{"id":3809,"date":"2026-06-09T22:30:49","date_gmt":"2026-06-10T01:30:49","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=3809"},"modified":"2026-06-09T22:30:49","modified_gmt":"2026-06-10T01:30:49","slug":"quando-as-minhas-decadas-ainda-doem-em-mim-parte-ii-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=3809","title":{"rendered":"Quando as Minhas D\u00e9cadas Ainda Doem em Mim. Parte II. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<h4 data-section-id=\"1g8829e\" data-start=\"47\" data-end=\"115\">A noite, a radiola e os homens que sofriam em sil\u00eancio<\/h4>\n<p data-start=\"117\" data-end=\"1008\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/Minc\u00a0 \u2013\u00a0 <\/strong>Depois daquela manh\u00e3 em que <strong data-start=\"145\" data-end=\"153\">\u201cTu\u201d<\/strong>, na voz de J\u00falio C\u00e9sar, acordou dentro de mim uma vida inteira escondida no tempo, compreendi que as minhas d\u00e9cadas n\u00e3o doem apenas porque passaram; elas doem porque foram vividas com uma intensidade que hoje parece quase imposs\u00edvel, numa \u00e9poca em que a m\u00fasica n\u00e3o era apenas um som dispon\u00edvel a qualquer instante, numa tela fria, num aplicativo obediente, numa lista infinita onde tudo se encontra e quase nada se reverencia, mas era um acontecimento, um ritual, uma espera, uma escolha, uma esp\u00e9cie de cerim\u00f4nia sentimental que come\u00e7ava antes mesmo da primeira nota, quando algu\u00e9m comprava um disco, esperava uma can\u00e7\u00e3o tocar no r\u00e1dio, gravava uma fita cassete, escrevia uma carta \u00e0 m\u00e3o, oferecia uma m\u00fasica a algu\u00e9m ou se largava no sof\u00e1 da sala para ouvir, com o cora\u00e7\u00e3o desprotegido, aquilo que talvez n\u00e3o tivesse coragem de dizer olhando nos olhos.<\/p>\n<p data-start=\"1010\" data-end=\"1050\">Naquele tempo, a m\u00fasica exigia presen\u00e7a.\u00a0Era preciso parar. Era preciso sentar. Era preciso esperar o lado certo do disco, levantar a tampa da radiola, colocar a agulha com delicadeza, virar a fita no toca-fitas, procurar a esta\u00e7\u00e3o no r\u00e1dio, torcer para que o locutor anunciasse aquela can\u00e7\u00e3o, e talvez por isso cada m\u00fasica tivesse mais peso, mais corpo, mais destino, porque nada vinha f\u00e1cil demais, nada chegava sem algum pequeno esfor\u00e7o de amor, e tudo aquilo que exigia espera parecia tamb\u00e9m merecer mais perman\u00eancia dentro da gente.<\/p>\n<p data-start=\"1552\" data-end=\"1658\">A juventude daquele tempo n\u00e3o ouvia m\u00fasica apenas para preencher sil\u00eancio; ouvia para entender a si mesma. Muitas vezes uma can\u00e7\u00e3o era o que nos salvava de uma vergonha, de uma timidez, de uma confiss\u00e3o imposs\u00edvel. Dar um disco de presente era entregar uma parte da alma embrulhada em papel; oferecer uma m\u00fasica no r\u00e1dio era colocar um recado \u00edntimo no ouvido da cidade inteira; convidar algu\u00e9m para ouvir um som era, muitas vezes, a forma mais bonita e disfar\u00e7ada de dizer: fique um pouco mais perto de mim, porque eu ainda n\u00e3o sei falar o que sinto, mas esta can\u00e7\u00e3o sabe.<\/p>\n<p data-start=\"2128\" data-end=\"2158\">E como sabiam aquelas can\u00e7\u00f5es. Sabiam mais do que n\u00f3s.\u00a0Sabiam o nome das nossas esperas, das nossas paix\u00f5es, dos nossos medos, das nossas primeiras despedidas, dos nossos ci\u00fames escondidos, dos nossos bilhetes dobrados no bolso, das nossas cartas escritas com letra caprichada e cora\u00e7\u00e3o desarrumado, sabiam at\u00e9 aquilo que fing\u00edamos n\u00e3o sentir, porque a m\u00fasica, quando \u00e9 verdadeira, n\u00e3o pergunta se pode entrar nos lugares secretos da alma; ela simplesmente come\u00e7a a tocar, e o homem, por mais forte que pare\u00e7a, vai ficando menor diante dela.<\/p>\n<p data-start=\"2673\" data-end=\"2716\">Depois das salas de casa, vieram as noites.\u00a0Vieram os clubes das cidades do interior, as boates com suas luzes negras e coloridas, os sal\u00f5es onde a juventude ensaiava a eternidade, as festas em que cada roupa parecia escolhida para mudar o destino, os perfumes usados com esperan\u00e7a, os cabelos arrumados diante do espelho como quem se preparava n\u00e3o apenas para sair, mas para ser visto, lembrado, desejado, talvez amado por algu\u00e9m que tamb\u00e9m chegaria trazendo dentro de si a mesma fome de vida, a mesma inseguran\u00e7a, a mesma vontade de que uma m\u00fasica lenta come\u00e7asse na hora certa.<\/p>\n<p data-start=\"3256\" data-end=\"3291\">A noite tinha uma liturgia pr\u00f3pria. Primeiro vinham as m\u00fasicas mais r\u00e1pidas, os corpos se soltando, os olhares se procurando, a pista acesa, as risadas altas, as roupas brilhando sob a luz, os passos talvez desajeitados, mas sinceros, porque a juventude nunca precisa de muita t\u00e9cnica para ser bonita; depois, quando a pista desacelerava e a m\u00fasica lenta come\u00e7ava, alguma coisa no ambiente mudava, como se o mundo reduzisse o volume para permitir que dois cora\u00e7\u00f5es se ouvissem melhor.<\/p>\n<p data-start=\"3743\" data-end=\"3787\">Dan\u00e7ar de rosto colado era um acontecimento. N\u00e3o era apenas dan\u00e7a. Era uma aproxima\u00e7\u00e3o perigosa e respeitosa, uma conversa sem palavras, uma confiss\u00e3o feita pela respira\u00e7\u00e3o, uma pergunta respondida pelo modo como uma m\u00e3o se demorava nas costas do outro, uma eternidade medida em poucos minutos, porque muita gente viveu romances inteiros dentro de uma m\u00fasica lenta, e talvez jamais tenha esquecido aquele instante em que o sal\u00e3o desapareceu, as luzes ficaram distantes, os outros casais viraram sombra, e s\u00f3 restou a proximidade de um rosto, o perfume de uma pele, o sil\u00eancio tremendo entre duas pessoas que fingiam dan\u00e7ar quando, na verdade, estavam aprendendo a lembrar.<\/p>\n<p data-start=\"4419\" data-end=\"4897\">Nessas horas, <strong data-start=\"4433\" data-end=\"4454\">\u201cWe\u2019re All Alone\u201d<\/strong>, na voz de Rita Coolidge, podia cair sobre a pista como uma seda triste; <strong data-start=\"4528\" data-end=\"4548\">\u201cSkyline Pigeon\u201d<\/strong>, de Elton John, podia abrir no peito uma vontade de voo; <strong data-start=\"4606\" data-end=\"4632\">\u201cOne Day in Your Life\u201d<\/strong>, de Michael Jackson, podia prometer que um dia a lembran\u00e7a voltaria; e outras can\u00e7\u00f5es, brasileiras ou estrangeiras, faziam a noite parecer maior do que ela era, porque a juventude sempre acreditou que uma m\u00fasica bonita tinha poderes que a pr\u00f3pria vida n\u00e3o possu\u00eda.<\/p>\n<p data-start=\"4899\" data-end=\"5528\">Tamb\u00e9m havia os carros, as estradas curtas, os passeios sem pressa, as fitas cassete cuidadosamente gravadas, o toca-fitas trabalhando como pequeno altar eletr\u00f4nico dentro do painel, e cada lado da fita parecia guardar uma declara\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, uma saudade antecipada, uma sequ\u00eancia de can\u00e7\u00f5es escolhidas n\u00e3o pelo acaso, mas por uma inten\u00e7\u00e3o secreta, porque quem gravava uma fita para algu\u00e9m n\u00e3o gravava apenas m\u00fasicas; gravava a ordem do pr\u00f3prio sentimento, escolhia a primeira faixa como quem abre uma passagem, a segunda como quem se aproxima, a terceira como quem quase confessa, e a \u00faltima como quem deixa uma pergunta no ar.<\/p>\n<p data-start=\"5530\" data-end=\"5629\">Hoje tudo pode ser enviado em segundos, mas talvez justamente por isso muita coisa chegue sem alma.<\/p>\n<p data-start=\"5631\" data-end=\"6083\">Naquele tempo, uma fita tinha ru\u00eddo, tinha espera, tinha o lado A e o lado B, tinha a interrup\u00e7\u00e3o brusca da grava\u00e7\u00e3o quando a m\u00fasica terminava no r\u00e1dio, tinha a voz do locutor entrando sem ser convidada, tinha o erro, a paci\u00eancia, o cuidado, e talvez por isso fosse mais humana, porque o amor tamb\u00e9m nunca veio perfeito, sempre trouxe chiados, cortes, falhas, sil\u00eancios, recome\u00e7os e aquela estranha beleza das coisas feitas com as m\u00e3os e com o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p data-start=\"6085\" data-end=\"6144\">Os cinemas tamb\u00e9m faziam parte dessa geografia sentimental.<\/p>\n<p data-start=\"6146\" data-end=\"6862\">Muita gente aprendeu a amar no escuro de uma sala de cinema, vendo hist\u00f3rias que pareciam maiores do que a pr\u00f3pria vida, romances imposs\u00edveis, despedidas debaixo de chuva, rostos iluminados pela tela, m\u00e3os que se encontravam devagar no bra\u00e7o da poltrona, sorvetes tomados depois da sess\u00e3o, cal\u00e7adas molhadas, voltas para casa em sil\u00eancio, e alguma pequena rel\u00edquia guardada por anos como prova de que aquilo existiu, porque a juventude, quando ama, transforma qualquer vest\u00edgio em sacramento: um ingresso antigo, uma fotografia dobrada, uma carta, um len\u00e7o, um fio de cabelo, um papel amarelado, qualquer coisa m\u00ednima que, aos olhos dos outros, nada significa, mas para quem amou conserva o peso inteiro de uma vida.<\/p>\n<p data-start=\"6864\" data-end=\"6923\">Algumas lembran\u00e7as cabem num len\u00e7o, mas atravessam d\u00e9cadas.\u00a0Um gesto pequeno pode durar mais do que uma promessa.Uma chuva depois do cinema pode molhar para sempre a mem\u00f3ria de algu\u00e9m.\u00a0Talvez seja por isso que filmes como <strong data-start=\"7090\" data-end=\"7106\">\u201cLove Story\u201d<\/strong>, <strong data-start=\"7108\" data-end=\"7129\">\u201cRomeu e Julieta\u201d<\/strong> e tantos outros romances daquela \u00e9poca n\u00e3o ficaram apenas nas telas; entraram na educa\u00e7\u00e3o sentimental de uma gera\u00e7\u00e3o que acreditava no amor com uma solenidade quase religiosa, mesmo quando o amor machucava, mesmo quando terminava, mesmo quando deixava para tr\u00e1s apenas uma can\u00e7\u00e3o e um objeto guardado numa gaveta.<\/p>\n<p data-start=\"7445\" data-end=\"7489\">Os clubes do interior tinham outra grandeza.N\u00e3o eram apenas pr\u00e9dios sociais; eram palcos da vida. Cada cidade tinha seus sal\u00f5es, seus bailes esperados, suas bandas queridas, seus conjuntos que faziam a juventude atravessar a noite como se atravessasse uma ponte para o futuro. Quando a banda come\u00e7ava, parecia que a cidade inteira ganhava outro cora\u00e7\u00e3o. Pais observavam, mo\u00e7as sorriam, rapazes criavam coragem, amigos se agrupavam nos cantos, e a m\u00fasica organizava o caos bonito da juventude, distribuindo esperan\u00e7as, ci\u00fames, encontros, olhares e despedidas.<\/p>\n<p data-start=\"8007\" data-end=\"8091\">A gente sa\u00eda de casa para dan\u00e7ar, mas, sem saber, sa\u00eda tamb\u00e9m para fabricar mem\u00f3ria.E que mem\u00f3ria. Mem\u00f3ria de luzes coloridas, de clubes cheios, de sapatos novos, de camisas passadas, de vestidos que pareciam feitos para uma \u00fanica noite, de cabelos armados, de meias coloridas, de brilho, de exagero, de juventude querendo ser cinema, novela, m\u00fasica e destino ao mesmo tempo. A vida tinha mais demora, os encontros tinham mais prepara\u00e7\u00e3o, os amores tinham mais cerim\u00f4nia, e at\u00e9 a ansiedade de esperar algu\u00e9m chegar possu\u00eda uma do\u00e7ura que hoje parece perdida no mundo das mensagens instant\u00e2neas, onde tudo responde r\u00e1pido, mas quase nada permanece.<\/p>\n<p data-start=\"8659\" data-end=\"8736\">Nos bares onde a m\u00fasica pagava a confiss\u00e3o dos homens, a noite era diferente.\u00a0Ali a alegria vinha misturada com uma tristeza que ningu\u00e9m precisava explicar. O sujeito chegava, escolhia uma mesa, pedia uma bebida, olhava a radiola de ficha com a seriedade de quem escolhe uma testemunha, colocava a moeda, apertava o bot\u00e3o, e quando a can\u00e7\u00e3o come\u00e7ava, todos sabiam que alguma coisa nele estava sendo dita sem que ele abrisse a boca.<\/p>\n<p data-start=\"9093\" data-end=\"9188\">A m\u00fasica que ele pedia na radiola dizia por ele o nome da dor que sua boca n\u00e3o sabia confessar.\u00a0Alguns homens eram educados demais para chorar em p\u00fablico, orgulhosos demais para contar uma fraqueza, endurecidos demais pela vida para admitir que ainda sofriam por algu\u00e9m, mas bastava tocar uma can\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio Marcos, Fernando Mendes, Roberto Carlos, Nelson Gon\u00e7alves, Altemar Dutra, Waldick Soriano, Paulo S\u00e9rgio ou tantos outros int\u00e9rpretes da dor popular, e aquele sil\u00eancio masculino come\u00e7ava a rachar por dentro.<\/p>\n<p data-start=\"9613\" data-end=\"9634\">O copo ficava parado.\u00a0O cigarro queimava sozinho.\u00a0O olhar se perdia num ponto qualquer da parede. Ningu\u00e9m perguntava nada, porque nos bares antigos havia uma sabedoria silenciosa: certas dores n\u00e3o devem ser interrogadas; devem ser apenas respeitadas enquanto a m\u00fasica faz o seu trabalho. E a m\u00fasica fazia.<\/p>\n<p data-start=\"9924\" data-end=\"10488\">Ela tirava do fundo do homem uma aus\u00eancia que ele escondia at\u00e9 de si mesmo, trazia de volta um rosto, uma trai\u00e7\u00e3o, uma paix\u00e3o imposs\u00edvel, uma mulher que partiu, uma promessa que n\u00e3o se cumpriu, uma casa que n\u00e3o esperava mais, um filho distante, uma juventude perdida, um amor enterrado sem despedida. Muita gente pensa que bar era apenas lugar de bebida, mas para muitos homens era tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de igreja torta, um confession\u00e1rio sem padre, onde a absolvi\u00e7\u00e3o vinha em forma de bolero, samba-can\u00e7\u00e3o, brega, jovem guarda, m\u00fasica italiana ou balada estrangeira.<\/p>\n<p data-start=\"10490\" data-end=\"10543\">E os cabar\u00e9s de luzes coloridas tinham outra verdade.\u00a0Ali a vida tirava a m\u00e1scara das apar\u00eancias e mostrava sua face mais crua, mais humana, menos arrumada para fotografia. As can\u00e7\u00f5es tocavam entre risos, promessas, perfumes fortes, vestidos brilhantes, olhares cansados, dinheiro contado, desejos passageiros e solid\u00f5es profundas. Mas n\u00e3o se deve olhar esses lugares apenas com o julgamento f\u00e1cil dos que nunca compreenderam a noite; nos cabar\u00e9s tamb\u00e9m havia ternura, havia abandono, havia mulheres que carregavam hist\u00f3rias inteiras nos olhos, homens que chegavam fingindo prazer e muitas vezes buscavam apenas companhia, e m\u00fasicas que, no meio daquela luz colorida, pareciam iluminar por segundos uma tristeza que o mundo do dia preferia n\u00e3o ver.\u00a0A noite ensinou muita coisa \u00e0s minhas d\u00e9cadas.Ensinou que a alegria tamb\u00e9m pode ser triste.\u00a0Ensinou que muita dan\u00e7a esconde abandono.\u00a0Ensinou que o riso alto, \u00e0s vezes, \u00e9 apenas uma forma de impedir que o choro seja ouvido.Ensinou que uma m\u00fasica lenta pode ser mais perigosa do que uma declara\u00e7\u00e3o.Ensinou que algumas pessoas passam por n\u00f3s durante uma \u00fanica noite e, mesmo assim, nunca mais saem completamente.<\/p>\n<p data-start=\"11661\" data-end=\"12199\">Por isso, quando hoje escuto certas can\u00e7\u00f5es, n\u00e3o escuto apenas a melodia; escuto o ambiente inteiro que vinha com elas. Escuto o sal\u00e3o, a radiola, a banda, o chiado da fita, o locutor da r\u00e1dio, o carro andando pela avenida, o cinema esvaziando depois da sess\u00e3o, a chuva batendo na cal\u00e7ada, o bar fechando as portas, a mulher que sorriu e n\u00e3o voltou, o homem que bebeu calado, o casal que dan\u00e7ou sem saber que aquela seria a \u00faltima m\u00fasica, a juventude inteira tentando ser feliz antes que o tempo lhe explicasse o pre\u00e7o de toda felicidade.<\/p>\n<p data-start=\"12201\" data-end=\"12231\">Talvez seja isso que mais doa.N\u00e3o \u00e9 apenas a saudade do que se perdeu.\u00c9 a saudade da maneira como se vivia.Viv\u00edamos mais no olho no olho, mais na espera, mais no risco, mais na coragem f\u00edsica de estar diante do outro, de atravessar um sal\u00e3o, de pedir uma dan\u00e7a, de entregar uma carta, de oferecer uma m\u00fasica, de marcar um encontro, de ficar \u00e0 porta de um cinema, de esperar na cal\u00e7ada, de voltar para casa molhado de chuva e cheio de uma alegria que ningu\u00e9m via, mas que fazia o cora\u00e7\u00e3o bater como se a vida inteira coubesse dentro daquela noite.<\/p>\n<p data-start=\"12755\" data-end=\"12831\">As minhas d\u00e9cadas ainda doem em mim porque nelas a m\u00fasica tinha temperatura.Tinha o calor da m\u00e3o suada no primeiro encontro.Tinha o cheiro da madeira da radiola.Tinha o ru\u00eddo da fita cassete.Tinha a luz negra das boates.Tinha o som das bandas nos clubes.Tinha o sil\u00eancio dos bares depois da \u00faltima can\u00e7\u00e3o.Tinha a delicadeza das cartas.Tinha o drama dos filmes rom\u00e2nticos.Tinha a eternidade provis\u00f3ria das paix\u00f5es juvenis.\u00a0Tinha tudo aquilo que, mesmo tendo passado, continua vivo em algum lugar onde o tempo n\u00e3o consegue mandar.<\/p>\n<p data-start=\"13304\" data-end=\"13882\">A vida mudou, e seria injusto dizer que tudo ficou pior, porque cada tempo tem sua beleza, sua linguagem, sua juventude e sua forma de amar; mas n\u00e3o posso negar que alguma coisa se perdeu quando a m\u00fasica deixou de ser ritual e passou a ser apenas disponibilidade, quando a espera desapareceu, quando as cartas foram substitu\u00eddas por mensagens r\u00e1pidas, quando os discos deixaram de ser presentes e as can\u00e7\u00f5es deixaram de ser oferendas, quando dan\u00e7ar de rosto colado virou quase uma cena antiga, dessas que os jovens veem com curiosidade, mas talvez nunca compreendam com o corpo.<\/p>\n<p data-start=\"13884\" data-end=\"13933\">S\u00f3 entende completamente aquele tempo quem viveu.Quem viveu sabe.Sabe que uma can\u00e7\u00e3o podia mudar a noite.Sabe que uma radiola de ficha podia denunciar um amor secreto.Sabe que uma fita cassete podia carregar uma declara\u00e7\u00e3o inteira.Sabe que um baile podia decidir uma juventude.Sabe que um cinema podia fabricar uma lembran\u00e7a para o resto da vida.Sabe que uma m\u00fasica oferecida no r\u00e1dio podia fazer algu\u00e9m sorrir sozinho em casa.Sabe que um objeto pequeno, guardado por anos, podia conter mais amor do que muitos romances inteiros.<\/p>\n<p data-start=\"14431\" data-end=\"14790\">Foi por isso que a primeira parte desta cr\u00f4nica acordou tantas mem\u00f3rias em mim e, talvez, em outros cora\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m atravessaram aquelas d\u00e9cadas com os olhos acesos e a alma exposta. Porque, no fundo, cada um carrega sua pr\u00f3pria radiola, sua pr\u00f3pria pista, seu pr\u00f3prio bar, seu pr\u00f3prio cinema, sua pr\u00f3pria chuva, sua pr\u00f3pria can\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel de esquecer.<\/p>\n<p data-start=\"14792\" data-end=\"14828\">A minha toca dentro de mim at\u00e9 hoje.E quando ela toca, voltam os clubes, os bares, os cabar\u00e9s de luzes coloridas, os sal\u00f5es, as fitas cassete, os discos presenteados, as cartas escritas \u00e0 m\u00e3o, os amores que tiveram coragem, os amores que se calaram, os amores que partiram, os amores que ficaram apenas como m\u00fasica.Porque a vida, quando \u00e9 vivida com sentimento, n\u00e3o desaparece.Ela se transforma em som.<\/p>\n<p data-start=\"15202\" data-end=\"15535\">E onde fica som, fica lembran\u00e7a; onde fica lembran\u00e7a, fica algu\u00e9m que fomos; onde fica algu\u00e9m que fomos, fica tamb\u00e9m essa dor bonita, essa dor de reconhecer que fomos felizes, que sofremos, que dan\u00e7amos, que esperamos, que amamos, que atravessamos noites inteiras acreditando que uma can\u00e7\u00e3o poderia salvar alguma coisa dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p data-start=\"15537\" data-end=\"15553\">Talvez salvasse.Talvez ainda salve.Porque certas can\u00e7\u00f5es n\u00e3o terminam quando acabam; elas continuam tocando no lugar mais antigo de n\u00f3s, onde a juventude ainda dan\u00e7a, a saudade ainda respira e as d\u00e9cadas que vivemos continuam doendo como prova de que um dia fomos profundamente felizes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A noite, a radiola e os homens que sofriam em sil\u00eancio Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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