{"id":3463,"date":"2026-05-02T01:49:25","date_gmt":"2026-05-02T04:49:25","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=3463"},"modified":"2026-05-02T01:57:22","modified_gmt":"2026-05-02T04:57:22","slug":"o-que-a-chuva-leva-e-a-infancia-guarda-para-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=3463","title":{"rendered":"O que a chuva leva e a inf\u00e2ncia guarda para sempre. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<p class=\"epigrafe-topo\"><strong>Uma hist\u00f3ria de Can\u00e1polis, de Recife, e de todas as crian\u00e7as que o poder p\u00fablico esqueceu<\/strong><\/p>\n<p><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/Minc\u00a0 \u2013\u00a0 <\/strong>Na Rua Bernardo Vieira de Melo, no bairro do Padroeiro, em Can\u00e1polis, havia uma casa pequena. Pequena como s\u00f3 podem ser as casas que guardam uma dor grande. Era a casa de um menino \u00f3rf\u00e3o de pai, daquela falta, que \u00e0s vezes d\u00f3i mais porque a aus\u00eancia n\u00e3o tem data nem sepultura onde a gente possa chorar direito.<\/p>\n<p>Certo dia algu\u00e9m lhe deu um gato. N\u00e3o era um presente grandioso, n\u00e3o veio embrulhado nem com la\u00e7o. Era um bicho mi\u00fado, de pelos cor de cinza mesclada com algum dourado, a cor exata das coisas que n\u00e3o t\u00eam nome bonito mas que a gente ama de um jeito feroz. O menino chamou o gato de Fifi. Ningu\u00e9m perguntou por que Fifi. E ele n\u00e3o sabia explicar. \u00c0s vezes os nomes mais verdadeiros chegam assim, sem raz\u00e3o, como chega o amor.<\/p>\n<p>Fifi dormia no p\u00e9 da cama quando tinha frio. Nos dias de calor, estirava no ch\u00e3o de cimento, de barriga pra cima, como se o mundo fosse um lugar seguro. O menino olhava e sentia uma coisa que n\u00e3o sabia nomear, mas que n\u00f3s, que j\u00e1 crescemos, reconhecemos como a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o estar s\u00f3. Havia entre os dois uma linguagem que dispensava palavras. Um miado, e o menino entendia que Fifi estava com fome. Um chamado baixinho do menino, e Fifi vinha. Quando a m\u00e3e estava cansada e o sil\u00eancio da casa pesava como laje, Fifi pulava no colo e ficava. S\u00f3 ficava. E era o suficiente.<\/p>\n<p>A dor de n\u00e3o ter pai, essa dor que ningu\u00e9m ensina a carregar, ia sendo acomodada assim, devagar, no calor do pelo do gato. O menino n\u00e3o sabia disso com palavras. Sabia apenas que quando abra\u00e7ava Fifi respirava mais fundo.<\/p>\n<p>Foi numa madrugada de inverno que a vida mostrou o que \u00e9 capaz de fazer. A chuva come\u00e7ou comum, aquele tamborilar no telhado de telha canal que quase embalava o sono, mas foi crescendo at\u00e9 virar um barulho de rio. A \u00e1gua acumulou-se no p\u00e1tio, escorreu pelas paredes, entrou pelas frinchas. O telhado da cozinha, feito de caibros e ripas j\u00e1 cansadas pelo tempo, come\u00e7ou a gemer. A cozinha era o cora\u00e7\u00e3o da casa. Ali ficava o fog\u00e3o de carv\u00e3o, o tanque onde o carv\u00e3o era guardado para o caf\u00e9 da manh\u00e3, para o almo\u00e7o, para a ceia. Ali a m\u00e3e cozinhava as refei\u00e7\u00f5es simples que sustentavam o menino e sustentavam tamb\u00e9m a dignidade daquela casa sem regalias.<\/p>\n<p>A parede n\u00e3o aguentou. Cedeu de uma vez, com um estrondo que o menino ouviria nos sonhos pelo resto da vida. E debaixo dos escombros, debaixo dos peda\u00e7os de reboco e de barro molhado, estava Fifi.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o morreu. Fifi n\u00e3o morreu. E talvez isso tornasse tudo mais complicado, porque a morte tem um rito, tem um fim. Mas Fifi ficou vivo, ferido, uma pata que n\u00e3o dobrava mais como antes, um andar mancando que do\u00eda de ver. O menino ficou no ch\u00e3o ao lado do gato. N\u00e3o se sabe quanto tempo. Provavelmente muito. Chorou do jeito que as crian\u00e7as choram quando a dor \u00e9 grande demais para caber no peito, com o corpo inteiro, com solu\u00e7o, com a face enterrada no pelo do bicho ferido. E Fifi ficou quieto, suportando, como se soubesse que naquele momento era ele quem precisava consolar.<\/p>\n<p>Aquele choro n\u00e3o era s\u00f3 pelo gato. Era pelo pai que n\u00e3o estava. Pela parede que caiu. Pela inf\u00e2ncia que n\u00e3o tinha como ser diferente. Era o choro de uma crian\u00e7a diante da primeira vez que o mundo mostrou que n\u00e3o tem pena.<\/p>\n<p>Naquela madrugada, a Rua Bernardo Vieira de Melo acordou tumultuada. A casa do menino n\u00e3o foi a \u00fanica. Outras paredes cederam, outros telhados n\u00e3o aguentaram. O barulho era ensurdecedor, o estrondo das estruturas caindo, a chuva que n\u00e3o parava, e as vozes, muitas vozes de vizinhos que sa\u00edam para ver, para ajudar, para lamentar. E junto com o lamento subia uma raiva antiga. Porque aquelas casas n\u00e3o ca\u00edram s\u00f3 pela chuva. Ca\u00edram tamb\u00e9m pelo abandono. Pelas promessas n\u00e3o cumpridas, pelos bueiros sem vaz\u00e3o, pelas ruas sem drenagem, pelas obras que apareciam s\u00f3 em \u00e9poca de elei\u00e7\u00e3o. Os moradores falavam dos vereadores. Falavam do prefeito. E a palavra que mais se ouvia, dita com amargura, com cansa\u00e7o, com uma raiva de muitos anos, era indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>O prefeito anunciou pela r\u00e1dio local que o governador havia ligado e prometido ajuda. Que secret\u00e1rios viriam \u00e0 cidade ver de perto a dor de cada fam\u00edlia. Mas o prefeito, eleito para estar presente, para governar, para resolver, havia deixado a prefeitura nas m\u00e3os de funcion\u00e1rios. E falava em solidariedade de longe. Solidariedade n\u00e3o \u00e9 o secret\u00e1rio que vem ver de perto. Solidariedade seria o prefeito que, nos dias comuns, nos meses de planejamento, nos or\u00e7amentos, tivesse cuidado da cidade antes que a cidade precisasse de socorro. O menino n\u00e3o entendia de pol\u00edtica. Mas cresceu ouvindo. E foi aprendendo, com a carne, que certas fal\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o da natureza. S\u00e3o de quem governa.<\/p>\n<p>Fifi viveu mais anos. Mancou, mas viveu. Continuou dormindo no p\u00e9 da cama no frio, continuou esticado no ch\u00e3o no calor. A pata que n\u00e3o dobrava mais era uma marca, como s\u00e3o as marcas que a vida d\u00e1 sem pedir licen\u00e7a. O menino cresceu. A vida seguiu com sua crueldade e sua beleza embaralhadas. E um dia Fifi simplesmente n\u00e3o acordou mais. Estava quieto, com a leveza de quem apenas foi dormir, e com a paz de quem cumpriu o que veio fazer.<\/p>\n<p>O menino, j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o menino, cavou um buraco no fundo do quintal. Um buraco pequeno, com o tamanho exato de uma aus\u00eancia. E colocou Fifi l\u00e1, com o cuidado de quem enterra algu\u00e9m que amou de verdade. Aquela cena doeu. Foi triste do jeito que s\u00f3 a despedida real consegue ser triste. E ficou. Ficou gravada naquele lugar onde ficam as coisas que nos formam, n\u00e3o na mem\u00f3ria, mas no corpo, no jeito de ser, na forma como aquela crian\u00e7a, que cresceu, ainda sente um aperto quando v\u00ea uma crian\u00e7a chorando por um bicho.<\/p>\n<p>A chuva caiu sobre Recife. Caiu pesada, grossa, a mesma chuva que cai toda vez que a cidade n\u00e3o foi preparada para receb\u00ea-la. As ruas viraram rios. As casas simples, sempre as casas simples, nunca os condom\u00ednios fechados, abriram fendas, perderam paredes, perderam tetos. E junto com as paredes, ca\u00edram os Fifis. Quantos gatos, quantos cachorros, quantos animais que eram o \u00fanico calor de crian\u00e7as que j\u00e1 tinham pouco calor no mundo. Quantas crian\u00e7as ficaram no ch\u00e3o ao lado do bicho ferido, chorando aquele choro sem consolo.<\/p>\n<p>As propagandas diziam que os bueiros estavam limpos. Que as canaletas tinham sido ampliadas. Que a cidade estava preparada. A cidade n\u00e3o estava. A cidade nunca estava. Porque preparar a cidade de verdade n\u00e3o d\u00e1 voto, n\u00e3o aparece no jornal, n\u00e3o gera foto para a rede social do vereador. O que aparece \u00e9 o secret\u00e1rio visitando os desabrigados. O que aparece \u00e9 a promessa do governador. O que aparece \u00e9 a palavra solidariedade, usada como anestesia para adormecer a raiva de quem perdeu tudo.<\/p>\n<p>As feridas das crian\u00e7as que perdem seus animais nessas calamidades n\u00e3o aparecem nas estat\u00edsticas dos desastres. N\u00e3o t\u00eam coluna no relat\u00f3rio da Defesa Civil. Mas est\u00e3o l\u00e1, silenciosas, profundas, formadoras. S\u00e3o as crian\u00e7as que crescer\u00e3o desconfiando das promessas. Que aprender\u00e3o cedo que quem governa nem sempre est\u00e1 do seu lado. E talvez isso seja o mais cruel: n\u00e3o a pata que manca, n\u00e3o a parede que caiu, n\u00e3o mesmo a despedida no fundo do quintal, mas a descoberta precoce de que existem pessoas eleitas para cuidar que preferiram, sempre, a fotografia ao cuidado.<\/p>\n<p>Aquela crian\u00e7a de Can\u00e1polis cresceu. Mora talvez em Recife, talvez em outro lugar. Mas ainda carrega o buraco no fundo do quintal. Ainda sente o pelo de Fifi nas m\u00e3os quando v\u00ea uma crian\u00e7a em meio \u00e0s enchentes, segurando um bicho molhado, com aquela cara de quem entende que o mundo \u00e9 injusto antes de ter idade para saber o que \u00e9 injusti\u00e7a.<\/p>\n<div class=\"citacao\">Quantos Fifis se feriram hoje? Quantas crian\u00e7as crescer\u00e3o com essa dor guardada no corpo,sem sequer ter tido uma palavra de quem deveria ter impedido que a parede ca\u00edsse?<\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"fecho\">*Para Fifi, que mancou mas ficou.<br \/>\nPara todas as crian\u00e7as que a chuva de hoje est\u00e1 formando, com dor, para sempre.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma hist\u00f3ria de Can\u00e1polis, de Recife, e de todas as crian\u00e7as que o poder p\u00fablico esqueceu Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/Minc\u00a0 \u2013\u00a0 Na Rua Bernardo Vieira de Melo, no bairro do Padroeiro, em Can\u00e1polis, havia uma casa pequena. 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