{"id":1969,"date":"2025-10-12T17:37:15","date_gmt":"2025-10-12T20:37:15","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=1969"},"modified":"2025-10-12T17:38:41","modified_gmt":"2025-10-12T20:38:41","slug":"viuva-de-ricardo-cruz-um-dos-cirurgioes-mais-respeitados-do-pais-vitima-da-covid-19-relata-como-ele-a-ajudou-a-sobreviver-a-uma-tragedia-familiar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=1969","title":{"rendered":"V\u00eddeo: Vi\u00fava de Ricardo Cruz, um dos cirurgi\u00f5es mais respeitados do pa\u00eds, v\u00edtima da Covid-19, relata como ele a ajudou a sobreviver a uma trag\u00e9dia familiar"},"content":{"rendered":"<h3>Denise Loreto da Cruz foi paciente do m\u00e9dico ap\u00f3s sofrer um acidente de carro, em que perdeu o primeiro marido e filhos. Ela agora deseja perpetuar o seu legado humanista<\/h3>\n<p>&#8220;Lembro no que pensei ao ver o Marcelo, meu primeiro marido, pela primeira vez. Falei com os meus bot\u00f5es: \u2018Nossa, que homem lindo\u2019. Nasci no Rio Grande do Sul, mas, nessa \u00e9poca, pelo fato de meu pai ser militar, mor\u00e1vamos em Recife. Sou a ca\u00e7ula de quatro irm\u00e3s. Eu tinha apenas 16 anos e ele, 23, e j\u00e1 era piloto de avi\u00e3o. Dias depois, acabei o convidando para sair, e come\u00e7amos a namorar. Fui me apaixonando aos poucos, principalmente, pelo car\u00e1ter e tamb\u00e9m pela acolhedora fam\u00edlia dele. Nessa \u00e9poca, come\u00e7amos a frequentar a igreja evang\u00e9lica. N\u00e3o demorou para ficarmos noivos e nos casarmos. Eu tinha acabado de completar 18.<\/p>\n<figure class=\"article__picture article__picture--horizontal\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"lazyload article__picture-image image--loaded\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/24844493-6ce-498\/FT1086A\/91114048_EL-Rio-de-Janeiro-RJ-07-01-2021Minha-historia-Entrevista-com-Denise-Loretto-viuva-do-med-1.jpg\" alt=\"Denise Loreto Foto: Leo Martins\/Ag\u00eancia O Globo\" width=\"1086\" height=\"652\" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/24844493-6ce-498\/FT1086A\/91114048_EL-Rio-de-Janeiro-RJ-07-01-2021Minha-historia-Entrevista-com-Denise-Loretto-viuva-do-med-1.jpg\" \/><figcaption class=\"article__picture-caption\">Denise Loreto Foto: Leo Martins\/Ag\u00eancia O Globo<\/figcaption><\/figure>\n<p>Depois de passarmos tr\u00eas meses em Seattle, onde Marcelo fez um curso de pilotagem, voltamos para S\u00e3o Paulo e depois escolhemos o Rio para viver. N\u00f3s dois quer\u00edamos ter filhos logo e eu engravidei, para a nossa felicidade. Tinha certeza de que seria uma menina e sonhei com o nome: Ang\u00e9lica. Ela nasceu, em 1988, de parto normal e lev\u00e1vamos uma vida sossegada. Engravidei novamente e descobrimos que Gabriel estava a caminho. Ponderamos que morar numa casa, num lugar tranquilo como Miguel Pereira, poderia ser melhor para as crian\u00e7as.<\/p>\n<figure class=\"article__picture article__picture--horizontal\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"lazyload article__picture-image image--loaded\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/24844439-a76-3c9\/FT1086A\/91113757_EL-exclusivo-Denise-Loreto-no-casamento-com-o-primeiro-marido-Marcelo-Arquivo-pessoal.jpg\" alt=\"Denise Loreto no casamento com o primeiro marido, Marcelo Foto: Arquivo pessoal\" width=\"1086\" height=\"652\" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/24844439-a76-3c9\/FT1086A\/91113757_EL-exclusivo-Denise-Loreto-no-casamento-com-o-primeiro-marido-Marcelo-Arquivo-pessoal.jpg\" \/><figcaption class=\"article__picture-caption\">Denise Loreto no casamento com o primeiro marido, Marcelo Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Foi nesse intuito que sa\u00edmos, eu, Marcelo e Ang\u00e9lica, naquela manh\u00e3 de 1990, em busca desse espa\u00e7o. No meio do caminho, em Silva Jardim, ele resolveu voltar. \u2018\u00c9 longe demais\u2019, afirmou. E me pediu: \u2018Amore, passa para o banco de tr\u00e1s? Voc\u00ea est\u00e1 gr\u00e1vida, e eu me sinto mais seguro\u2019. E assim eu fiz. A \u00faltima coisa que me lembro \u00e9 de paramos num posto de gasolina, e Marcelo, que era evangelista e n\u00e3o perdia oportunidade de pregar a sua f\u00e9, perguntar ao frentista: \u2018Quem \u00e9 maior, aquele que serve ou que \u00e9 servido? O rapaz respondeu: \u2018Aquele que \u00e9 servido\u2019. E Marcelo corrigiu: \u2018N\u00e3o, Jesus disse que o maior \u00e9 aquele que serve\u2019. Sa\u00edmos de l\u00e1 e batemos num caminh\u00e3o que estava parado num acostamento, na Avenida Brasil. Na verdade, at\u00e9 hoje n\u00e3o sei direito o que aconteceu, nunca quis. Quando recuperei a consci\u00eancia, estava no Hospital Get\u00falio Vargas. Na sequ\u00eancia, fui para a Cl\u00ednica S\u00e3o Vicente. A primeira sensa\u00e7\u00e3o foi perceber que minha barriga (eu estava com 7 meses de gravidez) tinha desaparecido. Corri risco de morte, perdi cinco litros de sangue e tive muitos cortes no rosto. Outros dramas me aguardavam: Marcelo morreu praticamente na hora e Ang\u00e9lica, depois de ficar dois dias em coma.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o que tinha era a de estar vendo um filme, entrei em profundo estado de choque. Conheci o Ricardo, que era especialista em cirurgia cr\u00e2nio-maxilo-facial, na sala de opera\u00e7\u00e3o. Tive um deslocamento de mand\u00edbula e ele cuidou de mim. O mais dif\u00edcil foi sair daquele hospital, 15 dias depois. Para sobreviver, me agarrei a Deus e contei com a ajuda da fam\u00edlia, minha e do Marcelo, e dos amigos. N\u00e3o culpava ningu\u00e9m, s\u00f3 orava. Ricardo ia sempre \u00e0 minha casa fazer curativos e era muito carinhoso.<\/p>\n<figure class=\"article__picture article__picture--horizontal\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"lazyload article__picture-image image--loaded\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/24844482-ddd-d7f\/FT1086A\/91113772_EL-exclusivo-o-medico-Ricardo-Cruz-e-equipe-Arquivo-pessoall.jpg\" alt=\"Ricardo e equipe Foto: Arquivo pessoal\" width=\"1086\" height=\"652\" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/24844482-ddd-d7f\/FT1086A\/91113772_EL-exclusivo-o-medico-Ricardo-Cruz-e-equipe-Arquivo-pessoall.jpg\" \/><figcaption class=\"article__picture-caption\">Ricardo e equipe Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Um ano depois do acidente, voltei ao consult\u00f3rio dele para uma revis\u00e3o. Conversa vai, conversa vem, ele me perguntou: \u2018Denise, voc\u00ea pensa em se casar de novo?\u2019 No que respondi: \u2018S\u00f3 se for com algu\u00e9m muito especial\u2019. Quando veio o meu anivers\u00e1rio, ele me mandou lindas flores e assinou: \u2018de algu\u00e9m muito especial\u2019. Ricardo, que era 13 anos mais velho do que eu, me cortejou e come\u00e7amos a namorar. Ele entendeu a minha f\u00e9 e passou a frequentar os cultos evang\u00e9licos. Em pouco tempo, tornou-se o m\u00e9dico de todo o mundo da igreja. Em 1994, nos casamos numa cerim\u00f4nia \u00edntima. Demoramos uma d\u00e9cada para termos filhos. Queria ser m\u00e3e novamente, mas sentia medo. At\u00e9 que me libertei dos temores, e decidimos pela fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro. Quando Pedro e Andr\u00e9 nasceram, em 2003, eu estava com 36 anos. Vivi uma felicidade plena. A inf\u00e2ncia deles foi a \u00e9poca mais linda da minha vida, fui m\u00e3e\u00a0<em>full time e\u00a0<\/em>curti cada segundo. Ricardo trabalhava muito, mas era aquele pai que, se tivesse que ir at\u00e9 o fim do mundo, ele iria. Tinha paix\u00e3o pelos filhos. Em paralelo, criou o grupo Humanidades e o levou para dentro do Hospital Samaritano, onde era coordenador cient\u00edfico. O objetivo do Humanidades \u00e9 integrar a medicina com outros saberes, deixando-a mais pessoal. Ricardo era o tipo de m\u00e9dico que fazia a barba e dava banho nos pacientes, o consult\u00f3rio dele mais parecia com o de um psicanalista. Antes de cada cirurgia, descrevia para a equipe m\u00e9dica a hist\u00f3ria de quem seria operado. Tinha empatia e compaix\u00e3o. Guardava 60 mil fichas m\u00e9dicas, 60 mil vidas cuidadas por ele. Meu desejo \u00e9 perpetuar seu legado com a publica\u00e7\u00e3o de um livro e um novo modelo de encontros do grupo Humanidades.<\/p>\n<figure class=\"article__picture article__picture--horizontal\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"lazyload article__picture-image image--loaded\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/24844451-80a-304\/FT1086A\/91113755_EL-exclusiva-O-medico-Ricardo-Cruz-com-a-mulher-Denise-e-os-filhos-Pedro-e-Andre-O-medico-f.jpg\" alt=\"Denise com os filhos, Andr\u00e9 e Pedro, e Ricardo Foto: Arquivo pessoal\" width=\"1086\" height=\"652\" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/24844451-80a-304\/FT1086A\/91113755_EL-exclusiva-O-medico-Ricardo-Cruz-com-a-mulher-Denise-e-os-filhos-Pedro-e-Andre-O-medico-f.jpg\" \/><figcaption class=\"article__picture-caption\">Denise com os filhos, Andr\u00e9 e Pedro, e Ricardo Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quando come\u00e7ou a pandemia, meu marido se trancou em casa. S\u00f3 voltou a operar em agosto. Em novembro, ao saber que tinha contra\u00eddo o v\u00edrus, isolou-se num hotel. Uma semana depois, precisou ser internado no Samaritano. O tempo todo me mandou mensagens, me deu instru\u00e7\u00f5es. Eu enviei v\u00eddeos, m\u00fasicas e fotos para anim\u00e1-lo. Por ser m\u00e9dico, sabia o que estava acontecendo, tinha a consci\u00eancia de que o pulm\u00e3o n\u00e3o estava respondendo ao tratamento. Escreveu o que eu deveria falar para os meninos, me pediu para tomar provid\u00eancias pr\u00e1ticas e ainda disse: \u2018Denise, eu vou&#8230; Evite constrangimentos\u2019. Perguntei, aflita, quais constrangimentos. \u2018Missas\u2019, ele respondeu. Quando Ricardo morreu, meu filho Andr\u00e9 me falou com firmeza: \u2018Eu sei que voc\u00ea est\u00e1 ficando vi\u00fava pela segunda vez, mas me promete que n\u00e3o vai sofrer?\u2019 Respondi que seria imposs\u00edvel n\u00e3o sofrer, mas que ficaria bem. Vamos ficar bem, n\u00e3o temos outra op\u00e7\u00e3o. Eu sobrevivi da primeira vez. N\u00e3o posso desistir.\u201d<\/p>\n<p><strong>Veja o V\u00eddeo:<\/strong><\/p>\n<div style=\"width: 480px;\" class=\"wp-video\"><video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-1969-1\" width=\"480\" height=\"854\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"http:\/\/gazetapernambucana.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/SnapInsta.to_AQO0uSXK-C5UVkOUsHUh3Xhay75E8ZVRxo_JwkT22NmBYws5jincxPUhAAkeuPHY82elFQ6mO12ZhCPm9IHwYD0ngPI5mkIPct7oqEo.mp4?_=1\" \/><a href=\"http:\/\/gazetapernambucana.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/SnapInsta.to_AQO0uSXK-C5UVkOUsHUh3Xhay75E8ZVRxo_JwkT22NmBYws5jincxPUhAAkeuPHY82elFQ6mO12ZhCPm9IHwYD0ngPI5mkIPct7oqEo.mp4\">http:\/\/gazetapernambucana.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/SnapInsta.to_AQO0uSXK-C5UVkOUsHUh3Xhay75E8ZVRxo_JwkT22NmBYws5jincxPUhAAkeuPHY82elFQ6mO12ZhCPm9IHwYD0ngPI5mkIPct7oqEo.mp4<\/a><\/video><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Denise Loreto da Cruz foi paciente do m\u00e9dico ap\u00f3s sofrer um acidente de carro, em que perdeu o primeiro marido e filhos. 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