{"id":3903,"date":"2026-06-14T16:33:51","date_gmt":"2026-06-14T19:33:51","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=3903"},"modified":"2026-06-14T16:49:20","modified_gmt":"2026-06-14T19:49:20","slug":"o-trilhao-de-musk-e-os-cadaveres-da-indiferenca-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=3903","title":{"rendered":"O trilh\u00e3o de Musk e os L\u00e1zaros do mundo. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p data-start=\"148\" data-end=\"667\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/Minc\u00a0 \u00a0\u2013<\/strong>\u00a0T\u00eam not\u00edcias que n\u00e3o deveriam ser recebidas com aplausos. Deveriam ser recebidas com sil\u00eancio, espanto e vergonha. A informa\u00e7\u00e3o de que Elon Musk alcan\u00e7ou a marca de US$ 1,1 trilh\u00e3o ap\u00f3s a abertura de capital da SpaceX n\u00e3o \u00e9 apenas um feito financeiro. \u00c9 uma navalha atravessando o rosto moral da humanidade. A Reuters registrou o marco como a chegada do primeiro trilion\u00e1rio do mundo. A Forbes tamb\u00e9m estimou sua fortuna em torno desse patamar depois da estreia da SpaceX na Nasdaq.<\/p>\n<p data-start=\"669\" data-end=\"876\">Mas que mundo \u00e9 esse que fabrica um trilion\u00e1rio enquanto fabrica tamb\u00e9m crian\u00e7as famintas, m\u00e3es desesperadas, velhos abandonados, trabalhadores humilhados e fam\u00edlias inteiras enterradas em vida pela mis\u00e9ria?<\/p>\n<p data-start=\"878\" data-end=\"910\">N\u00e3o me pe\u00e7am calma diante disso.\u00a0N\u00e3o me pe\u00e7am eleg\u00e2ncia diante do prato vazio.N\u00e3o me pe\u00e7am sil\u00eancio diante da crian\u00e7a que dorme com fome enquanto o mercado financeiro brinda mais uma fortuna imposs\u00edvel de ser gasta em uma vida humana.<\/p>\n<p data-start=\"1117\" data-end=\"1437\">O trilh\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas dinheiro. \u00c9 um monumento erguido sobre a desigualdade. \u00c9 uma torre de vidro constru\u00edda num planeta de barracos, esgoto aberto, geladeiras vazias e olhos fundos. \u00c9 a prova de que a civiliza\u00e7\u00e3o aprendeu a lan\u00e7ar foguetes ao c\u00e9u, mas ainda n\u00e3o aprendeu a colocar comida no prato dos seus semelhantes.<\/p>\n<p data-start=\"1439\" data-end=\"1792\">Enquanto alguns celebram a riqueza como se ela fosse santidade, milh\u00f5es seguem ajoelhados diante da necessidade. A fome n\u00e3o \u00e9 met\u00e1fora. Ela rasga o est\u00f4mago. Ela enfraquece o corpo. Ela apaga o brilho dos olhos. Ela mata antes da morte. Ela transforma o ser humano em sobra, em n\u00famero, em estat\u00edstica, em fotografia de campanha, em discurso de palanque.<\/p>\n<p data-start=\"1794\" data-end=\"2120\">Segundo organismos ligados \u00e0 ONU, entre 638 milh\u00f5es e 720 milh\u00f5es de pessoas enfrentaram fome em 2024, com estimativa central de 673 milh\u00f5es. Outro relat\u00f3rio global apontou que mais de 295 milh\u00f5es de pessoas viveram inseguran\u00e7a alimentar aguda em 53 pa\u00edses e territ\u00f3rios no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p data-start=\"2122\" data-end=\"2209\">E diante desse cen\u00e1rio, o mundo ainda encontra for\u00e7as para bater palmas para o trilh\u00e3o.Isso n\u00e3o \u00e9 progresso. \u00c9 esc\u00e2ndalo.Isso n\u00e3o \u00e9 sucesso. \u00c9 ferida aberta.Isso n\u00e3o \u00e9 apenas capitalismo moderno. \u00c9 a consagra\u00e7\u00e3o de uma religi\u00e3o cruel, onde o dinheiro virou deus, o mercado virou altar e os pobres viraram sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p data-start=\"2446\" data-end=\"2838\">N\u00e3o se trata de inveja. Essa palavra \u00e9 usada pelos donos do banquete para desmoralizar quem denuncia a fome do lado de fora. N\u00e3o \u00e9 inveja. \u00c9 revolta. \u00c9 consci\u00eancia. \u00c9 a recusa de aceitar como normal um planeta onde uma fortuna individual supera o or\u00e7amento de pa\u00edses inteiros enquanto tantos n\u00e3o t\u00eam arroz, feij\u00e3o, leite, rem\u00e9dio, escola, teto, roupa limpa ou condu\u00e7\u00e3o para procurar trabalho.<\/p>\n<p data-start=\"2840\" data-end=\"3225\">H\u00e1 quem diga que o trilion\u00e1rio venceu pelo m\u00e9rito. Mas ningu\u00e9m chega a esse tamanho sozinho. Nenhuma fortuna dessa dimens\u00e3o nasce apenas de genialidade individual. Ela nasce de estruturas, subs\u00eddios, contratos, leis, isen\u00e7\u00f5es, mercados protegidos, m\u00e3o de obra explorada, especula\u00e7\u00e3o, influ\u00eancia pol\u00edtica e uma ordem mundial montada para transformar poucos em deuses e muitos em servos.<\/p>\n<p data-start=\"3227\" data-end=\"3271\">O nome disso \u00e9 concentra\u00e7\u00e3o brutal de renda.O nome disso \u00e9 sequestro do futuro. O nome disso \u00e9 viol\u00eancia social sofisticada.<\/p>\n<p data-start=\"3356\" data-end=\"3807\">No Brasil, essa l\u00f3gica se veste de outro figurino, mas carrega o mesmo veneno. Aqui, os poderosos aprenderam a administrar a pobreza como quem administra um curral. Falam em Bolsa Fam\u00edlia, Vale G\u00e1s, tarifa social de energia, Cad\u00danico, Fundef, Fundeb, Prouni e tantos outros mecanismos que, quando usados com justi\u00e7a, podem aliviar a dor imediata. Mas quando usados como moeda eleitoral e instrumento de depend\u00eancia, deixam de ser ponte e viram algema.<\/p>\n<p data-start=\"3809\" data-end=\"4144\">O povo precisa comer hoje. Isso \u00e9 sagrado. Ningu\u00e9m tem o direito de desprezar a migalha que impede uma crian\u00e7a de dormir com o est\u00f4mago colado nas costas. Mas a perversidade come\u00e7a quando a migalha \u00e9 transformada em projeto permanente de poder. D\u00e1-se o m\u00ednimo para que o pobre sobreviva, mas nega-se o bastante para que ele se liberte.<\/p>\n<p data-start=\"4146\" data-end=\"4199\">Essa \u00e9 a engenharia mais suja da pol\u00edtica brasileira.\u00a0Mant\u00e9m-se o povo com fome de p\u00e3o, fome de escola, fome de leitura, fome de dignidade e fome de futuro. Depois, aparece o poderoso com a m\u00e3o suja de privil\u00e9gios oferecendo uma pequena esmola institucional, como se estivesse fazendo caridade e n\u00e3o devolvendo uma parte m\u00ednima do que foi historicamente arrancado.<\/p>\n<p data-start=\"4513\" data-end=\"4954\">A periferia n\u00e3o \u00e9 pobre porque quer. A periferia \u00e9 ferida aberta. \u00c9 abandono calculado. \u00c9 aus\u00eancia de biblioteca, de saneamento, de seguran\u00e7a, de transporte decente, de escola que liberte, de trabalho que pague com justi\u00e7a. E quando falta leitura, falta tamb\u00e9m arma intelectual contra o opressor. O povo sem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica \u00e9 empurrado para a gratid\u00e3o for\u00e7ada. Agradece pelo pouco porque lhe roubaram o direito de enxergar o muito.<\/p>\n<p data-start=\"4956\" data-end=\"5000\">\u00c9 assim que se mant\u00e9m o trono dos poderosos.\u00a0\u00c9 assim que a pobreza vira curral.\u00c9 assim que a necessidade vira voto. \u00c9 assim que a fome vira neg\u00f3cio. \u00c9 assim que a dor alheia vira fortuna.<\/p>\n<p data-start=\"5150\" data-end=\"5506\">No alto, seguem os banquetes. Contratos, emendas, cargos, favores, negociatas, privil\u00e9gios, rachaduras morais, enriquecimentos escurecidos pela falta de explica\u00e7\u00e3o. Gente que ontem nada tinha e hoje desfila vida nababesca, carro importado, fazenda, apartamento de luxo, viagem internacional, rel\u00f3gio caro, festa de milion\u00e1rio e arrog\u00e2ncia de senhor feudal.<\/p>\n<p data-start=\"5508\" data-end=\"5531\">Perguntem de onde veio.\u00a0Perguntem como veio.Perguntem quem pagou a conta.A resposta, muitas vezes, est\u00e1 no rosto cansado do trabalhador, na m\u00e3e que chora diante da panela vazia, no jovem da periferia sem oportunidade, no doente esperando vaga, no menino sem livro, no idoso contando moedas, no pai humilhado porque n\u00e3o consegue comprar uma roupa digna para ir ao trabalho.<\/p>\n<p data-start=\"5887\" data-end=\"6107\">A riqueza de muitos desses senhores n\u00e3o nasce do talento. Nasce da captura do Estado. Nasce da mentira repetida como promessa. Nasce da mis\u00e9ria administrada. Nasce da ignor\u00e2ncia mantida. Nasce do povo impedido de pensar.<\/p>\n<p data-start=\"6109\" data-end=\"6164\">A frase secreta dessa gente \u00e9 terr\u00edvel, mas verdadeira:\u00a0A pobreza do meu semelhante \u00e9 a minha riqueza.\u00a0Eles n\u00e3o dizem isso em p\u00fablico. Em p\u00fablico, falam em desenvolvimento, responsabilidade social, crescimento, moderniza\u00e7\u00e3o, governabilidade, inova\u00e7\u00e3o, estabilidade. Mas, nos bastidores, a engrenagem \u00e9 outra. Quanto mais dependente o povo, mais f\u00e1cil o dom\u00ednio. Quanto menos escola, mais forte o curral. Quanto mais medo, mais barato o voto. Quanto mais fome, mais poderosa a m\u00e3o que entrega a migalha.<\/p>\n<p data-start=\"6615\" data-end=\"6647\">Hoje h\u00e1 muitos L\u00e1zaros no mundo.L\u00e1zaros nas cal\u00e7adas.L\u00e1zaros nos sinais.L\u00e1zaros nas filas dos hospitais.L\u00e1zaros nas periferias sem saneamento.L\u00e1zaros nas guerras.L\u00e1zaros nas escolas sem estrutura.L\u00e1zaros nas casas onde a m\u00e3e finge que j\u00e1 comeu para deixar o pouco alimento ao filho.L\u00e1zaros batendo \u00e0 porta dos pal\u00e1cios modernos, enquanto os novos ricos do planeta celebram n\u00fameros t\u00e3o grandes que j\u00e1 perderam qualquer rela\u00e7\u00e3o com a vida concreta. E os c\u00e3es ainda lambem as feridas.<\/p>\n<p data-start=\"7115\" data-end=\"7580\">A fome \u00e9 uma forma de assassinato lento quando existe riqueza suficiente para combat\u00ea-la. O Programa Mundial de Alimentos dos Estados Unidos afirma que seriam necess\u00e1rios cerca de US$ 40 bilh\u00f5es por ano para alimentar as pessoas famintas e avan\u00e7ar rumo ao fim da fome at\u00e9 2030. A FAO registrou estimativa mais ampla, de US$ 267 bilh\u00f5es anuais, considerando investimentos sustent\u00e1veis em prote\u00e7\u00e3o social, \u00e1reas rurais e urbanas.<\/p>\n<p data-start=\"7582\" data-end=\"7624\">Ent\u00e3o n\u00e3o venham dizer que falta dinheiro.Falta vergonha.Falta prioridade.Falta humanidade.Falta coragem para enfrentar os donos do cofre.<\/p>\n<p data-start=\"7730\" data-end=\"8089\">O trilh\u00e3o de Musk poderia financiar por anos estrat\u00e9gias globais de combate \u00e0 fome. Poderia encher pratos, irrigar lavouras, fortalecer escolas, salvar crian\u00e7as, reconstruir comunidades, levar energia, \u00e1gua, tecnologia agr\u00edcola, cr\u00e9dito e dignidade a regi\u00f5es inteiras. Mas o mundo prefere ajoelhar-se diante da fortuna individual e chamar isso de genialidade.\u00a0Que genialidade \u00e9 essa que convive tranquilamente com cad\u00e1veres? Que futuro \u00e9 esse que promete Marte enquanto a Terra apodrece em desigualdade? Que civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 essa que celebra foguetes enquanto crian\u00e7as morrem por falta de leite?<\/p>\n<p data-start=\"8327\" data-end=\"8526\">Eu n\u00e3o posso chamar isso de vit\u00f3ria da humanidade. N\u00e3o posso. Seria trai\u00e7\u00e3o aos que sofrem. Seria cuspir no prato vazio dos pobres. Seria virar as costas ao sangue derramado pelos nossos semelhantes.<\/p>\n<p data-start=\"8528\" data-end=\"8562\">Essa revolta n\u00e3o \u00e9 pose. \u00c9 ferida.Essa indigna\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 teatro. \u00c9 luto.Esse grito n\u00e3o \u00e9 \u00f3dio. \u00c9 humanidade tentando n\u00e3o morrer sufocada.orque cada crian\u00e7a que dorme com fome desmente o discurso dos poderosos. Cada m\u00e3e que chora diante da geladeira vazia acusa o mundo inteiro. Cada trabalhador que n\u00e3o tem roupa limpa para procurar emprego denuncia uma economia que fala em m\u00e9rito enquanto distribui humilha\u00e7\u00e3o. Cada cad\u00e1ver produzido pela fome \u00e9 uma assinatura invis\u00edvel no contrato moral dos que lucram com a dor.<\/p>\n<p data-start=\"9052\" data-end=\"9078\">Eu me junto a esse sangue.Eu me junto aos esquecidos.Eu me junto aos L\u00e1zaros do nosso tempo.E grito, nem que seja o \u00faltimo grito:Nenhum trilh\u00e3o vale a l\u00e1grima de uma crian\u00e7a faminta.Nenhuma fortuna \u00e9 inocente quando cresce de costas para a mis\u00e9ria.Nenhum poder \u00e9 leg\u00edtimo quando precisa manter o povo de joelhos.<\/p>\n<p data-start=\"9378\" data-end=\"9583\">O mundo n\u00e3o precisa de mais bilion\u00e1rios tratados como profetas. Precisa de p\u00e3o, escola, casa, trabalho, consci\u00eancia e justi\u00e7a. Precisa parar de transformar a fome em paisagem e a riqueza obscena em trof\u00e9u.Porque quando um homem chega ao trilh\u00e3o e milh\u00f5es continuam sem comida, n\u00e3o estamos diante de uma conquista.<\/p>\n<p data-start=\"9695\" data-end=\"9890\" data-is-last-node=\"\" data-is-only-node=\"\">Estamos diante de um crime moral cometido em pra\u00e7a p\u00fablica, com transmiss\u00e3o ao vivo, aplauso dos mercados e sil\u00eancio covarde dos que preferem n\u00e3o enxergar o sangue escorrendo da mesa do banquete.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/Minc\u00a0 \u00a0\u2013\u00a0T\u00eam not\u00edcias que n\u00e3o deveriam ser recebidas com aplausos. Deveriam ser recebidas com sil\u00eancio, espanto e vergonha. 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