{"id":4376,"date":"2026-08-07T21:39:53","date_gmt":"2026-08-08T00:39:53","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4376"},"modified":"2026-08-07T22:51:36","modified_gmt":"2026-08-08T01:51:36","slug":"a-conversa-secreta-entre-as-luzes-da-cidade-e-o-crepusculo-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4376","title":{"rendered":"A conversa secreta entre as luzes da cidade e o crep\u00fasculo.  Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013<\/strong> Perfeito, o mapa do tempo. O rel\u00f3gio definiu e escolheu a hora mais generosa do dia, aquela em que o sol, j\u00e1 cansado de ser soberano, abaixa a guarda e permite que as luzes da cidade, ainda t\u00edmidas, comecem a sussurrar suas primeiras confid\u00eancias. \u00c9 nesse entremeio, nesse quase-nada entre o clar\u00e3o que se despede e o brilho que se anuncia, que a cidade revela sua alma mais verdadeira, e eu, que sou apenas um escriba de ocasi\u00e3o, tentarei capturar essa conversa que ningu\u00e9m escuta, mas que todos sentem na pele quando a tarde desaba no colo da noite.<\/span><\/p>\n<p>Pois bem: chega a hora em que o azul do c\u00e9u parece ado\u00e7ar-se, perdendo aquele tom seco e exigente das onze da manh\u00e3, para se tingir de um laranja meio p\u00eassego, meio saudade, e \u00e9 nesse exato instante, quando a luz natural hesita, como uma atriz que n\u00e3o quer deixar o palco para a substituta, que os postes da avenida principal acendem seus primeiros lampejos. N\u00e3o de maneira ostensiva, n\u00e3o senhor; eles acendem com a discri\u00e7\u00e3o de quem pede licen\u00e7a, um facho amarelo primeiro, depois outro mais adiante, e assim v\u00e3o se estendendo numa corrente que parece costurar a cal\u00e7ada com pontos de ouro. As luzes artificiais, nesse in\u00edcio de servi\u00e7o, n\u00e3o competem com o crep\u00fasculo; ao contr\u00e1rio, elas o homenageiam, como aprendizes que reconhecem a maestria do mestre e s\u00f3 ousam brilhar por inteiro quando o mestre, enfim, se recolhe nos bastidores do horizonte.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, a conversa come\u00e7a, e \u00e9 das mais delicadas que se pode imaginar, pois se d\u00e1 no idioma das cores e das sombras, naquele c\u00f3digo secreto que s\u00f3 os poetas e os apaixonados conseguem traduzir. O crep\u00fasculo, todo melanc\u00f3lico e majestoso, derrama sobre os telhados e as fachadas o seu manto de tons quentes, e as luzes da cidade respondem com um tremor el\u00e9trico e baixinho, como se dissessem: \u201cVai, amigo, descansa; eu cuido daqui.\u201d E \u00e9 essa troca generosa que transforma o entardecer de uma sexta-feira num espet\u00e1culo quase sagrado: os far\u00f3is dos carros que se acendem n\u00e3o s\u00e3o meros dispositivos de seguran\u00e7a, s\u00e3o olhos que se abrem para admirar a despedida do sol, e as vitrines das lojas, com suas l\u00e2mpadas de led frio, parecem querer imitar as estrelas ainda inexistentes, num esfor\u00e7o comovente de ser c\u00e9u mesmo quando o c\u00e9u ainda est\u00e1 ali, presente, mas j\u00e1 virando as costas.<\/p>\n<p>J\u00e1 reparou, nesse di\u00e1logo silencioso que acontece nas esquinas mais movimentadas? Preste aten\u00e7\u00e3o: o poste da farm\u00e1cia, aquele que tem a base meio enferrujada e um casal de pombos que insiste em empoleirar-se no topo, acende-se exatamente quando o \u00faltimo raio de sol beija o para-brisa do \u00f4nibus estacionado. E parece um combinado antigo, desses que a gente faz com o melhor amigo na inf\u00e2ncia e nunca mais precisa repetir. A luz do poste n\u00e3o diz \u201cestou aqui\u201d; ela diz \u201ceu te esperei o dia inteiro\u201d, e o crep\u00fasculo, que j\u00e1 est\u00e1 sumindo na curva do rio, responde com um brilho mais intenso, como um adeus que se alonga al\u00e9m do necess\u00e1rio, porque, convenhamos, as despedidas mais bonitas s\u00e3o sempre as que demoram um pouquinho mais do que a indiferen\u00e7a permite.<\/p>\n<p>E nesse vai-e-vem de luminosidades, eu vejo as pessoas, ah, as pessoas, que passam apressadas, com os olhos fixos no telefone ou no rel\u00f3gio, e n\u00e3o percebem que est\u00e3o atravessando um dos poucos momentos verdadeiramente m\u00e1gicos do dia. Elas caminham sobre as cal\u00e7adas onde a luz amarela disputa palmo a palmo com a luz que se apaga, e seus rostos v\u00e3o se tingindo alternadamente de ouro e de prata, como se fossem telas vivas que um pintor maluco decidisse colorir \u00e0s pressas. Cada rosto, nessa hora, \u00e9 uma pequena cr\u00f4nica andante: a mo\u00e7a que sai do escrit\u00f3rio com o casaco no ombro e um sorriso cansado, o senhor que empurra o carrinho de feira com a lentid\u00e3o de quem j\u00e1 n\u00e3o tem pressa nenhuma, a crian\u00e7a que aponta para o c\u00e9u e diz algo que a m\u00e3e n\u00e3o ouve. Todos eles s\u00e3o personagens involunt\u00e1rios dessa \u00f3pera de luzes, todos eles emprestam ao crep\u00fasculo um peda\u00e7o da sua pressa e \u00e0 cidade um peda\u00e7o da sua solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o mais belo, e aqui pe\u00e7o licen\u00e7a para me estender como a sombra que se alonga no asfalto, o mais belo \u00e9 perceber que essa conversa, embora secreta, n\u00e3o \u00e9 exclusiva. Ela est\u00e1 ali para quem quiser escut\u00e1-la, estampada nos reflexos das po\u00e7as d\u2019\u00e1gua que sobraram da chuva da manh\u00e3, ou no brilho t\u00eanue que se forma no vidro do restaurante da esquina, onde um casal se senta para jantar e, sem saber, ilumina o pr\u00f3prio rosto com a chama tr\u00eamula de uma vela. O crep\u00fasculo e as luzes n\u00e3o falam de grandes feitos, n\u00e3o; eles conversam sobre o ef\u00eamero, sobre a beleza que dura apenas o tempo de um suspiro, e essa \u00e9 a maior li\u00e7\u00e3o que a cidade nos d\u00e1 todas as tardes, a de que a vida, no fundo, \u00e9 feita desses instantes de transi\u00e7\u00e3o, dessas frestas entre um cansa\u00e7o e outro, onde a gente pode, se quiser, parar por um segundo e apenas contemplar.<\/p>\n<p>E quando a noite finalmente se imp\u00f5e, e o c\u00e9u escurece de vez, as luzes da cidade j\u00e1 n\u00e3o pedem mais licen\u00e7a; elas ocupam o espa\u00e7o por inteiro, triunfantes e necess\u00e1rias, como quem diz: \u201cCumpri minha parte.\u201d Mas eu juro que, se prestar aten\u00e7\u00e3o bem no fio do horizonte, ainda ver\u00e1 um resto, um tra\u00e7o, uma cicatriz luminosa do crep\u00fasculo que se foi, porque, amigo, as coisas realmente belas nunca v\u00e3o embora por completo; elas apenas se disfar\u00e7am de mem\u00f3ria para continuarem vivas dentro da gente. E \u00e9 essa mem\u00f3ria que nos faz olhar para os postes, para os far\u00f3is, para as janelas iluminadas dos pr\u00e9dios, e enxergar, em cada uma delas, o eco daquela tarde dourada que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais aqui, mas que deixou, em cada facho de luz artificial, um pouquinho do seu calor emprestado.<\/p>\n<p>Assim, termina o percurso, ou melhor, n\u00e3o a termina, apenas a deixa-se em suspenso, como a luz que ainda hesita antes de se firmar. Porque a conversa entre o crep\u00fasculo e a cidade n\u00e3o tem fim; ela se renova a cada entardecer, a cada sexta-feira, a cada esquina onde um cora\u00e7\u00e3o sens\u00edvel decide parar para escutar. Fique com esse esplendor no peito, e amanh\u00e3, quando acordar, lembre-se de que a cidade j\u00e1 est\u00e1 guardando o seu melhor tom de laranja para esper\u00e1-lo novamente, pontual, silenciosa, eterna como s\u00f3 as coisas que nascem da alma sabem ser.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013 Perfeito, o mapa do tempo. 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