{"id":4168,"date":"2026-07-10T21:34:58","date_gmt":"2026-07-11T00:34:58","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4168"},"modified":"2026-07-10T21:34:58","modified_gmt":"2026-07-11T00:34:58","slug":"as-gavetas-que-a-vida-abre-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4168","title":{"rendered":"As gavetas que a vida abre. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p class=\"isSelectedEnd\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/Minc\u00a0 \u2013 <\/strong>A vida possui uma estranha maneira de conservar aquilo que o tempo levou para longe dos nossos olhos e, por mais que a mem\u00f3ria se esforce para organizar os anos em alguma estante interior, colocando cada acontecimento no lugar onde imaginamos que deveria permanecer, sempre existe um papel esquecido entre p\u00e1ginas antigas, uma data que perdeu o endere\u00e7o dentro de n\u00f3s ou alguma pequena inscri\u00e7\u00e3o feita pelo tempo que somente muitos anos depois voltar\u00e1 a ser encontrada.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Talvez seja por isso que envelhecer tamb\u00e9m signifique descobrir que a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um cart\u00f3rio perfeito da exist\u00eancia, desses onde cada fato recebe n\u00famero, carimbo, assinatura e lugar definitivo numa prateleira, porque lembramos principalmente daquilo que nos atravessou com maior intensidade, dos dias que deixaram cicatrizes, dos afetos que permaneceram, das perdas que modificaram nossa maneira de olhar o mundo e das alegrias que ainda hoje conseguem acender alguma claridade quando fechamos os olhos.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O restante vai sendo lentamente coberto pela poeira natural dos anos.\u00a0N\u00e3o por descuido.\u00a0N\u00e3o por abandono.\u00a0Simplesmente porque viver \u00e9 seguir.E quem segue n\u00e3o consegue carregar nas m\u00e3os todos os calend\u00e1rios que j\u00e1 atravessou, todas as agendas que um dia preencheu, todos os endere\u00e7os onde trabalhou, todos os projetos aos quais entregou uma parte da sua energia e cada detalhe das incont\u00e1veis manh\u00e3s que formaram silenciosamente a estrada percorrida.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O tempo possui uma capacidade extraordin\u00e1ria de transformar acontecimentos em paisagem.\u00a0Aquilo que um dia ocupou nossas preocupa\u00e7\u00f5es, exigiu decis\u00f5es e tomou horas inteiras da nossa vida vai perdendo, com o passar dos anos, a nitidez dos primeiros contornos, como uma fotografia antiga que ainda reconhecemos, embora j\u00e1 n\u00e3o sejamos capazes de lembrar a temperatura daquele dia, a roupa que vest\u00edamos ou o assunto que ocupava nossos pensamentos no instante em que algu\u00e9m apertou o bot\u00e3o da m\u00e1quina.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Foi pensando nisso que compreendi como a nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria \u00e9 muito maior do que a lembran\u00e7a que conseguimos guardar dela, porque a mem\u00f3ria humana escolhe seus marcos, ergue algumas placas ao longo da estrada e deixa quil\u00f4metros inteiros sem qualquer sinaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o porque esses trechos tenham sido menos verdadeiros, mas porque nenhum homem consegue transformar a pr\u00f3pria exist\u00eancia num relat\u00f3rio minucioso de tudo aquilo que viveu.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A vida n\u00e3o foi feita para ser arquivada enquanto acontece. Foi feita para ser vivida.\u00a0Somente depois, quando os anos j\u00e1 passaram e algum acontecimento nos leva de volta a uma \u00e9poca distante, percebemos quantos detalhes ficaram pelo caminho, misturados \u00e0s urg\u00eancias daquele tempo, \u00e0s mudan\u00e7as que vieram depois e ao movimento natural de uma exist\u00eancia que jamais permanece parada no mesmo lugar.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">E ent\u00e3o, numa manh\u00e3 absolutamente comum, uma informa\u00e7\u00e3o antiga pode surgir diante dos\u00a0 olhos.\u00a0N\u00e3o chega necessariamente carregando peso, nem precisa trazer consigo qualquer mist\u00e9rio grandioso. \u00c0s vezes \u00e9 apenas uma data. Um nome. Um registro. Uma linha escrita muitos anos antes e que, por alguma raz\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o encontrava correspond\u00eancia imediata dentro da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O espanto nasce exatamente desse desencontro.\u00a0O papel diz uma coisa.\u00a0A lembran\u00e7a procura a gaveta correspondente.\u00a0Durante alguns instantes, os dois n\u00e3o se encontram.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o estranha, porque fomos educados a imaginar que somos os maiores conhecedores da nossa pr\u00f3pria biografia e, de repente, alguma pequena anota\u00e7\u00e3o do passado nos obriga a percorrer novamente um trecho da estrada, n\u00e3o para mudar aquilo que vivemos, mas para compreender onde determinada informa\u00e7\u00e3o deve ser colocada na longa narrativa dos anos.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 assim que penso nas gavetas.N\u00e3o nas gavetas onde se escondem segredos, porque os segredos pertencem a outra literatura e quase sempre carregam um peso que n\u00e3o desejo trazer para estas palavras.\u00a0Pensei nas gavetas dos arquivos antigos.\u00a0Naquelas de madeira pesada que existiam nos escrit\u00f3rios de outros tempos, repletas de pastas amareladas, recibos, fotografias, of\u00edcios, jornais dobrados e documentos que sobreviveram \u00e0s pessoas que um dia os manusearam diariamente.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Durante anos ningu\u00e9m abre uma determinada gaveta porque ningu\u00e9m precisa daquilo que est\u00e1 dentro dela.\u00a0A vida segue seu curso, os escrit\u00f3rios mudam, as m\u00e1quinas de escrever desaparecem, os telefones ganham telas, os jornais chegam aos computadores e aquilo que um dia parecia indispens\u00e1vel repousa em sil\u00eancio, vencido pelas novas urg\u00eancias.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">At\u00e9 que algu\u00e9m procura uma coisa e encontra outra.\u00a0Talvez uma das experi\u00eancias mais curiosas da maturidade seja perceber quantas vezes encontramos uma parte do passado quando est\u00e1vamos procurando apenas uma resposta para o presente.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Nesses momentos, o cora\u00e7\u00e3o humano costuma se apressar e a imagina\u00e7\u00e3o, sempre mais veloz do que os fatos, tenta preencher imediatamente os espa\u00e7os que a mem\u00f3ria ainda n\u00e3o conseguiu alcan\u00e7ar.\u00a0Os anos me ensinaram a desconfiar dessa pressa.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Nem toda pergunta anuncia uma trag\u00e9dia.\u00a0Nem todo papel antigo carrega uma senten\u00e7a.\u00a0Nem toda data esquecida representa alguma coisa al\u00e9m daquilo que realmente \u00e9: uma data que o tempo levou para longe da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Por isso, quando uma gaveta antiga se abre, talvez a melhor atitude seja aproximar a cadeira, colocar os pap\u00e9is sobre a mesa e come\u00e7ar a l\u00ea-los com a serenidade poss\u00edvel, permitindo que cada informa\u00e7\u00e3o encontre seu lugar antes que a imagina\u00e7\u00e3o decida escrever uma hist\u00f3ria por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A verdade gosta de documentos, mas tamb\u00e9m precisa de paci\u00eancia.\u00a0Uma data conversa com outra.\u00a0Um nome conduz a um endere\u00e7o. Um endere\u00e7o devolve \u00e0 mem\u00f3ria uma \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">E pouco a pouco aquilo que parecia estranho come\u00e7a a encontrar seu lugar no grande mapa da exist\u00eancia, esse mapa imperfeito que nenhum de n\u00f3s recebe pronto e que vamos desenhando enquanto caminhamos, muitas vezes sem perceber a extens\u00e3o das estradas que ficaram para tr\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Hoje pensei demoradamente sobre isso e compreendi que talvez todos n\u00f3s carreguemos uma esp\u00e9cie de arquivo incompleto de n\u00f3s mesmos.\u00a0N\u00e3o porque alguma coisa tenha sido escondida.\u00a0N\u00e3o porque algu\u00e9m tenha apagado p\u00e1ginas.\u00a0Mas porque o tempo \u00e9 maior do que a mem\u00f3ria e a vida, em sua vastid\u00e3o, produz mais acontecimentos do que somos capazes de guardar.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Somos feitos tamb\u00e9m das coisas que esquecemos.\u00a0Dos lugares cujos n\u00fameros j\u00e1 n\u00e3o lembramos.\u00a0Das datas que perderam import\u00e2ncia.\u00a0Dos pap\u00e9is que um dia estiveram sobre nossas mesas e depois seguiram seus pr\u00f3prios destinos pelas reparti\u00e7\u00f5es, arquivos e corredores burocr\u00e1ticos do mundo.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Alguns deles talvez permane\u00e7am durante d\u00e9cadas esperando que uma busca qualquer os devolva aos nossos olhos.\u00a0Quando isso acontece, sentimos o peso dos anos.\u00a0N\u00e3o necessariamente um peso de tristeza, mas aquela esp\u00e9cie de sil\u00eancio que nasce quando percebemos a dist\u00e2ncia existente entre o homem que somos e todos os homens que j\u00e1 fomos ao longo da vida.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O jovem que come\u00e7ou um projeto.\u00a0O homem que atravessou uma fase dif\u00edcil.\u00a0Aquele que mudou de caminho.\u00a0Aquele que precisou recome\u00e7ar.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Todos continuam, de alguma maneira, vivendo dentro da mesma biografia, embora nem sempre conversem diariamente entre si.\u00a0Talvez as gavetas que a vida abre sirvam exatamente para isso.\u00a0Para reunir, por alguns instantes, o homem de hoje e aquele que caminhou por uma rua distante muitos anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Um olha para o outro atrav\u00e9s do tempo. Nenhum precisa acusar o outro de esquecimento.\u00a0Nenhum precisa perguntar por que determinadas lembran\u00e7as perderam seus contornos. Basta compreender que ambos fizeram o que puderam com os dias que receberam.\u00a0A vida continuou.\u00a0O calend\u00e1rio cumpriu seu of\u00edcio.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">E o tempo, esse velho funcion\u00e1rio que nunca encerra o expediente, continuou guardando pap\u00e9is que a mem\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o carregava.\u00a0De vez em quando, uma gaveta se abre.Quando isso acontecer, penso que devemos receber o passado com serenidade, retirar a poeira dos documentos e permitir que os fatos contem aquilo que ainda conseguem contar.\u00a0Sem medo.\u00a0Sem impress\u00f5es deslocadas.\u00a0Sem obrigar a imagina\u00e7\u00e3o a ocupar o lugar da verdade.\u00a0Porque a vida j\u00e1 \u00e9 suficientemente longa, complexa e surpreendente para que ainda precisemos inventar labirintos onde talvez exista apenas um velho arquivo esperando ser organizado.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Hoje, diante de uma dessas gavetas, escolhi aproximar a cadeira.\u00a0\u00a0E come\u00e7ar a ler. Tentar decifrar a vida. Rever todos mapas feitos com sonhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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