{"id":4302,"date":"2026-07-31T23:12:33","date_gmt":"2026-08-01T02:12:33","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4302"},"modified":"2026-07-31T23:12:33","modified_gmt":"2026-08-01T02:12:33","slug":"o-ultimo-brilho-terno-do-marmore-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4302","title":{"rendered":"O \u00faltimo brilho terno do m\u00e1rmore. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/Minc \u2013<\/strong>\u00a0 A tarde no Recife Antigo tem uma pregui\u00e7a que s\u00f3 os paralelep\u00edpedos molhados pelo calor entendem, e \u00e9 nessa hora em que o sol se derrama pelas frestas das janelas coloniais que o velho boteco da esquina acende suas l\u00e2mpadas amareladas como quem acende uma lembran\u00e7a. A mesa de m\u00e1rmore, aquela que fica rente \u00e0 cal\u00e7ada e j\u00e1 viu tantos copos de cana suarem sobre sua superf\u00edcie fria, estava ali, im\u00f3vel, com suas bordas lascadas que mais parecem rugas de um anci\u00e3o que se recusa a contar seus segredos, e foi sobre ela que meus olhos encontraram o homem de cabelos j\u00e1 pintados de sal e gestos contidos, sentado sozinho, com as m\u00e3os envoltas em torno de um copo cujo l\u00edquido permanecia intocado enquanto seus dedos tra\u00e7avam c\u00edrculos lentos sobre o m\u00e1rmore gasto. N\u00e3o havia pressa em seus movimentos, e n\u00e3o havia tamb\u00e9m aquela tristeza vulgar que se v\u00ea nos bares quando algu\u00e9m bebe para esquecer, havia sim uma quietude de quem est\u00e1 em miss\u00e3o, de quem voltou a um lugar sagrado para rezar com os olhos, e foi nessa quietude que eu me permiti observar, n\u00e3o por curiosidade mals\u00e3, mas por aquela intui\u00e7\u00e3o que nos avisa quando estamos diante de uma hist\u00f3ria que merece ser ouvida.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Ele parecia esperar algu\u00e9m, mas a espera nele n\u00e3o tinha o desespero de quem ainda acredita no encontro, tinha a serenidade de quem j\u00e1 aprendeu que o amor verdadeiro n\u00e3o precisa da presen\u00e7a f\u00edsica para continuar batendo no peito, e foi justamente essa serenidade que me fez aproximar e pedir licen\u00e7a para sentar \u00e0 mesma mesa, um gesto que ele recebeu com um aceno de cabe\u00e7a que valia mais do que qualquer palavra, como se a solid\u00e3o compartilhada fosse melhor do que a solid\u00e3o absoluta. O gar\u00e7om, um senhor negro de olhos cansados e m\u00e3os calejadas pelo tempo, trouxe-lhe um segundo copo sem que ele pedisse, e foi nesse gesto de intimidade que entendi que aquele homem era um frequentador antigo, daqueles que o boteco j\u00e1 incorporou \u00e0 sua pr\u00f3pria alma, e foi ent\u00e3o que ele, sem tirar os olhos do m\u00e1rmore, come\u00e7ou a falar, n\u00e3o para mim, mas para a pedra que testemunhava sua hist\u00f3ria, como se o m\u00e1rmore fosse o \u00fanico confession\u00e1rio capaz de absolver os anos perdidos.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Ele contou que, quarenta anos atr\u00e1s, naquela mesma mesa, ele e uma mo\u00e7a de vestido azul e sorriso de frevo haviam selado o amor mais bonito que suas vidas poderiam conhecer, e que o m\u00e1rmore, naquela \u00e9poca, era liso e brilhante como a superf\u00edcie do mar em dia de calmaria, exatamente como os olhos dela quando ela olhava para ele por cima das bordas do copo. Eles eram jovens e tolos, disse ele com um sorriso que n\u00e3o alcan\u00e7ou os olhos, e a tolice deles era achar que o amor bastava para vencer o mundo, mas o mundo, esse velho senhor de garras afiadas, tinha outros planos para eles, porque a fam\u00edlia dela exigia que ela partisse para a Europa em busca de estudos e de um futuro que o Recife, naqueles anos, n\u00e3o podia oferecer a uma mulher de sua posi\u00e7\u00e3o, e ele, filho de um pescador e neto de um oper\u00e1rio, n\u00e3o tinha nem o dinheiro da passagem para acompanh\u00e1-la, muito menos o orgulho de pedir que ela abrisse m\u00e3o de seus sonhos por um amor que ainda n\u00e3o tinha provado seu valor.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">A despedida deles aconteceu exatamente naquela mesa, numa noite em que a lua parecia ter descido para beber com eles a \u00faltima cana, e ele se recorda at\u00e9 hoje do cheiro do mar que entrava pela porta aberta e se misturava ao perfume de jasmim que ela usava, uma combina\u00e7\u00e3o que at\u00e9 hoje, quarenta anos depois, faz seu cora\u00e7\u00e3o disparar quando algum vento mais ousado lhe traz essa lembran\u00e7a olfativa. Ela pegou as m\u00e3os dele sobre o m\u00e1rmore frio e disse que o amava, que o amaria para sempre, mas que precisava ir, e ele, com a garganta apertada e os olhos marejados, respondeu que a amava tanto que preferia v\u00ea-la feliz longe dele do que v\u00ea-la infeliz ao seu lado, e foi nesse instante que eles fizeram um pacto silencioso, um pacto que nenhuma palavra poderia quebrar, e se beijaram com a intensidade de quem sabe que aquele era o \u00faltimo beijo, mas tamb\u00e9m com a do\u00e7ura de quem sabia que aquele beijo atravessaria os continentes e os anos como uma mensagem em uma garrafa que nunca afunda. Ele a levou at\u00e9 o cais na manh\u00e3 seguinte, e quando o navio se afastou e ela acenava do conv\u00e9s com um len\u00e7o branco, ele sentiu que algo se partia dentro de si, mas n\u00e3o era o amor, era apenas a forma f\u00edsica do amor, porque a ess\u00eancia, aquela coisa et\u00e9rea e indestrut\u00edvel, ficou plantada ali, no peito dele, como uma \u00e1rvore de ra\u00edzes profundas que nem o tempo mais severo consegue arrancar.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Ele nunca mais a viu, e soube por cartas espor\u00e1dicas que ela se casou com um diplomata e teve filhos, e que a vida dela foi confort\u00e1vel e segura, mas ele sempre soube, por uma intui\u00e7\u00e3o que o amor concede aos seus fi\u00e9is devotos, que o cora\u00e7\u00e3o dela guardava um quarto vazio exatamente com a decora\u00e7\u00e3o daquele boteco, com a luz amarelada e o cheiro de cana e jasmim, e que nesse quarto ela tamb\u00e9m sentava para lembrar dele nos dias em que a solid\u00e3o batia \u00e0 porta da mans\u00e3o europeia. Ele, por sua vez, nunca se casou, n\u00e3o por falta de oportunidades ou de afeto, mas porque seria desonesto entregar a outra mulher um cora\u00e7\u00e3o que j\u00e1 estava ocupado por inteiro, um cora\u00e7\u00e3o que aprendera a viver na saudade como quem vive em uma casa antiga e confort\u00e1vel, onde cada m\u00f3vel \u00e9 uma mem\u00f3ria e cada janela \u00e9 uma lembran\u00e7a do rosto amado. Ele conta que voltou a esta mesa em todos os anivers\u00e1rios da partida dela, n\u00e3o com a expectativa de reencontr\u00e1-la, mas com a necessidade de reafirmar para o m\u00e1rmore que o amor ainda est\u00e1 ali, pulsante e vivo, e que a dist\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 uma medida geogr\u00e1fica, mas uma condi\u00e7\u00e3o da alma, e que a alma dele, por mais que os anos tivessem enrugado sua pele e embranquecido seus cabelos, continuava t\u00e3o jovem e apaixonada quanto naquela noite em que ela segurou suas m\u00e3os sobre a pedra fria.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">O gar\u00e7om trouxe mais dois copos de caldo de cana, e o homem pegou um deles e ergueu para o c\u00e9u, num brinde silencioso que eu entendi ser dedicado a ela, onde quer que ela estivesse naquele momento, e foi ent\u00e3o que ele tirou do bolso interno do palet\u00f3 uma fotografia desbotada, onde uma mo\u00e7a de vestido azul e sorriso de frevo posava ao lado de um rapaz de cabelos negros e olhos cheios de futuro, e ele colocou a fotografia sobre o m\u00e1rmore, exatamente no centro, como quem coloca uma vela em um altar, e eu pude ver que o m\u00e1rmore, naquele ponto espec\u00edfico, tinha um brilho diferente, um brilho que n\u00e3o vinha da luz do poste nem do reflexo do copo, mas que parecia vir de dentro da pr\u00f3pria pedra, como se o material tivesse absorvido ao longo dos anos a energia daquele amor e agora a devolvesse em forma de um lampejo dourado. O homem olhou para mim, e seus olhos estavam secos, mas havia neles uma umidade profunda que n\u00e3o era l\u00e1grima, era a pr\u00f3pria ess\u00eancia da emo\u00e7\u00e3o contida, e ele disse que aquela fotografia o acompanhava todos os dias e que, todas as noites, antes de dormir, ele beijava o rosto da mo\u00e7a e pedia a Deus que a aben\u00e7oasse, porque amar algu\u00e9m, mesmo na dist\u00e2ncia, mesmo no sil\u00eancio, mesmo na aus\u00eancia total de contato, \u00e9 a forma mais pura de manter a chama acesa, \u00e9 a forma de dizer que o amor n\u00e3o exige posse, exige apenas fidelidade, e ele foi fiel, t\u00e3o fiel que o m\u00e1rmore daquela mesa se tornou a testemunha de uma devo\u00e7\u00e3o que poucos sant\u00e1rios poderiam igualar.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Quando ele se levantou para ir embora, j\u00e1 com a noite instalada sobre o Recife e os primeiros tambores do frevo ecoando ao longe, ele guardou a fotografia de volta no bolso, pagou a conta com uma nota antiga que parecia guardada h\u00e1 d\u00e9cadas, e antes de virar as costas para a mesa, ele passou a m\u00e3o sobre a superf\u00edcie do m\u00e1rmore com uma car\u00edcia t\u00e3o terna que eu jurei ver a pedra estremecer sob seus dedos. Ele foi embora sem olhar para tr\u00e1s, e eu fiquei ali, sentado, olhando para aquele peda\u00e7o de pedra que agora parecia respirar, e entendi que o amor verdadeiro n\u00e3o acaba quando a pessoa vai embora, o amor verdadeiro se transforma em uma subst\u00e2ncia mais densa e mais resistente, uma subst\u00e2ncia que se aloja nos objetos e nos lugares e nos espera, paciente, at\u00e9 que a morte ou o reencontro venham buscar o que \u00e9 seu. Eu levantei e, antes de pagar minha conta, toquei tamb\u00e9m o m\u00e1rmore com a ponta dos dedos, e senti um calor que n\u00e3o vinha do sol, um calor que vinha da hist\u00f3ria daquele homem e daquela mulher que, mesmo separados por oceanos e por d\u00e9cadas, continuavam amando um ao outro com a intensidade dos primeiros dias, e eu sa\u00ed do boteco com a certeza de que o Recife \u00e9 feito desses amores silenciosos que n\u00e3o cabem em cr\u00f4nicas, mas que precisam ser contados para que o mundo n\u00e3o se esque\u00e7a de que o cora\u00e7\u00e3o humano \u00e9 um oceano onde os navios partem, mas as \u00e2ncoras, essas ficam para sempre no fundo, firmes e brilhantes, esperando o dia em que as mar\u00e9s do destino as tragam de volta \u00e0 superf\u00edcie.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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