{"id":3967,"date":"2026-06-19T20:49:39","date_gmt":"2026-06-19T23:49:39","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=3967"},"modified":"2026-06-19T21:20:56","modified_gmt":"2026-06-20T00:20:56","slug":"sera-isto-um-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=3967","title":{"rendered":"SER\u00c1 ISTO UM HOMEM?"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-lg-1 text-center mb-4 mb-lg-0\">\n<div class=\"floating-toolbar\">\n<p>Alunos protestam no Col\u00e9gio Pedro II ap\u00f3s caso de estupro coletivo &#8211; Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<p><strong>Como a socializa\u00e7\u00e3o de meninos e adolescentes vem desembocando em misoginia e viol\u00eancia de g\u00eanero<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Por Carolina Tarrio &#8211; Da REVISTA PIAU\u00cd &#8211; de S\u00e3o Paulo &#8211;\u00a0<\/strong> Escolas<\/em> particulares da classe alta em S\u00e3o Paulo, nas quais \u00e9 comum os professores discorrerem sobre humanismo, direitos de minorias e consci\u00eancia social, t\u00eam sido palco de comportamentos cada vez mais violentos e mis\u00f3ginos por parte dos estudantes. Em uma das escolas, ao final de uma aula de artes, dois alunos imobilizaram um colega sobre uma mesa, enquanto outro abria suas pernas e gritava para a turma toda ouvir: \u201cAgora, eu vou ensinar como se estupra.\u201d Em outra escola foi descoberto um grupo de WhatsApp intitulado Amigos do Epstein (em refer\u00eancia ao abusador americano Jeffrey Epstein), no qual circulava uma lista de \u201cmeninas estupr\u00e1veis\u201d. Nos dois casos, os envolvidos eram todos menores de idade, entre 13 e 15 anos. Uma terceira escola, com mensalidades que ultrapassam os 5 mil reais, expulsou no in\u00edcio do ano nove alunos acusados de agredir sexualmente um colega de 14 anos durante uma viagem.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-lg-6\">\n<div id=\"poool-content\" class=\"artigo_texto font-electra article_body mb-xxl position-relative\" data-poool=\"\" data-poool-id=\"lCPvmxjwKXe7gcG79ZwgzHbUNaRoNGTRFMONZgEuVSWxA5PeWUlMNc2Ume9fnvHN\" data-login-url=\"https:\/\/piaui.uol.com.br\/entrar\/?next=\/web\/sera-isto-um-homem\/\" data-subscription-url=\"https:\/\/piaui.uol.com.br\/assine\/?next=\/web\/sera-isto-um-homem\/\" data-register-url=\"https:\/\/piaui.uol.com.br\/assine\/cadastro_simples\/?next=\/web\/sera-isto-um-homem\/\" data-article-type=\"4\">\n<p data-original-font-size=\"24\">A crescente viol\u00eancia n\u00e3o atinge apenas os col\u00e9gios da elite. Em uma escola p\u00fablica na Zona Norte de S\u00e3o Paulo, a pol\u00edcia civil\u00a0investiga uma den\u00fancia de estupro coletivo cometido contra um menino de 12 anos\u00a0no banheiro da institui\u00e7\u00e3o. Quatro estudantes, do s\u00e9timo ao nono ano, s\u00e3o apontados como suspeitos. Em outra escola p\u00fablica, tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo, adolescentes do ensino m\u00e9dio montaram um grupo de WhatsApp para uma competi\u00e7\u00e3o: quem beijava mais meninas. Definiram uma pontua\u00e7\u00e3o para diferentes perfis, segundo a qual garotas \u201cgordas e feias\u201d subtra\u00edam pontos na disputa. Para comprovar os beijos, fotos eram compartilhadas no grupo. Um dos estudantes disse que tamb\u00e9m foram publicados v\u00eddeos de sexo, o que levava a uma pontua\u00e7\u00e3o maior. Se algum participante manifestava desconforto com a situa\u00e7\u00e3o, era ofendido pelo grupo ou exclu\u00eddo dele. Aqueles que n\u00e3o queriam participar da iniciativa tinham sua masculinidade questionada.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">O aumento das agress\u00f5es caminha em paralelo com o sofrimento emocional de crian\u00e7as e adolescentes. S\u00e3o alarmantes os n\u00fameros trazidos pela Pesquisa Nacional de Sa\u00fade Escolar (<a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/sociais\/populacao\/9134-pesquisa-nacional-de-saude-do-escolar.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-original-font-size=\"24\">pense<\/a>), divulgada em abril passado pelo IBGE: tr\u00eas em cada dez alunos dizem se sentir tristes sempre ou em boa parte do tempo. Chega a 42,9% a quantidade dos que se sentem \u201cirritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa\u201d. Para 18,5%, sempre ou na maioria das vezes ocorre o pensamento de que \u201ca vida n\u00e3o vale a pena ser vivida\u201d. Realizada com 118.099 estudantes de 13 a 17 anos, em 4.167 escolas p\u00fablicas e privadas de todas as regi\u00f5es do pa\u00eds, a pesquisa inclui tamb\u00e9m dados sobre a rela\u00e7\u00e3o dos alunos com a fam\u00edlia e a comunidade. Pouco mais de um ter\u00e7o acha que os pais ou respons\u00e1veis n\u00e3o entendem seus problemas e preocupa\u00e7\u00f5es, e 20% contam que foram agredidos fisicamente pelo pai, a m\u00e3e ou o respons\u00e1vel pelo menos uma vez nos doze meses anteriores \u00e0 pesquisa. Para 26,1% dos adolescentes, ningu\u00e9m est\u00e1 preocupado com eles.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">A esse estado emocional, acrescentam-se as dificuldades de relacionamento, sobretudo com o g\u00eanero oposto, como aponta o m\u00e9dico pediatra Daniel Becker. \u201cA realidade de crian\u00e7as e adolescentes hoje \u00e9 cada vez mais de isolamento, no quarto, com horas e horas de computador e celular, em redes sociais desenhadas para viciar e reter a aten\u00e7\u00e3o, com conte\u00fados cada vez mais radicais.\u201d Segundo Becker, a falta de perspectivas diante do futuro, a press\u00e3o por uma boa performance escolar e social e a valoriza\u00e7\u00e3o extremamente narcisista da individualidade s\u00e3o agravadas pelo ambiente das redes, onde todos de algum modo se exp\u00f5em e se vigiam.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">\u00c9 tamb\u00e9m nas redes que proliferam mensagens mis\u00f3ginas, propagadas por grupos masculinistas, que cresceram mais de seiscentas vezes entre 2019 e 2025, de acordo com um estudo rec\u00e9m-divulgado pelo Laborat\u00f3rio de Estudos sobre Desordem Informacional e Pol\u00edticas P\u00fablicas (DesinfoPop), da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas. Intitulado\u00a0<em data-original-font-size=\"24\">A machosfera \u00e9 pol\u00edtica: constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e ataques a pol\u00edticas de g\u00eanero<\/em>, o estudo identificou mais de 220 mil usu\u00e1rios ativos, em 85 comunidades mapeadas, espa\u00e7os que servem n\u00e3o apenas para fazer ataques \u00e0s mulheres, mas como ambientes de doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica radical.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Esses e outros fatores est\u00e3o criando uma juventude conservadora ou ultraconservadora, de acordo com uma pesquisa realizada com 23 mil jovens, em 29 pa\u00edses, pelo<a href=\"https:\/\/www.kcl.ac.uk\/news\/almost-a-third-of-gen-z-men-agree-a-wife-should-obey-her-husband\" data-original-font-size=\"24\">\u00a0King\u2019s College<\/a>, de Londres. A enquete, divulgada em mar\u00e7o, apontou que 61% dos rapazes da chamada Gera\u00e7\u00e3o Z (nascidos entre 1997 e 2012, ou seja, com idades entre 14 e 29 anos) acreditam que \u201ca igualdade de direitos entre mulheres e homens foi longe demais\u201d. Para 31% deles, \u201ca mulher deve sempre obedecer ao marido\u201d, sendo que 33% concordam que \u201co homem sempre deve ter a palavra final quando se trata de decis\u00f5es importantes\u201d. Entre os\u00a0<em data-original-font-size=\"24\">baby boomers<\/em> (as pessoas nascidas entre 1946 e 1964, com idades entre 62 e 80 anos) apenas 13% e 17% est\u00e3o de acordo com as duas \u00faltimas afirma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Outras respostas de jovens da Gera\u00e7\u00e3o Z indicam que a pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o do papel masculino passa por uma guinada: 43% acreditam que \u201cos homens devem tentar ser fisicamente fortes, mesmo que n\u00e3o sejam naturalmente grandes\u201d. Para 32%, \u201chomens devem resolver seus problemas sozinhos, sem pedir ajuda a ningu\u00e9m\u201d, enquanto 30% pensam que \u201chomens n\u00e3o deveriam dizer \u2018eu te amo\u2019 a seus amigos\u201d.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">A fil\u00f3sofa Simone de Beauvoir, em seu livro\u00a0<em data-original-font-size=\"24\">O segundo sexo<\/em> (1949), defendeu que ser mulher (ou homem) \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social, cultural e hist\u00f3rica, moldada pela educa\u00e7\u00e3o e as expectativas, muito mais do que por um destino biol\u00f3gico. Na concep\u00e7\u00e3o de Beauvoir, n\u00e3o se nasce homem: torna-se homem. E tudo indica que a maneira como se constr\u00f3i o papel masculino est\u00e1 mudando de forma r\u00e1pida \u2013 e preocupante \u2013 tanto no Brasil como no mundo.<\/p>\n<p class=\"drop-cap\" data-original-font-size=\"24\">Uma s\u00e9rie de motivos v\u00eam sendo apontados para a radicaliza\u00e7\u00e3o masculinista e para a amplia\u00e7\u00e3o da misoginia nas escolas. \u201cUm aspecto relevante \u00e9 o acesso precoce \u00e0 pornografia, muito facilitado j\u00e1 faz uns dez ou quinze anos\u201d, diz Deborah Cardoso, psicanalista e ex-orientadora do Col\u00e9gio Santa Cruz, em S\u00e3o Paulo. \u201cTrata-se de uma pornografia com cenas de subjuga\u00e7\u00e3o da mulher, de viol\u00eancia. S\u00e3o imagens que desumanizam e nas quais o desejo feminino n\u00e3o est\u00e1 em jogo.\u201d Para Cardoso, \u201cos meninos v\u00eam tendo uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 vida sexual por meio de representa\u00e7\u00f5es muito distantes de um relacionamento, de uma linguagem de carinho e troca.\u201d<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Al\u00e9m do acesso f\u00e1cil e descontrolado \u00e0 pornografia desde muito cedo, a dissemina\u00e7\u00e3o de mensagens mis\u00f3ginas, inclusive por figuras pol\u00edticas, amplifica o problema. \u201cQuando um pol\u00edtico diz algo antes indiz\u00edvel \u2013 como fez Bolsonaro ao falar: \u2018Eu n\u00e3o te estupro porque voc\u00ea n\u00e3o merece\u2019 \u2013 e depois fica protegido pela imunidade parlamentar, esse j\u00e1 \u00e9 um passo no sentido de tornar aquele ato realiz\u00e1vel\u201d, diz a antrop\u00f3loga Isabela Venturoza, doutoranda na Unicamp e pesquisadora do N\u00facleo de Estudos sobre Marcadores Sociais de Diferen\u00e7a (Numa\/usp). \u201cO que era tabu passa a ser explicitado, repetido, e vai se normalizando. Essa foi a estrat\u00e9gia da extrema direita: ir testando limites e aumentando o volume. Da mesma forma que conte\u00fados na internet muitas vezes trataram do caso Jeffrey Epstein como meme.\u201d<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Coordenador do document\u00e1rio\u00a0<em data-original-font-size=\"24\">O sil\u00eancio dos homens<\/em>, sobre a constru\u00e7\u00e3o social da masculinidade no Brasil, o jornalista e mestre em fotografia documental Ismael dos Anjos diz que a diferen\u00e7a entre o machismo e a misoginia do passado e as suas manifesta\u00e7\u00f5es atuais \u00e9 que o discurso agora est\u00e1 sendo estruturado e embalado como entretenimento para os jovens. \u201cOs meninos nem sempre conseguem identificar esse conte\u00fado como mis\u00f3gino. E tem muita gente monetizando com isso\u201d, diz Anjos, que tamb\u00e9m d\u00e1 consultoria a escolas sobre g\u00eanero e ra\u00e7a. Ele ressalta que, enquanto as meninas v\u00eam sendo ensinadas a agirem com cada vez mais independ\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 grande mudan\u00e7a no discurso dirigido aos meninos. \u201cMuitos ainda escutam: \u2018Seja homem!\u2019 e percebem que esse \u2018ser homem\u2019 inclui rela\u00e7\u00f5es baseadas na domina\u00e7\u00e3o, na competi\u00e7\u00e3o com seus pares e em bloquear sensa\u00e7\u00f5es e sentimentos que eles muitas vezes sequer aprendem a nomear. Como se a \u00fanica linguagem aceita fosse a da raiva e da agressividade.\u201d<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Isabela Venturoza e Ismael dos Anjos coordenam grupos de reflex\u00e3o \u2013 como s\u00e3o chamados pelos pesquisadores \u2013 com adolescentes, em escolas onde ocorreram casos de misoginia e viol\u00eancia. Nesses grupos, os participantes contam suas experi\u00eancias, sem pr\u00e9-julgamentos, com o objetivo de tentar compreender o que os levou a naturalizar certos comportamentos. \u201cA mudan\u00e7a vai se dando a partir da forma\u00e7\u00e3o de um v\u00ednculo com o grupo, at\u00e9 que cada um se sinta \u00e0 vontade para falar de si, das agress\u00f5es sofridas e praticadas, e de temas como o que \u00e9 ser homem\u201d, conta Venturoza. Entre quinze e vinte alunos participam em cada grupo, a depender da escola, incluindo diferentes estudantes, e n\u00e3o apenas os que cometeram as agress\u00f5es.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">No ano passado, Mariano<a href=\"https:\/\/piaui.uol.com.br\/web\/sera-isto-um-homem\/#nota1\" rel=\"noopener\" data-original-font-size=\"24\">[\u00b9]<\/a>, hoje com 18 anos, morador de um bairro de classe alta em S\u00e3o Paulo, foi suspenso por duas semanas. Ele intimidou e humilhou colegas em um grupo de WhatsApp exclusivamente masculino, no qual circulavam mensagens mis\u00f3ginas e amea\u00e7as, como \u201cvou tomar o dinheiro do seu lanche\u201d e \u201cvou te estuprar\u201d. Ele e os demais participantes do grupo de WhatsApp foram obrigados a participar das reuni\u00f5es coordenadas por Venturoza e Anjos. No grupo de reflex\u00e3o, surgiu a conversa sobre pornografia. \u201cLembro que um professor ficou surpreso porque dissemos que muitos v\u00eddeos mostravam homens baixando a cabe\u00e7a de mulheres para elas fazerem sexo oral neles. Para o professor, isso era meio bizarro, mas para n\u00f3s \u00e9 normal. Tanto que at\u00e9 para as meninas hoje \u00e9 normal, sabe?\u201d, conta o estudante.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Mariano ficou apreensivo, achando que seria repreendido no grupo de reflex\u00e3o. \u201cMe surpreendi\u201d, ele afirma. \u201cAs pessoas falaram de coisas que nunca tinham contado para as outras, como as rela\u00e7\u00f5es com a fam\u00edlia e as press\u00f5es que sofriam dos amigos. Entendi que muitos de n\u00f3s acabamos sofrendo e replicando viol\u00eancias ou nos fechando.\u201d Ele diz que no Instagram e no TikTok circulam muitas mensagens mis\u00f3ginas e racistas. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o precisa curtir ou seguir um perfil. O conte\u00fado aparece no seu\u00a0<em data-original-font-size=\"24\">feed<\/em>. E voc\u00ea \u00e0s vezes olha e ri. Toda hora se faz piada disso nas redes, e mesmo que voc\u00ea ache bobo ou preconceituoso, acaba deixando passar. Acho que essa repeti\u00e7\u00e3o vai te anestesiando, vai fazendo com que voc\u00ea normalize aquilo. Eu sei que \u00e9 errado e meus amigos tamb\u00e9m, mas a gente faz\u201d, conta. \u201c\u00c9 claro que as pessoas tinham total direito de se sentirem incomodadas com os absurdos que a gente estava dizendo e fazendo no grupo. Olhando hoje, vejo que isso fazia parte de um jeito meio perverso de se enturmar.\u201d<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Em 2020, o Instagram lan\u00e7ou oficialmente o formato Reels, com v\u00eddeos de 15 a 30 segundos, para competir com o aplicativo chin\u00eas TikTok. Foi o ano do in\u00edcio da pandemia, durante a qual meninos e adolescentes se viram obrigados a se relacionar utilizando a media\u00e7\u00e3o de plataformas e telas, permanecendo muito mais tempo online. Justamente nesse per\u00edodo, quando estava com cerca de 13 anos, Silvio, que participou do mesmo grupo que Mariano, come\u00e7ou a se deparar frequentemente nas redes sociais com v\u00eddeos do influenciador Andrew Tate.<\/p>\n<div class=\"d-flex justify-content-center my-3\"><\/div>\n<p data-original-font-size=\"24\">Ex-kickboxer brit\u00e2nico-americano, Tate \u00e9 assumidamente mis\u00f3gino e hoje vive na Rom\u00eania, de onde est\u00e1 proibido de sair porque responde a acusa\u00e7\u00f5es de estupro, tr\u00e1fico de pessoas e forma\u00e7\u00e3o de grupo criminoso para explora\u00e7\u00e3o sexual de mulheres. Como ele, h\u00e1 diversos influenciadores mis\u00f3ginos nas redes, que a partir de seus perfis incentivam os seguidores a participarem de grupos fechados no Telegram, com mensalidade paga, ou vendem aplicativos com \u201cdicas e conselhos\u201d, espalhando a ideia de que os homens v\u00eam sendo oprimidos pelo feminismo e receitas para reagir a isso. O influenciador americano Myron Gaines j\u00e1 chegou a questionar direitos b\u00e1sicos, sugerindo que as mulheres n\u00e3o deveriam votar. Outros n\u00e3o perdem a oportunidade de disseminar frases como: \u201cAs mulheres t\u00eam o valor da beleza. J\u00e1 os homens precisam criar valor para si mesmos, e isso se faz com m\u00fasculos, dinheiro, sucesso e poder.\u201d<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Para adolescentes como Mariano e Silvio essas falas mis\u00f3ginas soam como \u201czoeira\u201d, dada sua apar\u00eancia de entretenimento, acompanhada de conselhos sobre como vencer na vida sem esfor\u00e7o. \u201cEu via muito desses conte\u00fados e piadas pesadas. Eles trazem um apelo de enriquecimento r\u00e1pido. Alguns dizem: \u2018Para que estudar? Vem aprender comigo a ganhar n\u00e3o sei quantos milh\u00f5es em dois minutos\u2019. Vendem um estilo de vida que parece \u00f3timo: voc\u00ea vai ficar rico, vai ficar sarado, conseguir a mulher que quiser&#8230; S\u00e3o promessas vazias, mas voc\u00ea acaba assistindo porque s\u00e3o muito bons na forma: v\u00eddeos curtos, \u00e1geis, engra\u00e7ados\u201d, diz Silvio. Segundo ele, o grupo de reflex\u00e3o o ajudou a aprender a dizer \u201cn\u00e3o\u201d aos amigos. \u201cTem uma coisa de voc\u00ea estar no bar e n\u00e3o querer beber mais, mas os outros ficarem falando: \u2018Bebe, bebe!\u2019 E voc\u00ea bebe, para provar que \u00e9 capaz. Aprendi que n\u00e3o preciso mais fazer isso\u201d, afirma. \u201cN\u00e3o preciso me provar, seja como homem ou como pessoa. Hoje eu sei quem sou, sei quais s\u00e3o os meus limites e n\u00e3o cedo tanto quanto antes.\u201d Ele conta que seu pai \u00e9 uma pessoa \u00f3tima, mas que \u201cest\u00e1 sempre certo e n\u00e3o escuta ningu\u00e9m\u201d. E vislumbra para si mesmo outra forma de paternidade. \u201cEu gostaria de ser mais aberto a escutar, quando tiver um filho.\u201d Em um mundo de urros digitais e profetas do \u00f3dio, a disposi\u00e7\u00e3o para ouvir talvez seja a mais radical das transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">A advogada Alessandra Borelli, que atua em casos de misoginia, conta sobre um epis\u00f3dio em que uma adolescente de 12 anos passou a ser alvo de mensagens com insinua\u00e7\u00f5es sexuais e coment\u00e1rios ofensivos. \u201cO mais grave foi que outros alunos compartilharam, comentaram, riram, criando uma esp\u00e9cie de plateia que amplificou o dano. Tivemos de interromper a dissemina\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, colher evid\u00eancias e exigir resposta institucional s\u00e9ria da escola\u201d, diz. Segundo ela, quando isso ocorre, os familiares e respons\u00e1veis precisam agir r\u00e1pido e com estrat\u00e9gia. Primeiro, acolher e proteger a v\u00edtima. Depois, preservar as evid\u00eancias e n\u00e3o sair, no desespero, apagando tudo. Em seguida, acionar formalmente a escola, por escrito, e alinhar as provid\u00eancias a serem tomadas. \u201cSe houver viol\u00eancia sexual, amea\u00e7a, exposi\u00e7\u00e3o \u00edntima, a\u00ed sem d\u00favida \u00e9 caso de pol\u00edcia, e o Minist\u00e9rio P\u00fablico e o Judici\u00e1rio tamb\u00e9m devem intervir. A escola n\u00e3o \u00e9 mera espectadora. Mesmo que o caso n\u00e3o tenha ocorrido em suas depend\u00eancias, ela precisa colaborar e apurar.\u201d<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">As escolas t\u00eam optado por caminhos que v\u00e3o da suspens\u00e3o e expuls\u00e3o de alunos ao acolhimento e promo\u00e7\u00e3o de grupos de reflex\u00e3o ou forma\u00e7\u00e3o. Muitas vezes, antes de o aluno ser expulso, os pr\u00f3prios familiares ou respons\u00e1veis optam por troc\u00e1-lo de escola. \u201cAs fam\u00edlias est\u00e3o muito, muito aflitas. Os jovens foram jogados aos le\u00f5es, e as fam\u00edlias tamb\u00e9m. Elas n\u00e3o foram versadas nessa linguagem de redes sociais\u201d, diz Fernanda Haucke, professora da Arco Escola-Cooperativa, uma escola criada por docentes em regime de cooperativa, na qual as tarefas de cozinha, portaria e limpeza s\u00e3o assumidas por professores e alunos \u2013 e as decis\u00f5es pedag\u00f3gicas s\u00e3o tomadas pelo conjunto dos cooperados.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Haucke diz que, na Arco, cada turma tem sempre dois \u201cadultos de refer\u00eancia\u201d, que s\u00e3o acionados no caso de haver algum problema com estudantes, que s\u00e3o ouvidos individualmente. S\u00f3 ent\u00e3o se decide se o aluno dever\u00e1 ser enviado imediatamente para sua casa ou se seus respons\u00e1veis ser\u00e3o chamados na escola. Depois disso, os \u201cadultos de refer\u00eancia\u201d conversam com os outros docentes e as turmas de alunos. \u201cSe trata menos de procurar culpados e mais de entender o que houve, as consequ\u00eancias que a situa\u00e7\u00e3o provocou, e permitir que esses adolescentes possam tamb\u00e9m trazer suas dores. \u00c9 importante que eles sejam recebidos no grupo, trabalhem junto com quem pensa diferente, para que possam se transformar\u201d, diz Danielle Maciel, professora de portugu\u00eas da Arco Escola-Cooperativa<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Embora haja uma demanda grande da parte de escolas e secretarias de Educa\u00e7\u00e3o por informa\u00e7\u00f5es e ferramentas para conter a viol\u00eancia contra meninas e mulheres, h\u00e1 tamb\u00e9m muita resist\u00eancia quando se pronuncia a palavra \u201cg\u00eanero\u201d \u2013 tanto no ambiente escolar quanto nas fam\u00edlias, principalmente por convic\u00e7\u00f5es religiosas e valores morais. \u201cOs casos de viol\u00eancia sexual cometidos dentro de casa recaem sobre as escolas. \u00c9 ali que as meninas buscam ajuda. Mas, quando os abusos s\u00e3o cometidos no ambiente escolar por alunos, professores ou funcion\u00e1rios, h\u00e1 mais resist\u00eancia a encarar os fatos\u201d, diz Amanda Sadalla, mestre em pol\u00edticas p\u00fablicas pela Universidade de Oxford e diretora executiva da ong Serenas, que trabalha com iniciativas de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero, apoiando secretarias de Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Uma pesquisa com mais de 1.300 professores realizada em 2025 pela ONG mostrou que, em cada 10 docentes, 7 presenciaram meninos sexualizando meninas ou dando<a href=\"https:\/\/serenasbr.org\/projeto\/pesquisa-livres-para-sonhar\/\" data-original-font-size=\"24\">\u00a0cantadas indesejadas.<\/a>\u00a0Al\u00e9m disso, 42% disseram ter testemunhado situa\u00e7\u00f5es em que meninos tocaram ou acariciaram o corpo de meninas de maneira desrespeitosa e\/ou sem consentimento. \u201cAs pesquisas que realizamos, tanto as quantitativas quanto as qualitativas, mostram que h\u00e1 um aumento significativo da viol\u00eancia contra meninas. E tamb\u00e9m do sentimento de impunidade vivenciado por elas, j\u00e1 que muitas escolas n\u00e3o t\u00eam protocolos claros para lidar com isso, nem para sua preven\u00e7\u00e3o\u201d, diz Sadalla. \u201cOs meninos est\u00e3o em um dilema: ou eles promovem viol\u00eancia para tentar pertencer ao mundo masculino e seguir os padr\u00f5es impostos de masculinidade, ou s\u00e3o v\u00edtimas de viol\u00eancia e exclus\u00e3o quando n\u00e3o corroboram com o padr\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">A ju\u00edza Vanessa de Oliveira Cavalieri, da Vara da Inf\u00e2ncia e Juventude do Rio de Janeiro, \u00e9 respons\u00e1vel por julgar atos infracionais praticados por adolescentes, como um caso que chamou a aten\u00e7\u00e3o do pa\u00eds: uma menor de idade estuprada em Copacabana por quatro adultos de 18 e 19 anos e um adolescente de 17, no Rio de Janeiro, em janeiro passado. Depois de observar a trajet\u00f3ria de vida de dezenas de jovens que planejaram ou executaram ataques a escolas, bem como casos de bullying, viol\u00eancia de g\u00eanero e agress\u00f5es f\u00edsicas, Cavalieri elaborou um protocolo chamado\u00a0<a href=\"https:\/\/amaerj.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Magistrados-Inscricao-2202.pdf\" data-original-font-size=\"24\"><em data-original-font-size=\"24\">Eu te vejo<\/em><\/a>, que relaciona causas que permanecem ocultas por muito tempo na vida dos adolescentes e que podem lev\u00e1-los a praticar um ato extremo de viol\u00eancia para serem notados.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Um dos alertas do protocolo diz respeito a meninos que se isolam da turma, seja por dificuldade para fazer amizades, seja por timidez. Diz o documento: \u201cAquele adolescente que n\u00e3o tem amigos, \u00e9 exclu\u00eddo do grupo, est\u00e1 sofrendo intensamente, mas permanece invis\u00edvel na escola e muitas vezes tamb\u00e9m dentro de casa, passa a frequentar, sozinho, o lugar mais perigoso a que uma crian\u00e7a ou um adolescente pode ir hoje em dia: as redes sociais. E, l\u00e1, ele finalmente encontra o que buscava: pertencimento.\u201d Grupos masculinistas acabam por acolher esses meninos e jovens desesperan\u00e7ados, que se sentem vitimados, oferecendo-lhes uma comunidade.<\/p>\n<p class=\"drop-cap\" data-original-font-size=\"24\">Escolas, educadores e pesquisadores tentam encontrar uma sa\u00edda para esse surto de misoginia e viol\u00eancia de g\u00eanero. Algumas iniciativas pretendem conscientizar as fam\u00edlias sobre os malef\u00edcios do uso indiscriminado de telas, adiar ao m\u00e1ximo a entrega de celulares a crian\u00e7as e adolescentes e incentivar a utiliza\u00e7\u00e3o de aplicativos de controle parental, que bloqueiam certos conte\u00fados e determinam o tempo de uso. Mas a responsabilidade n\u00e3o pode recair unicamente sobre a fam\u00edlia ou focar em a\u00e7\u00f5es individuais. \u201cH\u00e1 todo um conjunto de atores que precisa participar dessa conversa sobre a constru\u00e7\u00e3o da masculinidade: a m\u00eddia, as produ\u00e7\u00f5es audiovisuais, a m\u00fasica, o futebol, os gamers etc.\u201d, diz Isabela Venturoza.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Pol\u00edticas como a proibi\u00e7\u00e3o do uso de celulares nas escolas e a press\u00e3o social que levou \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o do Estatuto Digital da Crian\u00e7a e do Adolescente (eca Digital), legisla\u00e7\u00e3o que regulamenta o acesso dos mais jovens \u00e0s redes sociais, s\u00e3o apontadas como muito positivas. \u201cOs pais s\u00e3o respons\u00e1veis por orientar os seus filhos sobre o que eles veem nas redes sociais, mas as plataformas t\u00eam um papel enorme nisso: s\u00e3o elas que definem como o ambiente funciona e que conte\u00fados ganham visibilidade\u201d, afirma Alessandra Borelli. \u201cEnt\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 para ter um sistema, como o das plataformas, que promove o risco o tempo todo e depois dizer que o cuidado deve estar dentro de casa. \u00c9 injusto.\u201d<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Nesse sentido, vale lembrar a vit\u00f3ria judicial sem precedentes de uma jovem americana de 20 anos que processou o Google e a Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp), alegando que essas empresas a viciaram na internet e em\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/tecnologia\/noticia\/2026\/06\/10\/justica-dos-eua-nega-pedido-da-meta-e-do-google-por-novo-julgamento-sobre-vicio-em-redes-sociais.ghtml\" data-original-font-size=\"24\">redes sociais<\/a>\u00a0durante a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, prejudicando sua sa\u00fade mental. A decis\u00e3o deve influenciar centenas de casos semelhantes que est\u00e3o tramitando em tribunais dos Estados Unidos e tamb\u00e9m pode incentivar processos parecidos em diferentes partes do mundo.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">\u201cSe quisermos que as crian\u00e7as e adolescentes saiam das telas, temos de oferecer a elas um mundo melhor\u201d, diz o pediatra Daniel Becker. \u201cAs fam\u00edlias precisam ter tempo para estar juntas e tamb\u00e9m contar com ruas arborizadas, pra\u00e7as e parques limpos e bem equipados \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o que s\u00f3 gera benef\u00edcios e deve chegar a todos, n\u00e3o adianta s\u00f3 fazer parques nas zonas mais ricas\u201d. Becker defende ainda uma medida estrutural: aprovar a equipara\u00e7\u00e3o da misoginia aos crimes de racismo e homofobia. Um projeto de lei nesse sentido foi aprovado no Senado em mar\u00e7o, mas estacionou na C\u00e2mara.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">A professora Elaine Santos Andrade, que leciona no Centro de Excel\u00eancia de Educa\u00e7\u00e3o Profissional Governador Seixas D\u00f3ria, em Sergipe, vem trabalhando o tema da viol\u00eancia contra mulheres com alunos do terceiro ano do ensino m\u00e9dio. Ela montou um projeto que incluiu um dia de conscientiza\u00e7\u00e3o, com debates e variadas atividades, al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o de um v\u00eddeo sobre tipos de viol\u00eancia e relacionamentos abusivos, elaborado pelos pr\u00f3prios alunos. Os estudantes desenvolveram ainda uma cartilha com um passo a passo para acolher v\u00edtimas e promoveram rodas de conversa com estudantes do primeiro e segundo anos. \u201cSinto que os alunos est\u00e3o se autorregulando mais, pensando sobre suas atitudes. Um estudante outro dia me disse: \u2018Professora, acho que sou um homem abusivo, eu controlo demais minha namorada\u2019. Outros falam que os pais fazem isso com as m\u00e3es, e que eles reproduzem esse comportamento\u201d, conta Andrade.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Nos bairros de Parelheiros e Graja\u00fa, o projeto\u00a0<em data-original-font-size=\"24\">Masculinidade Quebrada<\/em>, voltado para meninos entre 13 e 17 anos na periferia de S\u00e3o Paulo, recorreu a uma ferramenta ainda mais participativa. Criou um boneco de tecido marrom no tamanho real de um menino da mesma idade que os alunos, no qual eles projetavam caracter\u00edsticas, apontando o que faltava para a figura se tornar um homem. As discuss\u00f5es foram mediadas pelos atores Rafael Cristiano e Belchior Divina Em\u00eddio, com a participa\u00e7\u00e3o da psic\u00f3loga El\u00e2nia Francisca, professora da Universidade Nove de Julho (Uninove) e supervisora do projeto.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Depois de sugerir o que faltava ao boneco em termos materiais (um bon\u00e9, uma tatuagem, uma casa), os meninos conversaram sobre quest\u00f5es afetivas. A primeira pessoa da fam\u00edlia a ser citada era a m\u00e3e, seguida da av\u00f3, e s\u00f3 depois foram mencionados o pai e outras refer\u00eancias masculinas (sobre as quais v\u00e1rios dos meninos expressaram ter raiva). \u00c0 medida que a identifica\u00e7\u00e3o com o boneco ia acontecendo, surgiam outros temas, como a sexualidade. \u201cAt\u00e9 o quarto encontro, a gente praticamente s\u00f3 ouvia os participantes. Depois, introduzimos dados de viol\u00eancia de g\u00eanero no Brasil. Muitas vezes, havia um grande sil\u00eancio, que precis\u00e1vamos sustentar. Quando retomavam a fala, alguns diziam que o boneco que eles mesmos tinham projetado era um vacil\u00e3o\u201d, lembra Cristiano.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">No final do ciclo, o boneco era reapresentado sem as roupas e as caracter\u00edsticas conferidas a ele. O mediador ent\u00e3o perguntava: \u201cSe agora voc\u00eas pudessem criar um novo boneco, como ele seria?\u201d Ao contr\u00e1rio da primeira vers\u00e3o, em que a figura retratada era de um homem hipermasculinizado, depois ele se parecia mais com os pr\u00f3prios estudantes: era um menino que ia \u00e0 escola, frequentava a igreja e ajudava a m\u00e3e. \u201cO primeiro boneco tinha arma, transava com prostitutas, era poderoso etc. O \u00faltimo boneco era uma figura confusa, pensando em como seguir com a vida. Os alunos conseguiam projetar nele as fragilidades que tinham.\u201d<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Segundo Cristiano, h\u00e1 uma adultiza\u00e7\u00e3o muito precoce de meninos da periferia. S\u00e3o adolescentes que muito cedo precisam se preocupar com ter comida na mesa e pagar as contas da casa. Muitos se veem no papel de provedores e sem uma figura masculina positiva por perto. \u201cV\u00e1rios n\u00e3o t\u00eam tempo suficiente para elaborar o que \u00e9 ser homem, para se conhecer. Precisam amadurecer r\u00e1pido e acabam reproduzindo os modelos dispon\u00edveis, como o do jogador de futebol ou do fod\u00e3o do bairro.\u201d Em um dos encontros, um menino disse, sobre sua figura paterna: \u201cParece um bumerangue. Acho que meu pai at\u00e9 tentou me dizer para ser diferente, mas ele mesmo n\u00e3o tinha conseguido mudar, ent\u00e3o o jeito dele volta para mim. Eu fico me perguntando se vou conseguir.\u201d<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\">Essa reflex\u00e3o dolorosa, em que apesar do desejo de mudan\u00e7a, a viol\u00eancia retorna como uma for\u00e7a que os jovens n\u00e3o sabem como controlar, refor\u00e7a a premissa de que \u00e9 urgente olh\u00e1-los de perto, acompanh\u00e1-los. \u201cEles muitas vezes s\u00e3o considerados casos perdidos, e deixados de lado. Mas o menino n\u00e3o \u00e9 um homem, ele est\u00e1 em processo de desenvolvimento. E a constru\u00e7\u00e3o de sua masculinidade precisa ser discutida, disputada no dia a dia, n\u00e3o apenas numa palestra. Tem que fazer parte da vida\u201d, diz Cristiano. Quando isso ocorre, alguma mudan\u00e7a come\u00e7a a acontecer.<\/p>\n<p data-original-font-size=\"24\"><strong><sup><a id=\"nota1\" data-original-font-size=\"18\"><\/a>[1]<\/sup> *<em data-original-font-size=\"24\">Alguns nomes citados nessa reportagem s\u00e3o fict\u00edcios para proteger a identidade dos entrevistados que praticaram agress\u00f5es quando eram menores de idade.<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alunos protestam no Col\u00e9gio Pedro II ap\u00f3s caso de estupro coletivo &#8211; Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil Como a socializa\u00e7\u00e3o de meninos e adolescentes vem desembocando em misoginia e viol\u00eancia de g\u00eanero Por Carolina Tarrio &#8211; Da REVISTA PIAU\u00cd &#8211; de S\u00e3o Paulo &#8211;\u00a0 Escolas particulares da classe alta em S\u00e3o Paulo, nas quais \u00e9 comum os [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3968,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[37,1,65],"tags":[],"class_list":["post-3967","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-https-gazetapernambucana-com-page_id212","category-https-gazetapernambucana-com-page_id225","category-politica"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v24.5 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>SER\u00c1 ISTO UM HOMEM? 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