{"id":4295,"date":"2026-07-25T21:52:37","date_gmt":"2026-07-26T00:52:37","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4295"},"modified":"2026-07-25T21:52:37","modified_gmt":"2026-07-26T00:52:37","slug":"escritor-o-trabalhador-do-silencio-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4295","title":{"rendered":"Escritor: O trabalhador do sil\u00eancio. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><strong><span class=\"\">Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/Minc \u2013\u00a0 Escrever \u00e9 a \u00fanica profiss\u00e3o em que o sil\u00eancio conta como hora trabalhada.<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Nenhum escritor ignora o ritual de sentar diante da folha e pressentir que aquele ret\u00e2ngulo vazio cont\u00e9m tudo o que ainda n\u00e3o se disse e talvez nunca se diga com a inteireza que a vida cobra. O escritor n\u00e3o \u00e9 dono das palavras; \u00e9 o que aceita, todos os dias, o risco de ser tra\u00eddo por elas. A palavra chega sempre atrasada para o que sentimos, e escrever \u00e9 essa persegui\u00e7\u00e3o incans\u00e1vel, quase absurda, de alcan\u00e7ar com tinta o que o cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 viveu em sil\u00eancio muito antes.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Neste dia em que se celebra o of\u00edcio, vale lembrar que ningu\u00e9m se torna escritor por vaidade. Torna-se escritor por uma incapacidade incur\u00e1vel de viver sem examinar o que viveu. Existe quem atravesse o mundo e o mundo escorre por ele como \u00e1gua em superf\u00edcie lisa, sem deixar vest\u00edgio. O escritor \u00e9 o avesso disso. Nele, cada gesto alheio, cada palavra ouvida na fila do mercado, cada sil\u00eancio mal disfar\u00e7ado numa mesa de fam\u00edlia se deposita como sedimento. At\u00e9 que um dia, sem aviso, sobe \u00e0 superf\u00edcie e pede nome. Escrever, no fundo, \u00e9 essa obriga\u00e7\u00e3o silenciosa de batizar o que os outros preferem esquecer.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Houve um tempo em que escrever parecia coisa de quem tinha horas sobrando, um luxo de quem podia se dar ao prazer de ficar diante de um caderno enquanto a vida pr\u00e1tica pedia outras urg\u00eancias. Foi preciso se render ao of\u00edcio para entender que escrever n\u00e3o \u00e9 o oposto de viver. \u00c9 a forma mais honesta de habit\u00e1-lo. Quem escreve n\u00e3o foge do mundo. Mergulha nele com o pulm\u00e3o mais fundo e a respira\u00e7\u00e3o mais controlada, porque sabe que precisar\u00e1 trazer alguma coisa de l\u00e1 de baixo antes de voltar \u00e0 superf\u00edcie.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">O escritor vive de uma mat\u00e9ria estranha, que n\u00e3o se compra nem se ensina inteiramente em escola nenhuma: a aten\u00e7\u00e3o. Aten\u00e7\u00e3o ao modo como a luz entra pela janela \u00e0s cinco da tarde e muda de cor sem que ningu\u00e9m perceba. Aten\u00e7\u00e3o ao jeito como um velho segura o guarda-chuva antes de a chuva come\u00e7ar, como se soubesse de algo que o c\u00e9u ainda hesita em confirmar. Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 voz que treme ao telefone, mesmo quando a pessoa jura que est\u00e1 tudo bem. O mundo est\u00e1 cheio de sinais que a maioria atravessa apressada, achando que \u00e9 apenas ru\u00eddo de fundo. O escritor para. \u00c9 dessa parada, desse instante de suspens\u00e3o diante do banal, que nasce a p\u00e1gina.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Existe tamb\u00e9m um pre\u00e7o para isso. Porque quem escreve carrega uma solid\u00e3o que os outros n\u00e3o entendem bem, uma solid\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de gente, mas excesso de escuta. \u00c9 dif\u00edcil explicar a quem n\u00e3o escreve que a escrita n\u00e3o \u00e9 fuga da dor, \u00e9 o \u00fanico jeito encontrado de sobreviver a ela sem se render por completo. Escrevemos sobre pais que se foram cedo demais, sobre casas que carregamos dentro do peito mesmo quando j\u00e1 n\u00e3o existem em lugar nenhum do mundo, sobre m\u00e3es que resistiram no sil\u00eancio quando resistir era a \u00fanica forma poss\u00edvel de amor. Escrevemos n\u00e3o para explicar essas dores, mas para que elas deixem, finalmente, de nos possuir sozinhas.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Talvez por isso o escritor nunca termine de escrever o mesmo livro. Cada palavra nova \u00e9 uma tentativa de reescrever a primeira ferida, com outra luz, outro \u00e2ngulo, uma paci\u00eancia que a pr\u00f3pria escrita ensina. Existe quem pense que o escritor inventa hist\u00f3rias. N\u00e3o \u00e9 bem assim. O escritor decifra a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, devagar, ao longo de uma vida inteira, e o que os outros chamam de fic\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas o disfarce elegante que encontramos para dizer verdades que, ditas de frente, doeriam demais.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">E ainda assim, apesar de tudo isso, existe uma alegria secreta em escrever, uma alegria que n\u00e3o se confunde com felicidade f\u00e1cil, mas que sustenta o of\u00edcio quando tudo o mais parece pesado demais. \u00c9 a alegria de encontrar, depois de muitas tentativas, a frase exata. Aquela que n\u00e3o sobra nem falta. Aquela que, lida em voz alta, soa como se tivesse sempre existido, esperando apenas que algu\u00e9m tivesse a paci\u00eancia de tir\u00e1-la do ar e pous\u00e1-la no papel. Quem j\u00e1 sentiu isso sabe que n\u00e3o h\u00e1 dinheiro nem elogio que substitua essa satisfa\u00e7\u00e3o quieta, quase secreta, de ter dito, enfim, o que precisava ser dito.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Vivemos num tempo apressado, que celebra a velocidade e desconfia da demora. Escrever \u00e9 um gesto contra essa pressa. \u00c9 insistir que existe valor em parar, reler, cortar, refazer, buscar a palavra certa mesmo quando a errada j\u00e1 resolveria o par\u00e1grafo. Num mundo que fala demais e escuta de menos, o escritor \u00e9 aquele que ainda acredita que as palavras merecem ser escolhidas com cuidado, porque cada uma delas vai morar na cabe\u00e7a de algu\u00e9m depois de lida, e essa hospedagem silenciosa \u00e9 uma responsabilidade que n\u00e3o se deve tratar com leviandade.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">Se voc\u00ea nunca escreveu nada al\u00e9m de uma lista de compras ou um bilhete apressado, talvez pense que este texto n\u00e3o fala com voc\u00ea. Mas fala. Porque todo mundo carrega dentro de si um escritor que n\u00e3o teve coragem de come\u00e7ar. Est\u00e1 ali a mem\u00f3ria que voc\u00ea nunca contou, a carta que nunca enviou, o nome do av\u00f4 que ningu\u00e9m mais lembra de pronunciar. Escrever n\u00e3o pede talento extraordin\u00e1rio. Pede apenas a disposi\u00e7\u00e3o de olhar para dentro sem pressa e a coragem de admitir que o que d\u00f3i tamb\u00e9m merece ser dito com beleza.<\/span><\/p>\n<p class=\"ds-markdown-paragraph\"><span class=\"\">No fim, ser escritor n\u00e3o \u00e9 uma profiss\u00e3o que se escolhe pela manh\u00e3 e se abandona \u00e0 noite. \u00c9 uma forma de estar no mundo, de atravessar os dias recolhendo o que os outros deixam cair pelo caminho. E quando a vida parecer curta demais para conter tudo o que vivemos, restar\u00e1 sempre essa certeza modesta e definitiva: enquanto houver algu\u00e9m disposto a transformar sil\u00eancio em frase, a mem\u00f3ria do mundo continuar\u00e1 tendo onde morar.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/Minc \u2013\u00a0 Escrever \u00e9 a \u00fanica profiss\u00e3o em que o sil\u00eancio conta como hora trabalhada. 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