{"id":1255,"date":"2025-07-05T23:34:33","date_gmt":"2025-07-06T02:34:33","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=1255"},"modified":"2025-07-05T23:34:33","modified_gmt":"2025-07-06T02:34:33","slug":"a-forca-do-exemplo-por-jose-paulo-cavalcanti-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=1255","title":{"rendered":"A for\u00e7a do exemplo. Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho"},"content":{"rendered":"<div class=\"byline\"><\/div>\n<div class=\"entry-content\">\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-173868\" src=\"https:\/\/flaviochaves.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/11f77e6d8a8e346bc312bf2719fc2e63-2-300x147-1.webp\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"147\" \/>\u00a0\u00a0<strong>Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho \u00a0\u2013 \u00a0Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. \u00c9\u00a0 um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comiss\u00e3o da Verdade\u00a0 \u00a0\u2013\u00a0 \u00a0<\/strong>Sobral Pinto, mais que grande advogado, foi sempre s\u00edmbolo de corre\u00e7\u00e3o. E, para seus colegas de profiss\u00e3o, um exemplo. Participou, ativamente, na campanha de JK \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica (em 1955). E, j\u00e1 no governo, Juscelino o indicou para vaga deixada, no Supremo, pela aposentadoria do ministro Frederico de Barros Barreto. Algo n\u00e3o apenas esperado por todos, sobretudo justo. Ele simplesmente merecia. Rea\u00e7\u00e3o de Sobral<\/p>\n<p><em>? N\u00e3o posso, Presidente, que participei de sua campanha. E n\u00e3o seria digno, de minha parte. O que diriam de mim?, de n\u00f3s dois?, se aceitasse.<\/em><\/p>\n<p>A for\u00e7a do exemplo de Sobral deveria estar no cora\u00e7\u00e3o de todos aqueles que estivessem, depois, em situa\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas. S\u00f3 que assim n\u00e3o se deu, infelizmente, o \u201cCad\u00e1ver do passado\u201d (<em>sem t\u00edtulo,<\/em>\u00a0<em>01\/07\/1914<\/em>, Fernando Pessoa) n\u00e3o serviu de li\u00e7\u00e3o aos p\u00f3steros. Lembremos apenas dois casos:<\/p>\n<p>Primeiro deles foi Sergio Moro, que jamais poderia ser ministro da Justi\u00e7a de Bolsonaro. A quem ajudou indiretamente, na elei\u00e7\u00e3o, ao condenar Lula. Impedindo fosse candidato. Mas acabou aceitando esse cargo e deu no que deu. Nem Bolsonaro podia convidar, nem ele aceitar. O destino \u00e9 cruel. Se recusasse, teria sido bem melhor para ele, que hoje estaria no Supremo. E para o Brasil; com a hist\u00f3ria da Lava Jato, quem sabe?, sendo outra.<\/p>\n<p>O segundo caso foi o de Ricardo Lewandowski. Para compreender o que fez, \u00e9 preciso voltar um pouco no tempo. Em 08\/03\/2021 o ministro Fachin decidiu, monocraticamente, que a condena\u00e7\u00e3o de Lula n\u00e3o valia. Por uma quest\u00e3o menor, de foro. Algo dif\u00edcil, quase imposs\u00edvel, de acreditar. Sem se incomodar com o fato de ter o ex-presidente sido condenado por 1 juiz, 3 desembargadores-federais do TRF4 e 5 ministros do STJ, que detidamente examinaram a situa\u00e7\u00e3o em seus m\u00faltiplos aspectos. Inclusive o tal foro.<\/p>\n<p>No total 9 decis\u00f5es, antes, por unanimidade sempre quando coletivas. E o ministro sozinho, sem ouvir nenhum colega, teve a coragem (digamos assim) de anular os 4 processos ent\u00e3o em curso contra o ex-presidente: aquele em que havia j\u00e1 sido condenado, Triplex de Guaruj\u00e1; e os tr\u00eas restantes, ainda em curso \u2013 S\u00edtio de Atibaia, Sede do Instituto Lula, Doa\u00e7\u00f5es ao Instituto Lula.<\/p>\n<p>Mas o servi\u00e7o n\u00e3o estava completo, faltava o mais complicado. Que exigia coragem (digamos assim, novamente) ainda maior. Dif\u00edcil de explicar \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica. \u00c9 que as provas, todas (inclusive numerosos depoimentos), permaneciam nos autos. Sem ser afetadas pela quest\u00e3o do foro. E qualquer juiz poderia quando quisesse, com base nelas, voltar a condenar aquele que, na \u00e9poca, era ent\u00e3o j\u00e1 candidato a ser, novamente, presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Coube a Lewandowski o papel de dar fim a esse risco, um trabalho do qual n\u00e3o tem raz\u00f5es para se orgulhar. Ao contr\u00e1rio. E o fez, em 29\/06\/2021, anulando todas as tais provas produzidas contra o ent\u00e3o ex?presidente Lula. Sem fundamentos jur\u00eddicos. Sem maiores explica\u00e7\u00f5es. Nem maiores constrangimentos. Como se seu poder n\u00e3o tivesse nenhum limite.\u00a0 Novamente em decis\u00e3o monocr\u00e1tica e, mais uma vez, sem ouvir ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Impedindo pudesse, o antes condenado, vir a ser punido no futuro; que, mesmo quanto feitas novas provas, os processos correspondentes, dada a idade do acusado, estariam ent\u00e3o prescritos. Uma esp\u00e9cie de anistia pr\u00e9via. E pouco depois, quando se aposentou, acabou ganhando um presente r\u00e9gio, que foi o cargo de ministro da Justi\u00e7a. O mesmo de Moro. Com o exemplo de Sobral Pinto, nesses dois casos, jogado no lixo.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia toda agradece. Inclusive seu filho advogado, Enrique Lewandowski, contratado (em 02\/12\/2024) pelo Centro de Estudos dos Aposentados e Pensionistas ? CEBAP; e tamb\u00e9m, a seguir, pela Associa\u00e7\u00e3o dos Aposentados Mutualistas para Benef\u00edcios Coletivos ? AMBEC. Duas das associa\u00e7\u00f5es comprometidas nesse esc\u00e2ndalo da Previd\u00eancia Social (n\u00e3o sei se houve mais alguma contrata\u00e7\u00e3o, depois). E que deveriam estar sendo, ou no futuro deveriam vir a ser, teriam que ser, fiscalizadas pelo pai do advogado \u2013 o mesmo Lewandowski que, ministro, dirige a Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p>Membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico (Lei 11.425\/2006, art. 21) n\u00e3o podem advogar, um impedimento funcional e \u00e9tico. Mas isso foi no passado que passou, amigo leitor. E n\u00e3o vale mais, hoje, para situa\u00e7\u00f5es similares. Como quando Ministros do Supremo, sem dramas \u00edntimos de consci\u00eancia, julgam casos defendidos pelos caros escrit\u00f3rios de suas mulheres, assim decidiram. E o filho de Ministro advoga causas que est\u00e3o (ou deveriam estar) sendo investigadas por seu pai ministro. N\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel. \u201c<em>O tempore, o mores<\/em>\u201d diria, o romano C\u00edcero, caso ainda estivesse entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Mais um dos tais casos exemplares veio com a Ditadura Militar que teve in\u00edcio em 1964. \u00c9 que o Supremo, na sua fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de guardi\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o, na \u00e9poca mais que nunca teria que atuar na defesa dos Direitos Humanos e da Democracia.<\/p>\n<p>Come\u00e7am os mais sombrios anos da\u00a0<em>Redentora<\/em>, em 1969, e tr\u00eas ministros se rebelam. O Supremo, por m\u00e3os deles, n\u00e3o estaria a servi\u00e7o de governos autorit\u00e1rios. Em raz\u00e3o disso a Junta Militar, que acabara de assumir o governo, aposentou compulsoriamente Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal. Em protesto renunciaram, a seus cargos, o presidente da Casa, Gon\u00e7alves de Oliveira; e seu substituto, Ant\u00f4nio Carlos Lafayette de Andrade. Menos 5 ministros, portanto, com quem a Ditadura se preocupar.<\/p>\n<p>Em breve s\u00edntese havia, ent\u00e3o, dois Supremos. Um que defendia os direitos previstos (e em tese garantidos) na Constitui\u00e7\u00e3o. E, outro, que ali estava na fun\u00e7\u00e3o subalterna de servir ao Governo Militar e cumprir suas ordens. Cego, surdo e mudo ante censura, torturas, mortes e desaparecimentos for\u00e7ados. E sem aparentes \u201cescr\u00fapulos de consci\u00eancia\u201d, uso de prop\u00f3sito uma frase do passado.<\/p>\n<p>O Supremo de hoje, amigo leitor, teria que decidir algo parecido; em s\u00edntese, se estaria mesmo disposto a defender a Constitui\u00e7\u00e3o e a Democracia. Em um cen\u00e1rio diverso, mas igualmente grave, quando \u00e9 grande a tenta\u00e7\u00e3o de em algumas situa\u00e7\u00f5es substituir outros poderes, como o Executivo ou o Legislativo. Achando pouco, agora, passa a exercer o papel de censor nacional. Dizendo quais informa\u00e7\u00f5es deveremos ter (ou n\u00e3o) dispon\u00edveis. Com novo lema, na Corte, agora \u00e9\u00a0<em>Censura nunca, mas\u2026<\/em><\/p>\n<p>Paro por aqui. Trata-se de uma escolha j\u00e1 feita, sabemos todos qual foi, \u00e9 in\u00fatil continuar. Apenas cabe lamentar que n\u00e3o se tenha, no Brasil de hoje, o Supremo altivo de Evandro, Hermes e Victor. A for\u00e7a de seus exemplos, como antes o de Sobral, n\u00e3o valeram. \u00c9 pena. E segue a vida.<\/p>\n<p>Vejamos como todos esses personagens ser\u00e3o tratados mais tarde, algum dia senhores, quando a hist\u00f3ria desse tempo for escrita nos livros.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho \u00a0\u2013 \u00a0Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. \u00c9\u00a0 um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comiss\u00e3o da Verdade\u00a0 \u00a0\u2013\u00a0 \u00a0Sobral Pinto, mais que grande advogado, foi sempre s\u00edmbolo de corre\u00e7\u00e3o. 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