{"id":3819,"date":"2026-06-10T21:57:09","date_gmt":"2026-06-11T00:57:09","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=3819"},"modified":"2026-06-10T22:24:05","modified_gmt":"2026-06-11T01:24:05","slug":"quando-as-minhas-decadas-ainda-doem-em-mim-parte-final-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=3819","title":{"rendered":"Quando as minhas d\u00e9cadas ainda doem em mim. Parte final. Por Fl\u00e1vio Chaves."},"content":{"rendered":"<h3 data-section-id=\"xo25mi\" data-start=\"217\" data-end=\"277\">A travessia, o tempo e as can\u00e7\u00f5es que ficaram<\/h3>\n<p data-start=\"279\" data-end=\"397\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/Minc &#8211;\u00a0\u00a0<\/strong>Depois da manh\u00e3 que acordou as lembran\u00e7as e da noite que devolveu os clubes, os bares, os cinemas, as fitas cassete, as radiolas e os amores de rosto colado, resta agora olhar para a travessia inteira e compreender que nenhuma d\u00e9cada termina de verdade dentro de um homem que viveu com sentimento; ela apenas muda de forma, abandona o calend\u00e1rio, sai das ruas, dos sal\u00f5es, das mesas antigas, dos cabar\u00e9s de luzes coloridas, das cal\u00e7adas molhadas depois do cinema, e passa a existir como m\u00fasica escondida no fundo da alma, tocando quando menos se espera, \u00e0s vezes numa manh\u00e3 qualquer, \u00e0s vezes numa noite sem explica\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes no sil\u00eancio de um quarto onde o homem, j\u00e1 distante de tantas juventudes, percebe que continua acompanhado por tudo aquilo que julgava ter ficado para tr\u00e1s.<\/p>\n<p data-start=\"1185\" data-end=\"1764\">O tempo n\u00e3o leva tudo. Leva os corpos jovens, leva a pressa bonita dos primeiros amores, leva os bailes, leva as roupas da moda, leva os carros antigos, leva as casas onde moramos, leva as vozes que um dia chamaram nosso nome com familiaridade, leva os rostos que a vida apagou das ruas, leva os cinemas, os clubes, as radiolas, as cartas, os discos riscados, os perfumes que n\u00e3o voltam, mas deixa dentro da gente uma esp\u00e9cie de m\u00fasica sem aparelho, uma can\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o precisa de vinil, fita, r\u00e1dio ou vitrola, porque aprendeu a tocar sozinha no lugar mais secreto da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p data-start=\"1766\" data-end=\"2118\">Talvez seja isso que chamamos de envelhecer: n\u00e3o apenas somar anos, mas carregar dentro do peito muitas vers\u00f5es de n\u00f3s mesmos, algumas ainda adolescentes, outras feridas, outras apaixonadas, outras vencidas, outras cheias de esperan\u00e7a, todas vivendo numa mesma casa interior, como se cada d\u00e9cada fosse um c\u00f4modo onde alguma coisa nossa permanece acesa.<\/p>\n<p data-start=\"2120\" data-end=\"2514\">Em certas horas, ainda encontro dentro de mim o rapaz que esperava uma m\u00fasica lenta come\u00e7ar para criar coragem; noutras, encontro o homem sentado diante de um copo, ouvindo a radiola dizer aquilo que ele n\u00e3o dizia; em outras, encontro o menino diante de uma grande radiola de madeira, sem saber que aquele chiado antes da can\u00e7\u00e3o seria, muitos anos depois, um dos sons mais sagrados de sua vida.<\/p>\n<p data-start=\"2516\" data-end=\"3009\">E ent\u00e3o compreendo que a travessia n\u00e3o foi apenas minha. Foi de todos n\u00f3s que atravessamos um tempo em que a m\u00fasica tinha solenidade, em que uma can\u00e7\u00e3o podia marcar uma vida, em que um disco podia ser uma declara\u00e7\u00e3o, em que uma fita cassete podia guardar o roteiro inteiro de uma paix\u00e3o, em que um baile podia dividir a exist\u00eancia entre antes e depois, em que a voz de um cantor parecia conversar diretamente com a nossa dor, como se soubesse nosso nome, nossa rua, nossa falta, nosso segredo.<\/p>\n<p data-start=\"3011\" data-end=\"3549\">Por isso <strong data-start=\"3020\" data-end=\"3033\">\u201cSailing\u201d<\/strong>, na voz de Rod Stewart, me parece hoje mais do que uma can\u00e7\u00e3o bonita; parece uma imagem da pr\u00f3pria vida, esse barco fr\u00e1gil que cada um de n\u00f3s conduz entre mares calmos e tempestades, entre portos que nos acolhem e dist\u00e2ncias que nos ferem, entre partidas inevit\u00e1veis e retornos que nunca s\u00e3o exatamente retornos, porque ningu\u00e9m volta inteiro de uma grande travessia, ningu\u00e9m atravessa d\u00e9cadas sem perder alguma coisa no caminho, ningu\u00e9m chega ao outro lado da vida trazendo intacto o cora\u00e7\u00e3o que levou na juventude.<\/p>\n<p data-start=\"3551\" data-end=\"4127\">Mas ainda assim navegamos, mesmo sem mapa, mesmo com medo, mesmo quando a noite cai sobre o mar e n\u00e3o se v\u00ea mais a margem de onde partimos. Talvez por isso <strong data-start=\"3707\" data-end=\"3722\">\u201cLet It Be\u201d<\/strong>, dos Beatles, tenha atravessado tantas gera\u00e7\u00f5es como uma esp\u00e9cie de ora\u00e7\u00e3o simples, uma voz dizendo que, em certas horas, \u00e9 preciso deixar ser, deixar passar, deixar doer, deixar a vida cumprir sua tarefa, n\u00e3o por covardia, mas por sabedoria, porque nem tudo pode ser vencido, explicado ou recuperado; algumas perdas precisam apenas encontrar um lugar dentro de n\u00f3s onde possam repousar sem nos destruir.<\/p>\n<p data-start=\"4129\" data-end=\"4658\">A juventude quer vencer o tempo. A maturidade aprende a conversar com ele. E talvez a grande dor das minhas d\u00e9cadas seja exatamente essa: descobrir que o tempo n\u00e3o \u00e9 inimigo barulhento, n\u00e3o chega quebrando portas, n\u00e3o anuncia sua viol\u00eancia; ele trabalha devagar, quase educado, retirando uma presen\u00e7a daqui, uma paisagem dali, uma voz acol\u00e1, at\u00e9 que um dia a gente olha em volta e percebe que muita coisa sumiu sem despedida, mas continua existindo em n\u00f3s com uma nitidez que \u00e0s vezes chega a doer mais do que a pr\u00f3pria aus\u00eancia.<\/p>\n<p data-start=\"4660\" data-end=\"5175\">Foi assim com tantas can\u00e7\u00f5es. <strong data-start=\"4690\" data-end=\"4715\">\u201cYesterday Once More\u201d<\/strong>, dos Carpenters, talvez seja uma das mais perfeitas para explicar esse sentimento de ouvir uma m\u00fasica antiga e sentir que o ontem volta n\u00e3o como data, mas como visita; volta trazendo o quarto, a sala, o r\u00e1dio, a roupa, o cheiro da \u00e9poca, a pessoa que estava ao lado, a rua em que se caminhava, a esta\u00e7\u00e3o do ano, a ingenuidade do cora\u00e7\u00e3o, e de repente a vida inteira parece caber dentro de uma melodia que dura poucos minutos, mas abre no peito uma eternidade.<\/p>\n<p data-start=\"5177\" data-end=\"5377\">O ontem, quando volta pela m\u00fasica, n\u00e3o volta obediente. Ele volta inteiro. Volta com beleza e com ferida. Volta com aquilo que fomos e com aquilo que perdemos por sermos obrigados a continuar vivendo.<\/p>\n<p data-start=\"5379\" data-end=\"5899\">E quando penso em <strong data-start=\"5397\" data-end=\"5409\">\u201cMy Way\u201d<\/strong>, na voz de Frank Sinatra, n\u00e3o penso apenas na vaidade de quem diz que fez tudo \u00e0 sua maneira; penso no balan\u00e7o inevit\u00e1vel de quem olha para tr\u00e1s e reconhece que acertou, errou, amou, feriu, foi ferido, calou quando devia falar, falou quando devia calar, perdeu pessoas, perdeu tempo, perdeu oportunidades, mas mesmo assim atravessou a exist\u00eancia com alguma dignidade, carregando no rosto as marcas da estrada e no peito a certeza de que viver profundamente nunca foi uma experi\u00eancia limpa.<\/p>\n<p data-start=\"5901\" data-end=\"6203\">Viver deixa sinais. Deixa cicatrizes. Deixa m\u00fasica. Deixa nomes que n\u00e3o se pronunciam mais, mas continuam acesos. Deixa uma estranha gratid\u00e3o at\u00e9 pelas dores, porque algumas dores, depois de muito tempo, deixam de ser apenas sofrimento e passam a ser prova de que alguma coisa importante nos aconteceu.<\/p>\n<p data-start=\"6205\" data-end=\"6810\">A m\u00fasica brasileira soube cantar isso como poucas. <strong data-start=\"6256\" data-end=\"6271\">\u201cTravessia\u201d<\/strong>, de Milton Nascimento, n\u00e3o \u00e9 apenas uma can\u00e7\u00e3o; \u00e9 um modo de continuar andando depois da perda, depois do vazio, depois do amor que n\u00e3o ficou, depois da estrada que parece comprida demais para quem j\u00e1 est\u00e1 cansado. Milton canta como quem leva no peito um pa\u00eds inteiro feito de montanhas, despedidas, estradas, sil\u00eancios e esperan\u00e7a. E talvez toda vida seja uma travessia: a gente sai de um lugar que n\u00e3o volta, segue para um destino que n\u00e3o conhece e, no meio do caminho, tenta salvar dentro de si as coisas que deram sentido \u00e0 caminhada.<\/p>\n<p data-start=\"6812\" data-end=\"7315\">Tamb\u00e9m existe em <strong data-start=\"6829\" data-end=\"6849\">\u201cFor\u00e7a Estranha\u201d<\/strong>, de Caetano Veloso, aquela verdade misteriosa de quem olha a vida passando e percebe que continua sendo atravessado por algo maior, uma for\u00e7a que n\u00e3o se explica, uma energia que faz o artista cantar, o poeta escrever, o homem recordar, o cora\u00e7\u00e3o insistir, mesmo quando tudo pareceria aconselhar sil\u00eancio. Essa for\u00e7a estranha talvez seja a pr\u00f3pria mem\u00f3ria trabalhando dentro de n\u00f3s, empurrando para fora o que ainda precisa virar palavra, m\u00fasica, cr\u00f4nica, confiss\u00e3o.<\/p>\n<p data-start=\"7317\" data-end=\"7925\">E nesse territ\u00f3rio ningu\u00e9m foi maior que Elis Regina quando a dor precisava ganhar corpo, voz e verdade. Em <strong data-start=\"7425\" data-end=\"7445\">\u201cAtr\u00e1s da Porta\u201d<\/strong>, Elis n\u00e3o canta apenas uma mulher abandonada; ela canta a dignidade ferida de quem amou at\u00e9 perder o ch\u00e3o, de quem se viu reduzida ao desespero de uma despedida, de quem descobriu que o amor, quando termina mal, n\u00e3o sai pela porta sozinho: arrasta m\u00f3veis, quebra retratos, apaga luzes, deixa o corpo em p\u00e9 e a alma ca\u00edda. \u00c9 uma can\u00e7\u00e3o de ru\u00edna \u00edntima, dessas que n\u00e3o devem ser ouvidas com pressa, porque cada palavra parece ter sido arrancada de um lugar onde a dor ainda sangra.<\/p>\n<p data-start=\"7927\" data-end=\"8437\">Mas Elis tamb\u00e9m cantou <strong data-start=\"7950\" data-end=\"7972\">\u201cComo Nossos Pais\u201d<\/strong>, de Belchior, e a\u00ed j\u00e1 n\u00e3o era apenas o amor que estava em jogo; era a gera\u00e7\u00e3o inteira se olhando no espelho do tempo, percebendo que os sonhos mudam de roupa, que as rebeldias envelhecem, que muita esperan\u00e7a se desgasta, que os filhos \u00e0s vezes repetem os pais, que a juventude passa, mas a inquieta\u00e7\u00e3o permanece. Essa can\u00e7\u00e3o serve como ponte entre o cora\u00e7\u00e3o \u00edntimo e o cora\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico do Brasil, entre aquilo que amamos em segredo e aquilo que vivemos como povo.<\/p>\n<p data-start=\"8439\" data-end=\"8874\">Talvez por isso eu sinta que algumas m\u00fasicas pertencem \u00e0 nossa vida amorosa, enquanto outras pertencem \u00e0 nossa consci\u00eancia. Mas hoje ainda estou fechando a travessia afetiva. Amanh\u00e3, talvez, o Brasil entre com suas can\u00e7\u00f5es de luta, de censura, de rua, de coragem, de flores, de c\u00e1lices, de edif\u00edcios erguidos por m\u00e3os invis\u00edveis, de homens que cantaram para n\u00e3o se calar, de um povo que aprendeu a esconder esperan\u00e7a dentro da melodia.<\/p>\n<p data-start=\"8876\" data-end=\"9220\">Hoje, por\u00e9m, fico com esse homem que sou diante das d\u00e9cadas que vivi. Fico com o tempo, com a travessia, com as can\u00e7\u00f5es que ficaram, com os amores que n\u00e3o voltam, com os amigos que a vida levou para longe, com os mortos que ainda conversam comigo quando uma m\u00fasica antiga toca, com a juventude que n\u00e3o volta, mas tamb\u00e9m n\u00e3o morre completamente.<\/p>\n<p data-start=\"9222\" data-end=\"9657\">Porque dentro de mim ainda existe um sal\u00e3o com a m\u00fasica lenta come\u00e7ando, ainda existe uma radiola de ficha escolhendo a dor de um homem calado, ainda existe um cinema com duas m\u00e3os se procurando no escuro, ainda existe uma carta dobrada, uma fita cassete gravada com cuidado, uma chuva depois da sess\u00e3o, um bar fechando as portas, um rosto desaparecendo na esquina, uma voz dizendo adeus sem saber que aquele adeus ficaria para sempre.<\/p>\n<p data-start=\"9659\" data-end=\"10063\">As minhas d\u00e9cadas ainda doem em mim porque n\u00e3o foram d\u00e9cadas vazias. Foram d\u00e9cadas povoadas de gente, de can\u00e7\u00f5es, de ruas, de bares, de clubes, de cabar\u00e9s, de cinemas, de viagens, de promessas, de derrotas, de paix\u00f5es, de esperas, de erros, de ternuras, de perdas, de recome\u00e7os, de noites em que eu pensei que n\u00e3o suportaria a dor e de manh\u00e3s em que, apesar de tudo, a vida voltava a me chamar pelo nome.<\/p>\n<p data-start=\"10065\" data-end=\"10346\">E voltei. Voltei muitas vezes. Voltei depois de perdas que pareciam definitivas, depois de amores que me deixaram em peda\u00e7os, depois de despedidas que envelheceram alguma coisa em mim, porque a vida, apesar de dura, sempre encontrou uma forma de me colocar outra can\u00e7\u00e3o no caminho.<\/p>\n<p data-start=\"10348\" data-end=\"10730\">Talvez essa seja a salva\u00e7\u00e3o secreta dos homens sens\u00edveis: eles sofrem mais, \u00e9 verdade, mas tamb\u00e9m escutam mais profundamente; perdem mais, mas guardam melhor; envelhecem, mas n\u00e3o deixam morrer a crian\u00e7a, o jovem, o amante, o sonhador, o poeta que um dia se emocionou diante de uma voz no r\u00e1dio e descobriu que a m\u00fasica era uma maneira de Deus tocar os feridos sem precisar aparecer.<\/p>\n<p data-start=\"10732\" data-end=\"11083\">Hoje, quando uma dessas can\u00e7\u00f5es antigas volta, eu j\u00e1 n\u00e3o tento resistir. Deixo que venha. Deixo que traga seus mortos, seus amores, seus fantasmas, suas ruas, suas noites, seus sal\u00f5es, seus bares, seus perfumes, suas cartas, suas fitas, seus discos, suas l\u00e1grimas. Deixo porque sei que lembrar tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de continuar pertencendo ao que fomos.<\/p>\n<p data-start=\"11085\" data-end=\"11420\">Deixo porque a mem\u00f3ria, por mais dolorosa que seja, ainda \u00e9 uma casa. E quem viveu com intensidade precisa, de vez em quando, voltar a essa casa, abrir as janelas, limpar a poeira dos m\u00f3veis, ouvir os passos antigos no corredor e aceitar que nem todo fantasma vem para assustar; alguns voltam apenas para provar que a vida teve beleza.<\/p>\n<p data-start=\"11422\" data-end=\"11887\">Por isso, se <strong data-start=\"11435\" data-end=\"11467\">\u201cBridge Over Troubled Water\u201d<\/strong>, de Simon &amp; Garfunkel, me chega hoje como uma ponte sobre \u00e1guas agitadas, eu a recebo como s\u00edmbolo de tudo aquilo que me sustentou quando a correnteza parecia forte demais: a m\u00fasica, a poesia, a f\u00e9, os amigos, os amores, as lembran\u00e7as, os sil\u00eancios, a pr\u00f3pria capacidade de sentir. Cada um de n\u00f3s precisou de alguma ponte para atravessar suas \u00e1guas dif\u00edceis, e talvez muitas dessas pontes tenham sido feitas de can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p data-start=\"11889\" data-end=\"12046\">Can\u00e7\u00f5es foram abrigo, companhia, len\u00e7o, carta, ora\u00e7\u00e3o, espelho, despedida e m\u00e3o invis\u00edvel que nos segurou quando ningu\u00e9m via que est\u00e1vamos caindo por dentro.<\/p>\n<p data-start=\"12048\" data-end=\"12417\">E quando penso em <strong data-start=\"12066\" data-end=\"12091\">\u201cO Mundo \u00e9 um Moinho\u201d<\/strong>, de Cartola, sinto a advert\u00eancia s\u00e1bia e triste de quem conhecia a vida por dentro, de quem sabia que o mundo m\u00f3i ilus\u00f5es, vaidades, inoc\u00eancias e amores mal protegidos. Cartola n\u00e3o cantava apenas a dor; cantava a lucidez. E a lucidez, quando chega tarde, fere; quando chega cedo, protege; quando chega pela m\u00fasica, permanece.<\/p>\n<p data-start=\"12419\" data-end=\"12723\">J\u00e1 <strong data-start=\"12422\" data-end=\"12446\">\u201cAs Rosas N\u00e3o Falam\u201d<\/strong> me ensina outra coisa: nem tudo que sentimos precisa ser explicado. Algumas dores s\u00f3 florescem em sil\u00eancio. Algumas saudades n\u00e3o respondem. Algumas lembran\u00e7as n\u00e3o t\u00eam discurso. Apenas existem, perfumadas e feridas, como rosas que n\u00e3o falam, mas dizem tudo a quem sabe escutar.<\/p>\n<p data-start=\"12725\" data-end=\"12927\">Foi isso que as d\u00e9cadas me ensinaram: nem toda dor precisa gritar, nem toda saudade precisa pedir explica\u00e7\u00e3o, nem todo amor precisa voltar para continuar existindo, nem toda m\u00fasica termina quando acaba.<\/p>\n<p data-start=\"12929\" data-end=\"13349\">A vida passa levando o cen\u00e1rio, mas deixa a trilha sonora. E \u00e9 essa trilha que agora me acompanha, n\u00e3o mais como quem deseja voltar ao passado, porque voltar \u00e9 imposs\u00edvel, mas como quem reconhece que o passado, quando foi vivido com verdade, n\u00e3o fica atr\u00e1s de n\u00f3s; fica dentro, trabalhando em sil\u00eancio, amaciando certas durezas, iluminando certas noites, ensinando que a mem\u00f3ria tamb\u00e9m pode ser uma forma de perman\u00eancia.<\/p>\n<p data-start=\"13351\" data-end=\"13772\">As minhas d\u00e9cadas ainda doem em mim, mas j\u00e1 n\u00e3o considero essa dor uma condena\u00e7\u00e3o. Considero uma heran\u00e7a. Uma heran\u00e7a de quem n\u00e3o atravessou a vida distra\u00eddo; de quem ouviu, amou, perdeu, esperou, dan\u00e7ou, chorou, escreveu, calou, recome\u00e7ou, guardou pequenos objetos, pequenos nomes, pequenos sinais, e descobriu que, no fim das contas, somos feitos menos daquilo que possu\u00edmos e mais daquilo que n\u00e3o conseguimos esquecer.<\/p>\n<p data-start=\"13774\" data-end=\"14269\">A primeira parte desta cr\u00f4nica nasceu de uma manh\u00e3. A segunda nasceu da noite. Esta terceira nasce da travessia. E talvez toda exist\u00eancia seja exatamente isso: uma manh\u00e3 em que a mem\u00f3ria acorda, uma noite em que o cora\u00e7\u00e3o se confessa, e uma travessia em que o homem finalmente compreende que n\u00e3o viveu impunemente, porque viver com alma deixa marcas, viver com amor deixa ecos, viver com m\u00fasica deixa dentro da gente uma orquestra invis\u00edvel que continua tocando mesmo depois que o baile termina.<\/p>\n<p data-start=\"14271\" data-end=\"14595\">Agora, quando olho para tr\u00e1s, n\u00e3o vejo apenas o que perdi. Vejo tamb\u00e9m o que recebi. Recebi can\u00e7\u00f5es que me deram linguagem, amores que me deram profundidade, dores que me deram humanidade, d\u00e9cadas que me deram hist\u00f3ria, aus\u00eancias que me ensinaram ternura, e a m\u00fasica como quem recebe um mapa secreto para atravessar o tempo.<\/p>\n<p data-start=\"14597\" data-end=\"14783\">E se minhas d\u00e9cadas ainda doem em mim, \u00e9 porque continuam vivas. S\u00f3 d\u00f3i o que ainda respira. S\u00f3 volta o que teve morada. S\u00f3 permanece o que, de alguma forma, nos pertenceu profundamente.<\/p>\n<p data-start=\"14785\" data-end=\"15267\">Por isso, quando a \u00faltima m\u00fasica desta trilogia parecer terminar, eu sei que ela n\u00e3o terminar\u00e1 de verdade. Ficar\u00e1 tocando em algum lugar antigo de mim, onde a juventude ainda caminha sem pressa, onde a noite ainda acende suas luzes coloridas, onde a radiola ainda espera uma ficha, onde o cinema ainda escurece para o amor, onde o mar ainda chama para a travessia, onde o tempo, mesmo vencendo quase tudo, n\u00e3o consegue vencer completamente a beleza do que foi vivido com sentimento.<\/p>\n<p data-start=\"15269\" data-end=\"15294\">Porque a vida passa, sim.<\/p>\n<p data-start=\"15296\" data-end=\"15360\" data-is-last-node=\"\" data-is-only-node=\"\">Mas quando passa cantando, deixa dentro da gente uma eternidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A travessia, o tempo e as can\u00e7\u00f5es que ficaram Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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