{"id":2998,"date":"2026-03-13T20:51:19","date_gmt":"2026-03-13T23:51:19","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=2998"},"modified":"2026-03-13T20:51:19","modified_gmt":"2026-03-13T23:51:19","slug":"a-arte-de-mentir-por-jose-paulo-cavalcanti-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=2998","title":{"rendered":"A arte de mentir. Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho \u00a0\u2013 \u00a0Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. \u00c9\u00a0 um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comiss\u00e3o da Verdade\u00a0 \u2013\u00a0 <\/em><\/strong>M\u00e1rio Quintana (<em>Sapato florido<\/em>) dizia que \u201cA mentira \u00e9 uma verdade que se esqueceu de acontecer\u201d. E Camus (<em>O ver\u00e3o<\/em>), po\u00e9tico, \u201ca mentira \u00e9 um belo crep\u00fasculo\u201d. S\u00f3 que nestes casos se tratam de mentiras inocentes, liter\u00e1rias, que n\u00e3o incomodam ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Ocorre que h\u00e1, por dentro dessa, uma outra mais dura, cruel, sem nenhuma poesia. O padre Ant\u00f3nio Vieira, para Fernando Pessoa \u201cImperador da l\u00edngua portuguesa\u201d, no seu\u00a0<em>Serm\u00e3o da Sexag\u00e9sima<\/em>\u00a0at\u00e9 disse que \u201cA mentira hoje, no mundo, \u00e9 mais poderosa que a verdade\u201d. Longe de amadores e c\u00ednica, no Brasil de hoje requer aus\u00eancia dos mais elementares sentimentos morais, um acendrado amor pelo dinheiro e total falta de vergonha na cara.<\/p>\n<p>Fran\u00e7ois de La Rochefoucauld at\u00e9 nos deixou bela frase (<em>Reflex\u00f5es ou senten\u00e7as e m\u00e1ximas morais<\/em>) em que desdenhava do tal cinismo; ao preferir a hipocrisia que para ele, ao menos, \u201c\u00e9 uma homenagem que o v\u00edcio presta \u00e0 virtude\u201d.<\/p>\n<p>O ministro do Supremo Alexandre de Moraes est\u00e1, hoje, no centro desse debate sobre a mentira. Em, ao menos, duas dimens\u00f5es. Uma bem mais \u00f3bvia, que tem por tr\u00e1s grana. Sobretudo grana. Muita grana. At\u00e9 agora, gerado nas sombras, um belo contrato de 129,6 milh\u00f5es, pagos por um bandido hoje na pris\u00e3o, beneficiando mulher e filhos. Trata-se de um\u00a0<em>bonus pater fam\u00edlias<\/em>, assim diriam os romanos. Sem que se saiba direito se contratados s\u00e3o eles ou o pr\u00f3prio ministro. Como esse tema est\u00e1 em todos os jornais, o deixemos por hora de lado.<\/p>\n<p>Aqui, pretendo falar do ato de mentir propriamente dito. A partir de uma dimens\u00e3o \u00e9tica. E j\u00e1 come\u00e7o lembrando que caso mais not\u00f3rio de implica\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, sobre essa mentira, se deu nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em 1972, o presidente da Rep\u00fablica Richard Nixon foi candidato, \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o, contra o democrata George MacGovern. Venceu, esmagadoramente, em 49 dos 51 estados americanos, perdendo apenas em Massachusetts (Nova Inglaterra) e no Distrito de Columbia \u2013 onde, ali\u00e1s, fica a Casa Branca.<\/p>\n<p>Ocorre que, durante essa campanha, houve fato com grande repercuss\u00e3o na m\u00eddia; que foi espionagem, por homens ligados \u00e0 campanha de Nixon, no complexo dos edif\u00edcios de Watergate \u2013 Virginia Avenue 2.600, bairro de Foggy Bottom, em Washigton D.C. Sendo cinco pessoas presas ao tentar instalar gravadores no local e fotografar os participantes de reuni\u00e3o que ali se realizava.<\/p>\n<p>O caso, que passou a ser conhecido como<em>\u00a0Watergate,<\/em>\u00a0ganhou destaque a partir de reportagens de Bob Woodward e Carl Bernstein para o jornal The Washington Post. A partir de informa\u00e7\u00f5es repassadas por um misterioso\u00a0<em>Deep Throat<\/em>\u00a0(Garganta profunda); que, depois se soube, era Mark Felt, um agente do FBI, mas essa \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nixon negou, sempre, que soubesse do que se passou por ali. Nem que tenha autorizado qualquer a\u00e7\u00e3o. E, de alguma forma, essa fiscaliza\u00e7\u00e3o acabava sendo natural. Pois Watergate n\u00e3o era sede oficial do Partido Democrata. E o governo poderia ter legitimamente interesse em comprovar o que ali faziam aqueles homens, t\u00e3o tarde da noite, em salas comerciais alugadas por pessoas comuns.<\/p>\n<p>Ocorre que depois se soube de algumas fitas, gravadas pelo governo, supostamente com envolvimento do presidente. Nixon se recusou a exibi-las. At\u00e9 que, em 24\/06\/1974, a Suprema Corte o obrigou a tornar p\u00fablicas tais grava\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A Suprema Corte dos Estados Unidos \u00e9 bem diferente do nosso Supremo. At\u00e9 por n\u00e3o haver, nem l\u00e1 e nem em nenhum outro tribunal do planeta, decis\u00f5es monocr\u00e1ticas. Elas s\u00e3o tomadas pelo pr\u00f3prio tribunal. Como um conjunto. Como um tribunal. Tamb\u00e9m por sua independ\u00eancia, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s elites pol\u00edticas do pa\u00eds. E, no caso, votaram contra o presidente da Rep\u00fablica todos os ministros (<em>Justices<\/em>, assim se chamam, para diferenciar dos\u00a0<em>Judges<\/em>, que seriam os demais magistrados do pa\u00eds), inclusive os indicados pelo Partido Republicano. Unanimidade.<\/p>\n<p>Nenhum deles se sentiu constrangido para dar apoio ao presidente da Rep\u00fablica do partido que os indicou. Outra diferen\u00e7a, e grande, na compara\u00e7\u00e3o com o Supremo daqui.<\/p>\n<p>O caso, afinal, chegou \u00e0\u00a0<em>House of Representatives<\/em>\u00a0(a C\u00e2mara dos Deputados de l\u00e1). E o\u00a0<em>House Judiciary Committee<\/em>\u00a0(equivalente a nossa Comiss\u00e3o de Legisla\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a) aprovou tr\u00eas recomenda\u00e7\u00f5es que poderiam levar ao impeachment de Nixon, a saber: Obstru\u00e7\u00e3o de Justi\u00e7a, Abuso de Poder e\u00a0<em>Contempt of Congress<\/em>\u00a0(algo como Desrespeito ao Congresso).<\/p>\n<p>Principal acusa\u00e7\u00e3o era de que o presidente mentiu, ao dizer que de nada sabia. Mentira que restou provada pelas fitas. Seus advogados argumentaram que\u00a0<em>mentir n\u00e3o \u00e9 crime.<\/em>\u00a0Nem no\u00a0<em>t\u00edtulo 18 do C\u00f3digo dos Estados Unidos<\/em>, conhecido como\u00a0<em>18 U.S.C.<\/em>, que seria o C\u00f3digo Penal Federal do pa\u00eds; nem nos 51 C\u00f3digos Penais Estaduais. Ele n\u00e3o teria cometido crime, ao mentir.<\/p>\n<p>Problema, para Nixon, \u00e9 que o impeachment n\u00e3o \u00e9 tratado por l\u00e1 em uma lei espec\u00edfica (como o do Brasil, Lei 1.079\/1950), mas na pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o, j\u00e1 no artigo primeiro. E ocorre em tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es:\u00a0<em>Treason<\/em>\u00a0(trai\u00e7\u00e3o),\u00a0<em>Bribery<\/em>\u00a0(suborno) e, no caso interessava especialmente,\u00a0<em>High Crimes and Misdemeanours<\/em>\u00a0\u2013 que poderia ser traduzido por um comportamento incompat\u00edvel com a dignidade do cargo. O que, para todos os americanos, teria ocorrido.<\/p>\n<p>N\u00e3o cometeu crime, em resumo, disserem seus advogados. Mas corresponde \u00e0 dignidade do cargo mentir? Foi quando teve, Nixon, a convic\u00e7\u00e3o de que o impeachment seria aprovado, em sequ\u00eancia, pelo Senado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o pesaram, para ele, as regras determinadas pelo\u00a0<em>Former Presidents Act \u2013 FPA,<\/em>\u00a0de 1958, que garantem benef\u00edcios para ex-presidentes como: pens\u00e3o vital\u00edcia; seguran\u00e7a, pelo Servi\u00e7o Secreto, para mulher e filhos (at\u00e9 16 anos); escrit\u00f3rio mobiliado e equipe de apoio; viagens; tratamento m\u00e9dico, biblioteca presidenci\u00e1vel, funerais de estado com honras militares. N\u00e3o quis correr o risco de perder tudo isso. E preferiu renunciar, em 09\/08\/1974. A mentira lhe custou caro, afinal. V\u00e3o-se os an\u00e9is\u2026<\/p>\n<p>Isso nos Estados Unidos, claro, em que s\u00f3 o ato de mentir torna indigno aquele que mente. E o desqualifica, moralmente, para exercer qualquer cargo p\u00fablico. Faltando agora s\u00f3 conferir se essa mentira, no Brasil, tem significa\u00e7\u00e3o equivalente. Ou se seria algo at\u00e9 rent\u00e1vel, para os que mentem. Economicamente compensador. Pelo menos em rela\u00e7\u00e3o a ministros do Supremo, que se apegam fervorosamente a seus cargos. Equivalendo, ao mentir, o calar. O n\u00e3o explicitar situa\u00e7\u00f5es que deixem mal os ministros. Ou, quando for poss\u00edvel, impor sigilo nos seus processos.<\/p>\n<p>Protegidos esses ministros por um corporativismo indecente que macula as tradi\u00e7\u00f5es do Supremo, em que todos se consideram semi-deuses castos e puros, elegantes e benditos, desprovidos de pecados ou culpas. Ser\u00e3o mesmo?, eis a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Para encerrar, imagino que ao olhar no espelho, todas as manh\u00e3s, o tal ministro se veja como um ser superior. Acima das conting\u00eancias terrenas. Do errado e do certo. Do bem e do mal. Da lei e dos pobres mortais que somos todos n\u00f3s. E talvez at\u00e9 pronuncie alguma frase, pensando na hist\u00f3ria, para expressar avalia\u00e7\u00e3o t\u00e3o positiva.<\/p>\n<p>O que lembra passagem com outro membro da fam\u00edlia, este aqui de Pernambuco, n\u00e3o sei se seu parente, o amigo Pessoa de Moraes. Soci\u00f3logo importante, encerrou programa que tinha na TV Universit\u00e1ria do Recife (<em>Supremum Organorum<\/em>) olhando para as c\u00e2meras e dizendo algo que nosso ministro brasiliense (trocando o pre-nome) creio tamb\u00e9m diria,<\/p>\n<p><em>\u2013 O Brasil precisa de Pessoa de Moraes.<\/em><\/p>\n<p>Dia seguinte, mandei bilhete para ele<\/p>\n<p><em>\u2013 Desculpe, mestre, mas discordo. O que o Brasil precisa, mesmo, \u00e9 de pessoas de moral.<\/em><\/p>\n<p>Nas ruas, nas escolas, em todas as casas, em todos os lugares. No Brasil popular e profundo de nossos interiores ou da periferia do pa\u00eds. E sobretudo em Bras\u00edlia, onde est\u00e1 o poder real. Por sua dimens\u00e3o institucional, num momento relevant\u00edssimo para todos e cada um, especialmente para o Supremo. Isso o que desejamos, com o cora\u00e7\u00e3o. Em vez de gatunos, gente de bem. Em vez pompa e garbo, mulheres e homens decentes. Em vez de milion\u00e1rios empoderados e presun\u00e7osos, pessoas de moral. S\u00f3 isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho \u00a0\u2013 \u00a0Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. \u00c9\u00a0 um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comiss\u00e3o da Verdade\u00a0 \u2013\u00a0 M\u00e1rio Quintana (Sapato florido) dizia que \u201cA mentira \u00e9 uma verdade que se esqueceu de acontecer\u201d. 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