lembrando quantas m\u00e3os tr\u00eamulas j\u00e1 empurraram uma ficha para ouvir pela mil\u00e9sima vez a can\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que partiu, e certamente chegariam \u00e0 conclus\u00e3o de que os seres humanos t\u00eam essa estranha maneira de tentar sobreviver \u00e0s perdas dando-lhes m\u00fasica, bebida, nome e ritual, como se precis\u00e1ssemos transformar a dor em alguma coisa que pudesse ser tocada, ouvida, compartilhada e, por alguns minutos, suportada.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Talvez seja por isso que tanta gente tenha confiado aos bares aquilo que n\u00e3o conseguiu confiar aos quartos, \u00e0s igrejas, aos consult\u00f3rios, aos escrit\u00f3rios ou aos pr\u00f3prios espelhos, porque o bar n\u00e3o exige que a hist\u00f3ria venha inteira, aceita peda\u00e7os, tolera contradi\u00e7\u00f5es, compreende o sil\u00eancio e sabe que certas verdades s\u00f3 conseguem sair pela metade, entre um gole e outro, enquanto a m\u00fasica ajuda a cobrir o constrangimento de quem descobre, tarde demais, que ainda ama algu\u00e9m que j\u00e1 se despediu, e nessas horas a cerveja cumpre o papel dos grandes amigos, n\u00e3o porque resolva a vida, mas porque se deixa ficar diante de quem precisa apenas que alguma coisa permane\u00e7a enquanto quase tudo dentro dele parece estar indo embora.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Quantos amores j\u00e1 foram chorados diante de uma garrafa, quantos regressos foram imaginados na espuma de um copo, quantos telefones foram segurados na m\u00e3o por longos minutos antes que algu\u00e9m decidisse n\u00e3o ligar para quem j\u00e1 n\u00e3o deveria ser procurado, quantas vezes uma velha can\u00e7\u00e3o fez um homem de sessenta anos voltar a ter vinte, fechando os olhos por alguns instantes e reencontrando aquela mo\u00e7a que dan\u00e7ava com ele num sal\u00e3o abafado, usando um vestido que o tempo destruiu, mas que continua intacto na lembran\u00e7a, porque a mem\u00f3ria \u00e9 essa costureira obstinada que refaz, com fios invis\u00edveis, aquilo que a vida rasgou sem piedade.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Os bares tamb\u00e9m conhecem a crueldade discreta do tempo, porque as pessoas v\u00e3o embora, as mesas s\u00e3o trocadas, os gar\u00e7ons envelhecem, as fachadas mudam, as garrafas ganham novos r\u00f3tulos e as antigas radiolas acabam expulsas para dep\u00f3sitos ou cole\u00e7\u00f5es, mas algumas can\u00e7\u00f5es permanecem com a mesma for\u00e7a e alguns amores continuam ocupando dentro de n\u00f3s a cadeira que deixaram vazia, pedindo uma rodada que ningu\u00e9m mais serve, e talvez essa seja uma das dores mais refinadas da exist\u00eancia, descobrir que h\u00e1 pessoas que desapareceram completamente da nossa rotina, mas continuam vivendo em n\u00f3s com uma intimidade que o tempo n\u00e3o conseguiu desalojar.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Existem amores ainda amados, existem amores j\u00e1 despedidos e existem aqueles que moram numa terra sem nome entre uma coisa e outra, onde ningu\u00e9m mais escreve, ningu\u00e9m mais telefona, ningu\u00e9m mais espera junto ao port\u00e3o, mas basta que uma determinada m\u00fasica comece a tocar para que o cora\u00e7\u00e3o se comporte como um animal antigo que reconheceu o cheiro da pr\u00f3pria casa, e ent\u00e3o toda a dist\u00e2ncia constru\u00edda ao longo dos anos desaba por alguns minutos, revelando que certas despedidas foram aceitas apenas pela raz\u00e3o, enquanto alguma parte mais funda de n\u00f3s continuou sentada \u00e0 mesa, esperando.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A cerveja envelheceu conosco e talvez seja por isso que seu significado tamb\u00e9m tenha mudado, porque na juventude ela era sobretudo festa, excesso de futuro e desejo de prolongar a noite, enquanto depois de certa idade se torna encontro, mem\u00f3ria, pretexto para permanecer um pouco mais perto dos amigos e uma ponte improvisada entre aquilo que somos e aquilo que fomos, de modo que o jovem levanta o copo em dire\u00e7\u00e3o ao amanh\u00e3 e o homem maduro muitas vezes o ergue em dire\u00e7\u00e3o ao ontem, mas ambos realizam o mesmo gesto ancestral de desafiar, ainda que por um segundo, a velocidade com que a vida nos leva.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Brindar, afinal, talvez seja uma das formas mais bonitas que inventamos para negociar com o tempo, porque o som breve de dois copos se tocando dura quase nada, mas naquele instante min\u00fasculo podem caber amizades inteiras, o amigo que ficou, o amigo que morreu, o pai que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1, o filho que cresceu, a mulher que ainda amamos, aquela que finalmente conseguimos esquecer, a cidade onde fomos felizes, a casa que n\u00e3o existe mais e at\u00e9 uma vers\u00e3o de n\u00f3s mesmos que ficou perdida em alguma d\u00e9cada passada, e por isso cada brinde carrega, sem que percebamos, uma pequena rebeli\u00e3o contra a ideia de que tudo passa e nada permanece.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Talvez seja essa a raz\u00e3o pela qual a cerveja, quando se torna mem\u00f3ria, deixa de ser bebida e passa a ser testemunha, pois ela sabe quem chegou, quem partiu, quem prometeu voltar, quem chorou escondido, quem fingiu felicidade, quem beijou algu\u00e9m pela primeira vez e quem ergueu o \u00faltimo copo para um amigo que j\u00e1 estava morrendo, e se a madrugada pudesse falar talvez contasse que muitos dos grandes acontecimentos da vida n\u00e3o ocorreram em pal\u00e1cios, gabinetes ou sal\u00f5es solenes, mas em mesas simples, cobertas de marcas circulares deixadas por copos molhados, enquanto algu\u00e9m dizia alguma frase comum que anos depois se tornaria inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Quando o \u00faltimo gar\u00e7om apagar as luzes e empilhar as cadeiras, talvez ainda permane\u00e7a sobre alguma mesa um copo pela metade, como se a pr\u00f3pria cerveja tivesse se recusado a aceitar que a noite terminara, e no canto do sal\u00e3o a velha radiola, agora silenciosa, guardar\u00e1 dentro de si a \u00faltima can\u00e7\u00e3o como quem protege uma carta que jamais encontrou destinat\u00e1rio, enquanto l\u00e1 fora o amanhecer come\u00e7a a empurrar para casa aqueles que ainda resistem, obrigando cada um a reencontrar sua pr\u00f3pria vida depois de algumas horas de tr\u00e9gua.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">E ent\u00e3o novos dias vir\u00e3o, novos homens chegar\u00e3o aos bares, novas mulheres amar\u00e3o, outras promessas ser\u00e3o feitas e outras despedidas acontecer\u00e3o, porque a vida n\u00e3o interrompe seu movimento por causa das nossas saudades, mas talvez exista alguma miseric\u00f3rdia nessa repeti\u00e7\u00e3o, pois enquanto houver algu\u00e9m capaz de levantar um copo, colocar uma velha can\u00e7\u00e3o para tocar e pronunciar o nome de quem partiu, nenhuma aus\u00eancia ter\u00e1 conseguido vencer completamente a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Por isso, neste Dia da Cerveja, o brinde n\u00e3o deveria ser apenas \u00e0 bebida, mas aos bares que nos receberam quando n\u00e3o sab\u00edamos para onde ir, \u00e0s radiolas de ficha que devolveram nossos mortos por alguns minutos, aos amigos que ouviram nossos absurdos e permaneceram, aos amores que ficaram, aos amores que partiram, aos que ainda doem quando uma determinada m\u00fasica come\u00e7a e aos que, depois de muitos anos, finalmente deixaram de ser ferida para se transformar naquela ternura triste que permite lembrar sem desabar.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">E quando nossos copos se encontrarem, talvez dev\u00eassemos deix\u00e1-los encostados por um instante a mais, como quem segura a m\u00e3o de algu\u00e9m numa esta\u00e7\u00e3o sabendo que o trem partir\u00e1 de qualquer maneira, porque chegar\u00e1 tamb\u00e9m o dia em que nossas cadeiras ficar\u00e3o vazias, em que outras pessoas ocupar\u00e3o as mesas que hoje julgamos nossas, em que a cerveja continuar\u00e1 sendo servida sem saber que um dia a bebemos ali, e talvez alguma can\u00e7\u00e3o antiga atravesse o sal\u00e3o enquanto algu\u00e9m, levado por uma lembran\u00e7a inesperada, pronuncia nosso nome com um sorriso molhado de saudade.<\/p>\n<p>Se isso acontecer, teremos vencido um pouco a despedida, porque seremos a espuma que desapareceu do copo, mas deixou sua marca no vidro, seremos a m\u00fasica que algu\u00e9m pediu novamente depois de muitos anos, seremos a hist\u00f3ria que come\u00e7a com aquele inevit\u00e1vel \u201cvoc\u00ea lembra dele?\u201d, e nesse instante estaremos outra vez sentados entre os amigos, n\u00e3o como fantasmas, mas como mem\u00f3ria viva, com o cora\u00e7\u00e3o ainda aceso dentro daqueles que ficaram, erguendo um copo invis\u00edvel contra a madrugada e brindando, mais uma vez, \u00e0 amizade, ao amor, \u00e0 vida e a essa nossa comovente, in\u00fatil e bel\u00edssima tentativa de jamais dizer adeus por inteiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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