{"id":3628,"date":"2026-05-24T19:47:49","date_gmt":"2026-05-24T22:47:49","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=3628"},"modified":"2026-05-24T19:47:49","modified_gmt":"2026-05-24T22:47:49","slug":"o-cafe-e-as-coisas-que-nao-dizemos-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=3628","title":{"rendered":"O caf\u00e9 e as coisas que n\u00e3o dizemos. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/Minc\u00a0 \u2013\u00a0 <\/strong>O cheiro chega antes de tudo, quente e antigo, subindo pela casa como certas lembran\u00e7as que nunca aprenderam a ir embora. Ainda est\u00e1 escuro quando algu\u00e9m acende a luz da cozinha e coloca \u00e1gua para ferver, n\u00e3o porque saiba exatamente o que fazer da vida, mas porque existem manh\u00e3s em que preparar caf\u00e9 \u00e9 a \u00fanica maneira de impedir que o cora\u00e7\u00e3o desmorone antes do dia nascer por completo. O mundo pode estar em ru\u00ednas do lado de fora, as contas podem continuar sobre a mesa, o amor pode ter ido embora na noite anterior, mas enquanto a \u00e1gua esquenta e o p\u00f3 recebe os primeiros fios quentes daquele pequeno milagre cotidiano, alguma coisa dentro da pessoa volta lentamente para o lugar.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Talvez por isso o caf\u00e9 esteja presente em quase todas as lembran\u00e7as importantes que sobrevivem ao tempo. N\u00e3o porque ele tenha resolvido as dores humanas, mas porque esteve ao lado delas. Porque acompanhou silenciosamente a vida enquanto ela acontecia sem ensaio, sem aviso e sem miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Nas cozinhas simples, onde o piso gasto conhece o caminho cansado de quem acorda cedo h\u00e1 d\u00e9cadas, o caf\u00e9 \u00e9 sempre o primeiro gesto de amor do dia. A m\u00e3e que o prepara ainda de madrugada para n\u00e3o acordar os filhos talvez nem perceba que naquele movimento repetido existe uma forma profunda de cuidado. Ela separa o a\u00e7\u00facar, aquece a \u00e1gua, sopra devagar a primeira fuma\u00e7a que sobe da x\u00edcara e bebe em p\u00e9, olhando para o quintal ainda escuro, como quem tenta reunir for\u00e7as antes de voltar a ser tudo para todos outra vez.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">E quantas vidas come\u00e7aram diante de um caf\u00e9.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">O rapaz nervoso que chamou a mo\u00e7a para uma padaria pequena no centro porque n\u00e3o tinha dinheiro para um restaurante bonito, mas passou a noite inteira ensaiando o que diria. Ela chegou usando perfume demais para quem fingia tranquilidade, sentou diante dele segurando a bolsa no colo e os dois passaram v\u00e1rios minutos mexendo o caf\u00e9 j\u00e1 sem a\u00e7\u00facar porque nenhuma coragem nasce imediatamente. Anos depois, quando a vida j\u00e1 havia gasto parte do brilho da juventude, ainda era daquele caf\u00e9 simples que os dois se lembravam quando algu\u00e9m perguntava onde tudo tinha come\u00e7ado.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">O caf\u00e9 conhece o amor de um jeito que poucas coisas conhecem.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Conhece o amor jovem, que fala demais e deixa o caf\u00e9 esfriar porque est\u00e1 ocupado fazendo promessas. Conhece o amor cansado dos casais que j\u00e1 atravessaram doen\u00e7as, dificuldades e boletos atrasados, mas continuam sentando juntos no fim da tarde enquanto um pergunta ao outro se o caf\u00e9 ficou forte demais. Conhece o amor antigo, aquele em que quase n\u00e3o se fala porque o sil\u00eancio j\u00e1 aprendeu o idioma inteiro da conviv\u00eancia. E conhece tamb\u00e9m o amor que um homem nutre pela cadeira vazia, o aposentado que prepara duas x\u00edcaras todas as manh\u00e3s antes de lembrar que j\u00e1 n\u00e3o precisa da segunda, e mesmo assim a serve, deixando-a diante da cadeira vazia como quem se recusa a permitir que o amor desapare\u00e7a completamente da casa.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">E conhece tamb\u00e9m as despedidas.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Amores que terminam diante de uma x\u00edcara morna numa mesa pequena onde duas pessoas ainda se tratam com delicadeza porque sabem que est\u00e3o enterrando uma hist\u00f3ria que um dia foi bonita. Ningu\u00e9m levanta a voz. Ningu\u00e9m bate na mesa. Apenas chega um momento em que os dois entendem, ao mesmo tempo, que o futuro n\u00e3o vir\u00e1 mais para aquela rela\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o o caf\u00e9 vai esfriando entre eles enquanto tentam conversar sobre assuntos pequenos porque certas dores s\u00f3 conseguem entrar na vida devagar.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Talvez o caf\u00e9 tenha aprendido a permanecer justamente por isso. Porque ele nunca exige felicidade para existir. Acompanha tanto quem celebra quanto quem suporta.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Nas mesas de padaria, homens cansados reorganizam a vida antes do expediente come\u00e7ar. O caminhoneiro decide que n\u00e3o aguenta mais a estrada. O pedreiro cria coragem para pedir a filha em casamento. Mas o caf\u00e9 tamb\u00e9m esteve em outras mesas, menos humildes e igualmente decisivas. Esteve nas salas onde o poder se negociava entre homens de gravata afrouxada e olhos vermelhos de ins\u00f4nia, onde um assessor entrava com x\u00edcaras fumegantes porque sabia, com a sabedoria pr\u00e1tica de quem serve sem ser notado, que homens exaustos decidem melhor quando t\u00eam algo quente nas m\u00e3os. O que foi acordado nessas tardes afetou muita gente que nunca soube que o caf\u00e9 tamb\u00e9m esteve na sala. A hist\u00f3ria oficial guarda os discursos. O caf\u00e9 guardou os bastidores.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">H\u00e1 tamb\u00e9m o caf\u00e9 dos vel\u00f3rios.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Ningu\u00e9m combina, mas ele sempre aparece. As pessoas se servem em x\u00edcaras emprestadas de vizinhos, porque na casa do morto nunca h\u00e1 x\u00edcaras suficientes para a dor toda que aparece, e ficam de p\u00e9 segurando essas x\u00edcaras com as duas m\u00e3os como se fossem objetos que precisam de amparo, conversando sobre o finado em voz baixa e misturando mem\u00f3ria e saudade com o vapor que sobe. O caf\u00e9 nos vel\u00f3rios tem sempre um gosto diferente, mais fundo, mais escuro, como se soubesse onde est\u00e1 e tivesse ajustado o sabor para a ocasi\u00e3o. Ele n\u00e3o consola. Mas ocupa as m\u00e3os de quem n\u00e3o sabe o que fazer com o corpo diante da perda, e isso, em certas horas, \u00e9 mais do que suficiente.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">H\u00e1 tamb\u00e9m o caf\u00e9 das madrugadas dif\u00edceis.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Aquele feito \u00e0s duas da manh\u00e3 quando o apartamento parece silencioso demais e a solid\u00e3o cresce pelos cantos. O caf\u00e9 n\u00e3o cura ningu\u00e9m. Mas obriga a pessoa a continuar. Acender a luz. Procurar a colher. Esperar a \u00e1gua ferver. Segurar algo quente entre as m\u00e3os enquanto o cora\u00e7\u00e3o tenta sobreviver a mais uma noite. E \u00e0s vezes a esperan\u00e7a come\u00e7a exatamente assim, pequena, quase invis\u00edvel, dentro de uma cozinha vazia \u00e0s duas da manh\u00e3, quando a \u00fanica companhia dispon\u00edvel \u00e9 o barulho da \u00e1gua chegando \u00e0 fervura.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Mas existe um caf\u00e9 ainda mais raro do que o primeiro amor e mais dif\u00edcil do que a despedida.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">O caf\u00e9 do reencontro.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Ela apareceu numa manh\u00e3 chuvosa muitos anos depois de ter ido embora. O tempo havia mudado os dois em quase tudo, menos na maneira como se olhavam, e isso era ao mesmo tempo uma alegria e uma dificuldade, porque certas afinidades que n\u00e3o desaparecem nos lembram de tudo que se perdeu enquanto a vida seguia em frente sem nos perguntar se est\u00e1vamos prontos. Ele abriu a porta sem saber o que fazer com as pr\u00f3prias m\u00e3os, sem encontrar nenhuma frase inteligente, porque certos sentimentos voltam t\u00e3o grandes que deixam a linguagem pequena demais. Ent\u00e3o fez o que as pessoas fazem quando o cora\u00e7\u00e3o transborda e as palavras n\u00e3o ajudam: foi para a cozinha e passou caf\u00e9.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Ela ficou sentada \u00e0 mesa ouvindo os sons antigos da casa, o barulho da colher na x\u00edcara, a \u00e1gua fervendo, a chuva batendo baixo na janela, e percebeu que \u00e0s vezes o amor n\u00e3o acaba. Apenas espera em sil\u00eancio dentro daquilo que continua familiar. Quando ele colocou a x\u00edcara diante dela, os dedos dos dois se tocaram por um instante breve, e havia tanta vida acumulada naquele pequeno toque que nenhum dos dois ousou falar imediatamente. N\u00e3o porque tivessem chegado a algum lugar. Mas porque ainda n\u00e3o sabiam se o que restava era suficiente para reconstruir ou apenas bonito demais para enterrar de vez.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Tomaram caf\u00e9 olhando a manh\u00e3 chuvosa sem pressa alguma. Como fazem as pessoas que ainda n\u00e3o sabem o que vem a seguir, mas que entenderam que o amor n\u00e3o mora nos grandes acontecimentos. Mora nas coisas simples que permanecem depois que todo o resto passou.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">O caf\u00e9 sabe disso.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Passou discretamente por todas as esta\u00e7\u00f5es da vida humana sem nunca pedir import\u00e2ncia. Esteve na mesa das reconcilia\u00e7\u00f5es, das not\u00edcias dif\u00edceis, das esperas intermin\u00e1veis e das manh\u00e3s felizes que ningu\u00e9m imaginava que um dia virariam saudade. Escutou risos, choros abafados, promessas, sil\u00eancios e pedidos de perd\u00e3o ditos quase sem voz. Viu gente partir e viu gente voltar. Esteve no primeiro beijo e no \u00faltimo adeus, na manh\u00e3 do casamento e na madrugada do div\u00f3rcio, na inf\u00e2ncia que ainda n\u00e3o entendia seu amargor e na velhice que j\u00e1 n\u00e3o conseguia imaginar o dia sem ele.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">E talvez seja por isso que, muitos anos depois, quando quase tudo desaparece da mem\u00f3ria, ainda reste com uma nitidez dolorosamente bonita a lembran\u00e7a de algu\u00e9m colocando caf\u00e9 numa x\u00edcara para n\u00f3s numa manh\u00e3 qualquer.<\/p>\n<p class=\"font-claude-response-body break-words whitespace-normal leading-[1.7]\">Porque no fundo, quase todo amor verdadeiro passou um dia pela cozinha.\u00a0E ficou para sempre morando no cheiro do caf\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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