{"id":4267,"date":"2026-07-24T18:48:08","date_gmt":"2026-07-24T21:48:08","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4267"},"modified":"2026-07-24T18:48:08","modified_gmt":"2026-07-24T21:48:08","slug":"os-gatos-e-o-brasil-por-jose-paulo-cavalcanti-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4267","title":{"rendered":"Os gatos e o Brasil. Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho \u00a0\u2013 \u00a0Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. \u00c9\u00a0 um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comiss\u00e3o da Verdade\u00a0 \u2013\u00a0 <\/em><\/strong>Come\u00e7o essa conversa com uma hist\u00f3ria real que se deu na Rua Maria Ramos (Olinda). Jos\u00e9 (o interessado pediu para omitir seu nome) tentava viver noites calmas na casa que acabara de construir. Ocorre que vizinha, dona Mirian, era amante de gatos. Alimentando, regularmente, 20 deles.<\/p>\n<p>Aqui, v\u00eania para lembrar felinos que viviam na casa do mestre Edson Nery e ficavam enroscados em nossas pernas, quando \u00edamos l\u00e1. Ou o amigo Fernando Pessoa que, inspirado em Bocage, escreveu poema (<em>sem t\u00edtulo, sem data<\/em>) sobre eles, dizendo \u201cGato que brincas na rua\/ Como se fosse na cama\/ Invejo a sorte que \u00e9 tua\/ Porque nem sorte se chama\u201d.<\/p>\n<p>Recordo por fim os \u201cFortes gatos suaves\u201d, como a eles se referia (em\u00a0<em>Flores do mal<\/em>) um dos precursores do simbolismo, Charles Baudelaire. Curioso \u00e9 que seu livro, assim que lan\u00e7ado, foi considerado \u201cimoral\u201d. N\u00e3o era. Mas essa \u00e9 outra hist\u00f3ria, com outros personagens, e fica para outro dia.<\/p>\n<p>Certo \u00e9 que, t\u00e3o logo constru\u00edda, passaram os gatos de dona Mirian a fazer Assembleia Geral no telhado da casa \u2013 uma placa de concreto, como o dessas casas modernosas \u2013 do referido Jos\u00e9. E t\u00e3o grande era o barulho da gatalhada que n\u00e3o dava para ningu\u00e9m dormir.<\/p>\n<p>Dona Miriam parada, n\u00e3o era problema dela. Assim pensava. E assim dizia, quando reclamavam. Foi quando os pedreiros Chico Muafa (de Passira) e Cleber (de Currais Novos) decidiram ajudar seu amigo e chegaram com a solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em tigelas de pl\u00e1stico, puseram Sardinhas Coqueiro, molho de tomate e cuscuz, tudo misturado com cimento. Enquanto, nas outras, \u00e1gua. Espalharam no telhado, antes de chegarem os gatos. Resultado, no dia seguinte, morreram 19 deles (escapou s\u00f3 um que, adoentado, ficou preso em casa pela dona). Como se tivessem uma parede de concreto armado nas suas barrigas duras, coitados. Bem duras. E da\u00ed?, amigo leitor. Da\u00ed que crimes, se ocorridos, j\u00e1 prescreveram. Jos\u00e9 vendeu a casa e n\u00e3o mora mais por l\u00e1. Enquanto dona Miriam, ignora-se o que aconteceu com ela.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio lembra nosso Brasil. Onde os esc\u00e2ndalos se sucedem e fica tudo por isso mesmo. Como o Petrol\u00e3o, que p\u00f4s muita gente ilustre na cadeia \u2013 tesoureiros de partidos, pol\u00edticos (muito) influentes, ricos empres\u00e1rios. At\u00e9 que o Supremo anulou tudo, com base em tecnicabilidades (muito) discut\u00edveis. Dif\u00edcil de entender esse tipo de proceder, uma esp\u00e9cie de pr\u00eamio para a corrup\u00e7\u00e3o. Devolvidos todos \u00e0s ruas, proclamam agora terem sido \u201cinocentados\u201d. S\u00f3 mesmo rindo\u2026<\/p>\n<p>Depois os aposentados, coitados, miseravelmente assaltados. At\u00e9 um funcion\u00e1rio de nossa casa, Bigode; que sem sucesso reclamou dessa expropria\u00e7\u00e3o, por 9 meses, no INSS. Nem CPI o Sistema permitiu. Nenhum dirigente de Sindicato est\u00e1 sendo investigado. Nem parentes de pol\u00edticos ilustres. A conta? Pagamos n\u00f3s, com nossos impostos.<\/p>\n<p>Depois o Master. N\u00e3o morreu, ainda, s\u00f3 por conta do bravo ministro Andr\u00e9 Mendon\u00e7a. Mas tudo conspira contra ele. Os poderosos do Brasil est\u00e3o em a\u00e7\u00e3o, para encerrar o caso. Ministros do Supremo (alguns) \u00e0 frente, claro. Assim, e por confiar no passado, Vorcaro nunca far\u00e1 Colabora\u00e7\u00e3o Premiada. Confia no passado e espera ser solto, em breve, para se juntar a sua turma boa.<\/p>\n<p>Voltando a nossa historinha, para encerrar. Se culpado houve, creio ser quem deveria cuidar dos gatos. E pena, mereciam melhor destino. Eles e hoje, permitam os leitores, todos n\u00f3s brasileiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho \u00a0\u2013 \u00a0Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. \u00c9\u00a0 um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comiss\u00e3o da Verdade\u00a0 \u2013\u00a0 Come\u00e7o essa conversa com uma hist\u00f3ria real que se deu na Rua Maria Ramos (Olinda). 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