{"id":2149,"date":"2025-11-01T17:09:11","date_gmt":"2025-11-01T20:09:11","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=2149"},"modified":"2025-11-01T17:09:11","modified_gmt":"2025-11-01T20:09:11","slug":"campos-de-concentracao-no-brasil-por-jose-paulo-cavalcanti-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=2149","title":{"rendered":"Campos de concentra\u00e7\u00e3o no Brasil. Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho \u00a0\u2013 \u00a0Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. \u00c9\u00a0 um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comiss\u00e3o da Verdade\u00a0 &#8211;\u00a0 <\/em><\/strong>Ao ver milhares de brasileiros na Esplanada dos Minist\u00e9rios, tangidos como bois para as pris\u00f5es, velhos e mulheres entre eles, como se fossem um rebanho, a imagem lembra dos campos de concentra\u00e7\u00e3o. Que assim eram recolhidos, naqueles tempos, opositores do governo. Depois o Supremo ainda os distinguiria com penas superiores a 17 anos, num julgamento sem paralelo no Brasil, um horror, mas essa \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Assim, meio sem sentir, me vejo de volta aos tempos de Segunda Guerra. Aproveito e conto essa hist\u00f3ria a partir de um amigo querido, que de alguma forma fez parte dela, Mickel Sava Nicoloff. Em\u00a0<em>O Recife e a II Guerra Mundial<\/em>, Rostand Paraiso diz \u201cgrupo de tripulantes de um cors\u00e1rio alem\u00e3o, afundado em nossas costas\u2026 seria enviado para um campo de concentra\u00e7\u00e3o existente, ningu\u00e9m sabia onde, no Nordeste\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/lojasebocultural.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/cc3846e7-b1dc-44b3-9d42-c6f7d055640f.jpg\" alt=\"O Recife E A Ii Guerra Mundial \u2013 \" width=\"185\" height=\"269\" \/>Rostand teve, mais tarde, \u201ca confirma\u00e7\u00e3o de que aquele campo havia, realmente, existido; funcionando, de novembro de 1942 a maio de 1945, em terras da F\u00e1brica de Tecidos Paulista, de propriedade dos Lundgren\u201d. Mas o que liga Mickel a esse campo de concentra\u00e7\u00e3o?, eis a quest\u00e3o. Para responder, \u00e9 preciso voltar no tempo.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria do eminente advogado Mickel Sava Nicoloff resulta (quase) inacredit\u00e1vel. Seu av\u00f4 por exemplo, general Sava von Nicoloff, era ajudante de ordens do marechal Hindenburg na Primeira Guerra.<\/p>\n<p>Depois, Hindenburg foi Presidente da Alemanha (Hitler era s\u00f3 primeiro-ministro). Sendo hoje mais conhecido, assim quis o destino, como nome de um Zeppelin movido a hidrog\u00eanio (um g\u00e1s altamente inflam\u00e1vel) que, em 6\/5\/1937, pegou fogo e matou 35 pessoas na base naval de Lakehurst \u2013 em New Jersey (Estados Unidos).<\/p>\n<p>Finda essa guerra, o filho do tal general Sava von Nicoloff, batizado Mickel (mais tarde pai do amigo Mickel, que me contou essa passagem de sua vida), decidiu viajar, por quase dois anos, pelo mundo inteiro. Dando-se que, nessas andan\u00e7as, acabou se apaixonando por morena de Caruaru, Maria das Gra\u00e7as. O cora\u00e7\u00e3o tem raz\u00f5es<em>\u2026<\/em><\/p>\n<p>Depois, casados, voltaram a Berlim. O pai do nosso Mickel ligou para sua m\u00e3e, Sicha. E ela, em vez de abra\u00e7\u00e1-lo correndo ap\u00f3s aus\u00eancia t\u00e3o longa, acertou encontro entre eles com data e hora marcadas \u2013 para dois dias depois, na sua casa, \u00e0s 16 hs. As culturas s\u00e3o mesmo diferentes. Aqui, qualquer filho iria direto ver a m\u00e3e, sem nem avisar, e ela o receberia rindo e feliz. Paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Chegaram. L\u00e1 estavam m\u00e3e, tios, primos, todos perfilados \u00e0 sua espera. Como se fosse uma Corte Marcial. Ou um pelot\u00e3o de fuzilamento. O pai de Mickel entrou na sala com um cigarro aceso, entre os dedos. A m\u00e3e lhe disse, contrariada, \u201cParece claro que voc\u00ea nasceu para se juntar com uma \u00edndia\u201d (assim qualificou a mulher que o pai de Mickel tinha do lado). \u201cMas, em casa de pessoas de bem, ningu\u00e9m entra fumando. Saia, jogue o cigarro fora e venha me dar um beijo\u201d.<\/p>\n<p>Sa\u00edram. J\u00e1 na cal\u00e7ada, o futuro pai de Mickel jogou na rua o\u00a0<em>guimba.<\/em>\u00a0Foi quando sua futura m\u00e3e disse ao marido \u201cSe voc\u00ea entrar nessa casa, de novo, nunca mais vai me ver\u201d. O pai respondeu que n\u00e3o fazia mesmo quest\u00e3o. Pegou no ch\u00e3o a ponta do cigarro ainda aceso, deu uma tragada e foram embora. Aquele beijo n\u00e3o seria dado.<\/p>\n<p>Depois a m\u00e3e Sicha foi morar na Bulg\u00e1ria e nunca mais se viram. \u201cAcima dos Deuses o Destino \u00e9 calmo e inexor\u00e1vel\u201d<em>\u00a0\u2013\u00a0<\/em>escreveu, em uma\u00a0<em>Ode (sem t\u00edtulo, sem data)<\/em>, Ricardo Reis (Fernando Pessoa).<\/p>\n<p>O amigo Mickel nasceu em Berlim, numa Alemanha que j\u00e1 se preparava para a (Segunda) Guerra. O pai ganhava o p\u00e3o de cada dia se exibindo, nos circos, em espet\u00e1culos de luta grego-romana; tendo, como parceiro, um dos 7 (ou 8) filhos, Mickel n\u00e3o me disse qual era, de Floriano Peixoto \u2013 segundo presidente do Brasil (1891-1894), morto em 1895. Mas sabemos, pela internet, que era Jos\u00e9 Floriano Peixoto, conhecido como\u00a0<em>Zeca Floriano<\/em>.<\/p>\n<p>Assim se deu at\u00e9 quando, ante a proximidade da guerra e com uma crian\u00e7a para criar, decidiram seus pais que melhor seria voltar ao Brasil.<\/p>\n<p>Aqui, viveram bom tempo sem problemas. At\u00e9 o dia em que policiais bateram na porta da casa em que moravam; e pediram que o pai de Mickel, alem\u00e3o de nascimento s\u00f3 para lembrar, os acompanhasse. A m\u00e3e levou o marido at\u00e9 a porta e lhe deu um derradeiro beijo. Seria o \u00faltimo nas suas vidas.<\/p>\n<p>Em seguida voltou, entrou no quarto, e saiu vestida de preto. Preto de luto. Nunca mais ningu\u00e9m a viu com outras roupas. Nem outras cores. Usou preto, sempre, at\u00e9 morrer. E o pai de Mickel nunca mais voltou. Como a pris\u00e3o se deu em Pernambuco deve ter entregue a Deus, sua triste alma, por aqui mesmo.<\/p>\n<p>Depois a madrinha de Mickel, dona Marieta Lyra de Azevedo, oficial do Registro Civil de Caruaru, providenciou uma outra certid\u00e3o de nascimento para ele. Por esses novos pap\u00e9is, Mickel deixou de ser alem\u00e3o e passou a ter nascido em Caruaru. Seus mais de dez nomes familiares, por\u00e9m, foram abandonados. Ficou s\u00f3 Mickel, como o pai; Sava, como o av\u00f4; e Nicoloff, sem o\u00a0<em>von,<\/em>\u00a0como nome de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Voltando ao que interessa, imagina-se que seu pai ter\u00e1 sido encaminhado a algum campo de concentra\u00e7\u00e3o. Nunca se soube exatamente onde ter\u00e1 sido. Nesse ponto, e considerando o sil\u00eancio constrangedor de nossos livros de hist\u00f3ria sobre o tema, o leitor amigo perguntar\u00e1 se ter\u00e1 mesmo havido algo assim, no Brasil.<\/p>\n<p>Abro aqui par\u00eanteses para dizer que se trata de institui\u00e7\u00e3o bem mais comum do que se pensa. A primeira experi\u00eancia em campos de concentra\u00e7\u00e3o ocorreu com a Gr\u00e2-Bretanha, na\u00a0<em>Guerra dos B\u00f4eres<\/em>\u00a0(que findou em 1902), quando os brit\u00e2nicos ainda ocupavam a \u00c1frica do Sul. Depois com alem\u00e3es, numa col\u00f4nia do Sudoeste Africano (atual Nam\u00edbia). O epis\u00f3dio \u00e9 hoje conhecido como\u00a0<em>primeiro genoc\u00eddio do s\u00e9culo XX,<\/em>\u00a0contra rebeldes Herer\u00f3s e Namaquas \u2013 entre 1904 e 1907. E a Fran\u00e7a, em sequ\u00eancia, respondeu por 3,5 milh\u00f5es de mortes em 25 campos africanos pr\u00f3ximos das atuais fronteiras com Iraque, S\u00edria e Turquia.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 l\u00e1. Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (entre 1923 e 1961, sobretudo nos tempos de Stalin), teve seus\u00a0<em>Gulags<\/em>\u00a0(Sib\u00e9ria). China, com\u00a0<em>Laogais,<\/em>\u00a0at\u00e9 1990 (no total, chegou a abrigar 50 milh\u00f5es de chineses). Aqui mais pr\u00f3ximo, na Argentina, durante a ditadura militar (de 1976 a 1983), os Centros Clandestinos de Deten\u00e7\u00e3o (CCD). E no Chile, durante a ditadura de Pinochet, o Estado Nacional e a Villa Grimaldi. Al\u00e9m de muitos outros lugares \u2013 Espanha, Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Jap\u00e3o, Portugal.<\/p>\n<p>Sem esquecer a Alemanha nazista, com os mais famosos deles (Auschwitz-Birkenau, Buchenvald, Treblinka, tantos mais) em que se estima terem sido 8 milh\u00f5es de pessoas encarceradas nesses espa\u00e7os que eram sobretudo de exterm\u00ednio. Nos Estados Unidos, quando estudei l\u00e1 (em Harvard), um professor disse terem sido 17. Entre esses um, no deserto da Calif\u00f3rnia; em que os presos, estimulados a escapar, morriam de sede naquelas areias quentes.<\/p>\n<p>Sem mais dados a informar. Nem comprova\u00e7\u00f5es disso. Faltando lembrar campos ainda hoje existentes: em Guant\u00e2namo (Cuba), sob responsabilidade dos Estados Unidos; e na Coreia do Norte (com mortalidade elevada), de um ditador (Kim Jong-un) do s\u00e9culo XIX em pleno s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Sem contar, nessa rela\u00e7\u00e3o de trag\u00e9dias, o Brasil. Os n\u00fameros oficiais indicam que tivemos, na Segunda Guerra, 12 campos de concentra\u00e7\u00e3o para manter presos cidad\u00e3os nascidos em Alemanha, It\u00e1lia e Jap\u00e3o. Entre eles um famoso, no Pico da Bandeira. Sem outros detalhes. S\u00f3 que, tudo sugere, foram mais.<\/p>\n<p>Segundo registros, o de Pernambuco ficava em local conhecido como Ch\u00e3 de Estevam \u2013 hoje, Ara\u00e7oiaba. Talvez o pai de Mickel tenha ido para l\u00e1. Ou mesmo para o de Paulista, citado por Rostand. Junto da f\u00e1brica de tecidos da fam\u00edlia. Onde ali\u00e1s naquele tempo trabalhou o alem\u00e3o Fritz Theodor Hemprich (tio do amigo Tota Faria), casado com Gracinha, irm\u00e3 do dr. Agadir Faria.<\/p>\n<p>Seja como tenha sido, imagino que o pai de Sava morreu de morte natural; que, segundo o mesmo Rostand, eram \u201ccampos mais de confinamento que de concentra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Saudades de Mickel Sava Nicoloff. Fique em paz, amigo querido. No c\u00e9u, provavelmente. E findo com um lamento pelos que perderam (ou est\u00e3o perdendo) nas pris\u00f5es, confinados como os de Bras\u00edlia, peda\u00e7os inteiros de suas vidas. Deus tenha pena deles todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho \u00a0\u2013 \u00a0Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. \u00c9\u00a0 um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. 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