{"id":2224,"date":"2025-11-15T23:49:52","date_gmt":"2025-11-16T02:49:52","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=2224"},"modified":"2025-11-15T23:49:52","modified_gmt":"2025-11-16T02:49:52","slug":"camoes-e-os-lusiadas-por-jose-paulo-cavalcanti-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=2224","title":{"rendered":"Cam\u00f5es e Os Lus\u00edadas. Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho \u00a0\u2013 \u00a0Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. \u00c9\u00a0 um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comiss\u00e3o da Verdade\u00a0 \u2013 <\/em><\/strong>Lu\u00eds Vaz de Cam\u00f5es veio da\u00a0<em>pequena nobreza \u2013\u00a0<\/em>assim se dizia, na \u00e9poca, dos nobres sem casas nem t\u00edtulos em Portugal. Desde jovem, passava dias e noites pelas ruas entre pedintes, arruaceiros, prostitutas, desvalidos. Ou nas tabernas. E escrevendo versos por puro prazer, quando poss\u00edvel e, \u00e0s vezes, em troca de gorjeta. Ou comida.<\/p>\n<p>Era conhecido, pelas incont\u00e1veis rixas em que se metia, como\u00a0<em>Trinca-Fortes<\/em>. Em uma delas, na noite da prociss\u00e3o de\u00a0<em>Corpus-Christi,\u00a0<\/em>golpeou com espada o pesco\u00e7o de Gon\u00e7alo Borges,\u00a0<em>c\u00e1rrego<\/em>\u00a0(respons\u00e1vel)\u00a0<em>dos arreios do rei<\/em>. Acabou\u00a0<em>preso no tronco.\u00a0<\/em>Libertado por\u00a0<em>Carta R\u00e9gia de Perd\u00e3o,\u00a0<\/em>em 7 de mar\u00e7o de 1553, teve que pagar quatro mil r\u00e9is\u00a0<em>para caridade<\/em>\u00a0e foi obrigado a ir servir na \u00cdndia. Seria mudan\u00e7a definitiva, em sua vida. Um destino jamais sonhado por seus pais \u2013 Sim\u00e3o Vaz de Cam\u00f5es, capit\u00e3o de nau; e Ana de S\u00e1, dos Macedo de Santar\u00e9m, dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Em torno dele, quase tudo \u00e9 incerto. Sabe-se, dos servi\u00e7os que prestou na armada portuguesa, que nasceu em Lisboa \u2013 ou Coimbra, ou Santar\u00e9m, ou Alenquer. Talvez em 1523 ou, mais provavelmente, em 1524 (havendo ainda quem sugira come\u00e7os de 1525). Tendo a lei portuguesa 1540, de 02\/02\/1924, definido que teria sido em 05.02.1524. Estudou em Coimbra, entre 1542 e 1545, com o tio dom Bento de Cam\u00f5es, prior do Convento de Santa Cruz. At\u00e9 que voltou para Lisboa. Mas a carreira das armas, logo percebeu, era mesmo das poucas op\u00e7\u00f5es que lhe restavam.<\/p>\n<p>Para cumprir aquela senten\u00e7a\u00a0<em>de perd\u00e3o\u00a0<\/em>embarcou pouco dias depois, em 24 de mar\u00e7o, na poderosa armada do capit\u00e3o-mor Fern\u00e3o \u00c1lvares Cabral, filho de um Pedro que conhecemos bem. Para Goa (\u00cdndia). Ali, naquele mundo para ele novo, sofreu todas as agruras. Numa expedi\u00e7\u00e3o a Ceuta, perdeu o olho direito em batalha. Mais tarde, em 1558, naufragou na foz do rio Mekong \u2013 costa do Si\u00e3o (hoje, Tail\u00e2ndia). Salvou-se despido, como todos os demais sobreviventes, tendo em uma das m\u00e3os os primeiros versos de seu\u00a0<em>Os Lus\u00edadas<\/em>.<\/p>\n<p>Nesse epis\u00f3dio teria morrido uma chinesa, a quem Cam\u00f5es deu o nome po\u00e9tico de\u00a0<em>Dinamene<\/em>, para quem depois escreveria uma s\u00e9rie de poemas. Entre eles o famoso\u00a0<em>Soneto 48<\/em>, que todos conhecem, come\u00e7ando assim:<\/p>\n<p><em>\u201cAlma minha gentil, que te partiste<\/em><\/p>\n<p><em>T\u00e3o cedo desta vida, descontente,<\/em><\/p>\n<p><em>Repousa l\u00e1 no C\u00e9u eternamente<\/em><\/p>\n<p><em>E viva eu c\u00e1 na terra sempre triste\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Foi\u00a0<em>Provedor dos defuntos nas partes da China<\/em>. Desempenhando suas fun\u00e7\u00f5es com n\u00e3o muita lisura, \u00e9 de justi\u00e7a reconhecer. E, vez por outra, frequentaria pris\u00f5es. Por d\u00edvidas. Ou rixas.\u00a0 Como dizia o pr\u00f3prio Cam\u00f5es, \u201cErros meus, m\u00e1 fortuna, amor ardente\/ Em minha perdi\u00e7\u00e3o se conjuraram\u201d. Mas, sobretudo, nunca parou de escrever.<\/p>\n<p>Em 1570, afinal, estava novamente de volta a Lisboa. Com as car\u00eancias financeiras de sempre. Segundo se conta, sobreviveu durante algum tempo gra\u00e7as ao fiel Jau, trazido das Molucas. Esse escravo esmolava, de noite, pedindo p\u00e3o para seu mestre. Importante \u00e9 que <em>Os Lus\u00edadas\u00a0<\/em>avan\u00e7ava. Sob o patroc\u00ednio de dom Manuel de Portugal, devotou-se ent\u00e3o \u00e0 sagra\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds \u2013 naquela que \u00e9 considerada, consensualmente, a mais bela epop\u00e9ia do s\u00e9culo XVI.<\/p>\n<p>A\u00a0<em>edi\u00e7\u00e3o princeps\u00a0<\/em>\u2013 assim se diz das primeiras edi\u00e7\u00f5es de um livro \u2013 foi impressa na tipografia de Ant\u00f3nio Gon\u00e7alves, em Lisboa, no ano de 1572. Com privil\u00e9gio real de impress\u00e3o por 10 anos e publicada com um ben\u00e9volo (e corajoso) parecer cens\u00f3rio de frei Bartolomeu Ferreira, sem data. Ter\u00e1 tido tamb\u00e9m licen\u00e7a da Mesa Inquisitorial \u2013 que, todavia, n\u00e3o consta da impress\u00e3o.<\/p>\n<p>Tem aparato paratextual simples, 8.816 versos e 1.102 estrofes divididas em 10 cantos. Utilizando a divis\u00e3o da divina\u00a0<em>Com\u00e9dia<\/em>, de Dante \u2013 que assim tem, como cantos, seus 100 livros. H\u00e1, hoje, cerca de 25 exemplares ainda existentes, em bibliotecas ou nas m\u00e3os de colecionadores, talvez menos que 10 completos.<\/p>\n<p>At\u00e9 fins do s\u00e9culo XIX, se acreditava ter havido duas\u00a0<em>edi\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0<em>princeps<\/em>, um mito devido a Manuel Faria e Souza \u2013 que (em 1639), ao comentar\u00a0<em>Os Lus\u00edadas<\/em>, confrontou dois volumes daquele mesmo ano em que o livro foi lan\u00e7ado, 1572; e verificou haver, neles, pequenas diferen\u00e7as. Depois se comprovando terem sido bem mais que duas. Restando hoje assente que assim ocorreu pelo desejo de Cam\u00f5es, ou seu editor, em corrigir pequenas incorre\u00e7\u00f5es das impress\u00f5es anteriores.<\/p>\n<p>Dando-se que, em alguns casos, foram sendo aproveitados conjuntos de p\u00e1ginas j\u00e1 impressas, antes, e n\u00e3o utilizadas. Fazendo-se, as corre\u00e7\u00f5es, nas novas p\u00e1ginas impressas. Uma explica\u00e7\u00e3o que s\u00f3 se pode compreender pelos rudimentares sistemas de impress\u00e3o daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Apesar de numerosos indicativos dessa\u00a0<em>edi\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0<em>princeps<\/em>\u00a0na compara\u00e7\u00e3o com as demais, e curiosamente, o que a identifica \u00e9 um pelicano, \u00e0 primeira p\u00e1gina, com o bico virado para a esquerda do leitor. Al\u00e9m do pelicano, tamb\u00e9m um detalhe no terceiro verso da primeira estrofe, que come\u00e7a por \u201cE entre\u201d; enquanto nas vers\u00f5es posteriores, j\u00e1 corrigidas, come\u00e7a por \u201cEntre\u201d apenas. Essas edi\u00e7\u00f5es de 1572 tornaram-se conhecidas, por isso, como \u201cEe\u201d e \u201cE\u201d.<\/p>\n<p>Cam\u00f5es tinha com ele, ao morrer, aquela que acabou tida como a primeira edi\u00e7\u00e3o aut\u00eantica, deixada ao frei Joseph \u00cdndio, que o acompanhou num hospital de Lisboa. Esse volume \u00e9 conhecido como\u00a0<em>Holland House\u00a0<\/em>\u2013 por ter estado em casa do general Lord Holland, em Londres, a partir de 1812 e por mais de cem anos.<\/p>\n<p>Outra edi\u00e7\u00e3o famosa, em Portugal, \u00e9 a segunda \u2012 conhecida como\u00a0<em>dos piscos<\/em>. Surgida, em 1584, dois anos ap\u00f3s o fim do prazo do alvar\u00e1 que protegia a primeira (de 1572). Impressa pela tipografia Manuel de Lira (em Lisboa), e com licen\u00e7a do mesmo frei Bartolomeu Ferreira, respons\u00e1vel pela autoriza\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>edi\u00e7\u00e3o princeps.\u00a0<\/em>O nome jocoso dado \u00e0 edi\u00e7\u00e3o vem de uma cita\u00e7\u00e3o, nos Lus\u00edadas (Canto III, 65), sobre a \u201cpiscosa Cizimbra\u201d.<\/p>\n<p>Sezimbra \u00e9 uma vila portuguesa no distrito de Set\u00fabal. Abundante em peixes, bom lembrar. Trata-se da primeira edi\u00e7\u00e3o comentada de\u00a0<em>Os Lus\u00edadas.\u00a0<\/em>Explicando a cita\u00e7\u00e3o, o comentador, como refer\u00eancia aos p\u00e1ssaros que\u00a0<em>ali se juntam\u00a0<\/em>em passagem para a \u00c1frica, provavelmente se referindo ao Pisco-de-peito-ruivo (<em>Erithacus Rubecula<\/em>).<\/p>\n<p>Cam\u00f5es segue a trilha de outras epop\u00e9ias do passado.\u00a0 Sobretudo a\u00a0<em>Eneida<\/em>, de Virg\u00edlio; o que se v\u00ea at\u00e9 na compara\u00e7\u00e3o dos versos iniciais dos poemas:\u00a0<em>Canto as armas e o var\u00e3o,\u00a0<\/em>Virg\u00edlio; e\u00a0<em>As armas e os Bar\u00f5es assinalados,\u00a0<\/em>Cam\u00f5es. Tamb\u00e9m a\u00a0<em>Il\u00edada<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>Odisseia<\/em>, de Homero. Bem como a divina<em>\u00a0Com\u00e9dia<\/em>, de Dante.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de numerosas epop\u00e9ias surgidas em Portugal, no mesmo s\u00e9culo XVI de\u00a0<em>Os Lus\u00edadas<\/em>, mas antes dele \u2013 como as de Andr\u00e9 de Resende, Manuel da Costa ou Jos\u00e9 de Anchieta; e manuscritos que circularam, tamb\u00e9m antes de 1572, como os de Ant\u00f3nio Ferreira e Jer\u00f3nimo Corte-Real.<\/p>\n<p>Nele temos o passado, com a exalta\u00e7\u00e3o das conquistas em que o povo portugu\u00eas foi muito al\u00e9m do\u00a0<em>Mar Tenebroso.\u00a0<\/em>O presente, com o lamento pelo abandono das terras africanas por Portugal \u2013 de Safim a Azanos, de Azila a Alc\u00e1cer Cequer. Sem contar a amea\u00e7a turca, conjurada s\u00f3 na batalha naval de Lepanto, em 7 de outubro de 1571.<\/p>\n<p>Mas \u00e9, sobretudo, a antevis\u00e3o de um futuro grandioso, na linha da\u00a0<em>Utopia do Quinto Imp\u00e9rio.\u00a0<\/em>E ningu\u00e9m cantou Portugal como Cam\u00f5es. Ver \u00a0<em>Canto X, 155<\/em>,<\/p>\n<p><em>\u201cPera servir-vos, bra\u00e7o \u00e0s armas feito,<\/em><\/p>\n<p><em>Pera cantar-vos, mente \u00e0s Musas dada;<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00f3 me falece ser a v\u00f3s aceito,<\/em><\/p>\n<p><em>De quem virtude deve ser prezada.<\/em><\/p>\n<p><em>Se me insto o C\u00e9u concede, e o vosso peito<\/em><\/p>\n<p><em>Dima empresa tomar de ser cantada,<\/em><\/p>\n<p><em>Como a pressaga mente vaticina<\/em><\/p>\n<p><em>Olhando a vossa inclina\u00e7\u00e3o divina\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Pouco antes, em\u00a0<em>Desenganos,<\/em>\u00a0escreveu \u201cNascemos para morrer\/ Morremos para ter vida\/ Em ti morrendo\u201d. Assim foi. Lu\u00eds Vaz de Cam\u00f5es morreria s\u00f3 em 10 de junho de 1580, pouco depois do desastre de Alc\u00e1cer Quibir \u2013 em que desapareceu dom Sebasti\u00e3o, o\u00a0<em>Desejado,\u00a0<\/em>e Portugal passou a ter um rei espanhol.<\/p>\n<p>Foi enterrado na igreja de Santa Ana e seus restos acabaram transferidos, em 1894, ao mosteiro dos Jer\u00f4nimos, onde repousam num t\u00famulo esculpido em m\u00e1rmore bem na entrada. Consta que disse, ao morrer, \u201cAo menos morro com a p\u00e1tria\u201d.<\/p>\n<p>***********<\/p>\n<blockquote>\n<h5>H\u00e1 uma raz\u00e3o para falar em Cam\u00f5es agora, amigo leitor, \u00c9 que, nesta quarta, o Gabinete Portugu\u00eas de Literatura me distinguiu com o \u201cColar do M\u00e9rito Luiz Vaz de Cam\u00f5es\u201d. Como complemento, \u201c<em>Em reconhecimento \u00e0 sua destacada contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura e \u00e0 l\u00edngua portuguesa<\/em>\u201d. Homenagem enorme, da qual nem me sinto merecedor. Deve ser por conta da idade\u2026<\/h5>\n<h5>O Gabinete (com 80 mil livros) est\u00e1 celebrando, agora, seus 175 anos. Um marco importante na hist\u00f3ria liter\u00e1ria e intelectual de nosso estado. Por tudo, pois, grato a seu presidente, o eminente Celso Stamford; e a seu vice-presidente, o caro Alexandre Reis de Melo.<\/h5>\n<h5>Agrade\u00e7o, tamb\u00e9m, ao conselheiro da Embaixada de Portugal no Brasil, o Excelent\u00edssimo senhor doutor Francisco Duarte de Azevedo. E logo encare\u00e7o permitam uma observa\u00e7\u00e3o pessoal. Para dizer que se trata de algu\u00e9m que cultua a exatid\u00e3o. Por exemplo lembro que foi ao Shopping Center Recife para comprar meias. A balconista desejou ter informa\u00e7\u00f5es complementares, para melhor atender seu pedido. Reconhecendo aquele cliente como portugu\u00eas, e for\u00e7ando um sotaque lusitano,<\/h5>\n<h5><em>\u2012 Diga mais.<\/em><\/h5>\n<h5><em>E ele, preciso em tudo,<\/em><\/h5>\n<h5><em>\u2012 Mais.<\/em><\/h5>\n<h5><em>Muito grato a todos. E viva pelos seus m\u00e9ritos, por todos reconhecidos, o Gabinete Portugu\u00eas de Leitura.<\/em><\/h5>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho \u00a0\u2013 \u00a0Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. \u00c9\u00a0 um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. 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