{"id":4444,"date":"2026-08-13T21:41:53","date_gmt":"2026-08-14T00:41:53","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4444"},"modified":"2026-08-13T21:41:53","modified_gmt":"2026-08-14T00:41:53","slug":"quando-uma-pessoa-se-torna-nossa-patria-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4444","title":{"rendered":"Quando uma pessoa se torna nossa p\u00e1tria. Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<h5 class=\"isSelectedEnd\"><strong>H\u00e1 amores cuja perda n\u00e3o nos deixa apenas sem algu\u00e9m: deixa-nos estrangeiros dentro da pr\u00f3pria vida<\/strong><\/h5>\n<p class=\"isSelectedEnd\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/MinC \u2013\u00a0\u00a0<\/strong>Passei os \u00faltimos dias diante de uma parte consider\u00e1vel dos arquivos de um romance que escrevo h\u00e1 muitos anos, procurando entre mensagens antigas, cap\u00edtulos interrompidos, vers\u00f5es que se multiplicaram ao longo do tempo, personagens que nasceram de s\u00fabito e permaneceram esperando que eu regressasse para concluir seus destinos, cenas que julgava perdidas e frases que, embora adormecidas em documentos esquecidos, ainda conservavam a temperatura emocional do instante em que foram escritas. N\u00e3o era apenas um escritor examinando o pr\u00f3prio acervo para decidir o que deveria permanecer, o que precisava ser reorganizado e quais caminhos conduziriam o livro \u00e0 sua forma definitiva. Era um homem regressando a uma casa abandonada sem jamais ter deixado verdadeiramente de morar nela, abrindo portas que o tempo n\u00e3o conseguira fechar e descobrindo, em cada aposento da mem\u00f3ria, alguma coisa que ainda respirava.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O romance chama-se <em>O Beijo Subversivo<\/em>, mas, durante muito tempo, n\u00e3o compreendi inteiramente a dimens\u00e3o do que havia depositado dentro dele. Sabia que Gaspar e Violeta carregavam uma hist\u00f3ria de amor atravessada pela beleza, pela viol\u00eancia das circunst\u00e2ncias, pela interfer\u00eancia de pessoas incapazes de suportar a felicidade alheia e pela dor de uma separa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o significava o fim do amor, mas a impossibilidade de viv\u00ea-lo em sua plenitude. Sabia que Gaspar se tornaria um andarilho e que sua caminhada pelo mundo n\u00e3o seria uma aventura geogr\u00e1fica, mas a consequ\u00eancia exterior de uma devasta\u00e7\u00e3o \u00edntima. Entretanto, somente agora, ao reencontrar a subst\u00e2ncia org\u00e2nica de tantas p\u00e1ginas e perceber que a literatura havia preservado aquilo que a vida n\u00e3o conseguiu conservar, encontrei a formula\u00e7\u00e3o que talvez explique n\u00e3o apenas o destino do personagem, mas uma parte decisiva de minha pr\u00f3pria exist\u00eancia: Violeta tornou-se a p\u00e1tria perdida de Gaspar porque foi o \u00fanico lugar humano onde sua alma deixou de se sentir estrangeira. Quando a perdeu, ele n\u00e3o ficou apenas sem a mulher amada; ficou exilado dentro da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Existem pessoas que passam por n\u00f3s como quem atravessa uma esta\u00e7\u00e3o e desaparece com o trem seguinte, deixando apenas uma lembran\u00e7a suave, uma fotografia ocasional, uma frase que o pensamento recupera sem que o cora\u00e7\u00e3o se desorganize. Outras, por\u00e9m, n\u00e3o passam: entram em nossa geografia interior, modificam o curso dos rios, d\u00e3o nome \u00e0s montanhas, acendem luzes nas cidades secretas de nossa alma e transformam-se no territ\u00f3rio onde reconhecemos, talvez pela primeira vez, o sentimento de pertencimento. Ao lado delas, n\u00e3o precisamos pedir licen\u00e7a para existir, explicar excessivamente nossos sil\u00eancios ou disfar\u00e7ar as fragilidades que o mundo costuma utilizar contra n\u00f3s. Podemos repousar. E repousar em algu\u00e9m, quando a vida inteira nos obrigou a permanecer vigilantes, \u00e9 uma das formas mais profundas do amor.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Foi assim que compreendi que uma pessoa pode tornar-se nossa p\u00e1tria. N\u00e3o a p\u00e1tria oficial dos mapas, das bandeiras, dos hinos e das fronteiras defendidas por soldados, mas uma p\u00e1tria mais antiga e essencial, formada pela intimidade, pela confian\u00e7a, pelo desejo, pela linguagem compartilhada e pelo reconhecimento de que existe no mundo algu\u00e9m diante de quem n\u00e3o somos estrangeiros. Essa p\u00e1tria pode caber num abra\u00e7o, numa conversa atravessando a madrugada, numa mesa de bar onde duas m\u00e3os se procuram, no escuro de um cinema, numa ponte iluminada sobre o rio ou no interior de um autom\u00f3vel onde um homem, sem possuir qualquer riqueza extraordin\u00e1ria, oferece simbolicamente a lua \u00e0 mulher que ama. O territ\u00f3rio amoroso n\u00e3o \u00e9 medido por quil\u00f4metros; mede-se pela extens\u00e3o da paz que uma presen\u00e7a consegue abrir dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Quando essa pessoa nos \u00e9 arrancada, n\u00e3o perdemos apenas a companhia, os encontros, os projetos e a possibilidade cotidiana de pronunciar seu nome esperando uma resposta. Perdemos tamb\u00e9m a vers\u00e3o de n\u00f3s mesmos que somente existia ao lado dela. H\u00e1 gestos que nunca mais repetiremos da mesma maneira, palavras que perder\u00e3o uma parte de seu sentido, lugares que continuar\u00e3o fisicamente intactos, embora tenham sido destru\u00eddos pela aus\u00eancia, e can\u00e7\u00f5es que, mesmo executadas muitos anos depois, ainda saber\u00e3o abrir dentro do peito a porta exata pela qual a saudade entra. Continuamos vivendo, \u00e9 verdade, porque o corpo possui uma fidelidade quase brutal \u00e0 sobreviv\u00eancia, mas alguma coisa em n\u00f3s passa a caminhar sem endere\u00e7o, carregando a chave de uma casa \u00e0 qual j\u00e1 n\u00e3o se pode regressar.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Talvez essa seja a diferen\u00e7a mais profunda entre a solid\u00e3o e o ex\u00edlio. A solid\u00e3o \u00e9 estar sem algu\u00e9m; o ex\u00edlio \u00e9 continuar pertencendo a um lugar que se tornou inalcan\u00e7\u00e1vel. O solit\u00e1rio ainda pode procurar companhia, estabelecer novos la\u00e7os e descobrir outras formas de presen\u00e7a, mas o exilado sabe que nenhum territ\u00f3rio substitui completamente aquele de onde foi afastado. Ele pode atravessar pa\u00edses, aprender o rumor de outras cidades, dormir sob tetos desconhecidos, conversar com pessoas generosas e contemplar paisagens que jamais imaginou conhecer, mas haver\u00e1 sempre uma parte de sua alma voltada para a fronteira fechada daquilo que perdeu. N\u00e3o procura necessariamente retornar, porque muitas vezes sabe que o retorno se tornou imposs\u00edvel; procura apenas algum lugar onde a aus\u00eancia doa menos.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 por isso que Gaspar caminha. O andarilho \u00e9 o corpo percorrendo o mundo; o ser-ex\u00edlio \u00e9 a alma caminhando dentro da perda. Por fora, ele atravessa estradas, cidades, esta\u00e7\u00f5es e pa\u00edses; por dentro, continua circulando ao redor de Violeta, como se toda a sua exist\u00eancia tivesse se transformado numa \u00f3rbita determinada pela presen\u00e7a ausente daquela mulher. N\u00e3o \u00e9 um homem incapaz de seguir adiante, mas algu\u00e9m que descobriu que seguir adiante n\u00e3o significa abandonar o que verdadeiramente se amou. H\u00e1 amores que n\u00e3o nos aprisionam ao passado; tornam-se uma luz secreta contra a noite, mesmo quando a mesma luz tamb\u00e9m revela a extens\u00e3o das ru\u00ednas.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Enquanto recuperava os cap\u00edtulos do romance, reencontrei pequenas coisas que, vistas de fora, talvez parecessem apenas recursos narrativos: um papagaio chamado Sans\u00e3o, um homem ridicularizado pelo apelido de Fio-Terra, um radinho artesanal que esconde alian\u00e7as, uma cachorrinha incumbida de lev\u00e1-las durante o casamento, um bar onde a m\u00fasica aproximava dois corpos, um filme que se confundia com a descoberta amorosa, uma ponte sobre a qual a lua parecia caber nas m\u00e3os de quem desejava oferec\u00ea-la. Entretanto, nenhuma dessas coisas era pequena. A mem\u00f3ria raramente conserva a vida por meio dos grandes discursos; ela a preserva nos objetos, nos gestos, nos apelidos, nas m\u00fasicas, nas brincadeiras e nos instantes aparentemente comuns que somente depois da perda revelam a grandeza que possu\u00edam. O amor constr\u00f3i sua eternidade com materiais modestos.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Diante de tudo isso, compreendi que reorganizar <em>O Beijo Subversivo<\/em> n\u00e3o seria apenas um trabalho liter\u00e1rio. Seria tocar novamente numa hist\u00f3ria viva, reconhecer as pulsa\u00e7\u00f5es que permaneceram dentro das palavras e devolver continuidade ao que a dor havia espalhado em diferentes arquivos, tempos e vers\u00f5es. Cada cap\u00edtulo recuperado parecia trazer consigo n\u00e3o apenas um peda\u00e7o do romance, mas alguma coisa de mim que permanecera esperando naquele lugar. Havia momentos em que eu j\u00e1 n\u00e3o sabia se estava salvando o livro do esquecimento ou se era o livro que, ao devolver-me certas lembran\u00e7as, estava salvando de algum esquecimento uma parte de minha pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Perder Violeta foi uma das dores mais profundas que experimentei, e n\u00e3o escrevo isso como quem procura ornamentar a saudade ou construir uma imagem liter\u00e1ria para impressionar o leitor. Ainda hoje d\u00f3i. O tempo modificou a superf\u00edcie dessa dor, ensinou-me a conviver com ela, cobriu algumas de suas feridas com os compromissos, as responsabilidades e os movimentos inevit\u00e1veis da exist\u00eancia, mas n\u00e3o conseguiu retirar dela sua verdade fundamental. Algumas dores envelhecem conosco sem se tornarem menores; apenas aprendem a falar mais baixo. Em certas noites, por\u00e9m, recuperam a voz antiga e nos chamam pelo nome que possu\u00edamos quando ainda acredit\u00e1vamos que determinados futuros seriam poss\u00edveis.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Talvez algu\u00e9m pergunte por que regressar a tudo isso, por que abrir novamente os arquivos, reconstruir cenas, restaurar di\u00e1logos e tocar numa mat\u00e9ria capaz de despertar tamanha emo\u00e7\u00e3o. A resposta \u00e9 que esquecer n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica maneira de sobreviver. Algumas pessoas sobrevivem afastando-se daquilo que as feriu; outras precisam transformar a ferida em linguagem para que a dor deixe de ser apenas sofrimento e adquira uma forma capaz de atravessar o tempo, alcan\u00e7ar outras pessoas e dizer-lhes que n\u00e3o estiveram sozinhas em seus pr\u00f3prios ex\u00edlios. Escrever n\u00e3o ressuscita o passado nem restitui a conviv\u00eancia perdida, mas pode oferecer uma morada \u00e0quilo que, sem a literatura, permaneceria condenado a vagar dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 poss\u00edvel que essa seja a fun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima de <em>O Beijo Subversivo<\/em>: construir, por meio da palavra, a casa que a realidade tornou imposs\u00edvel. N\u00e3o uma casa destinada a negar a perda, mas a acolh\u00ea-la; n\u00e3o um monumento im\u00f3vel erguido para aprisionar Violeta, mas um territ\u00f3rio vivo onde o amor possa conservar sua dignidade, sua beleza, sua sensualidade, seus conflitos, sua alegria e sua dor. A literatura n\u00e3o devolver\u00e1 Gaspar \u00e0 p\u00e1tria que perdeu, mas impedir\u00e1 que essa p\u00e1tria desapare\u00e7a completamente. Enquanto houver uma p\u00e1gina, uma lembran\u00e7a, uma frase e algu\u00e9m disposto a ler, alguma janela continuar\u00e1 acesa.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Hoje sei que o ex\u00edlio n\u00e3o come\u00e7a necessariamente quando um homem \u00e9 expulso de sua terra. \u00c0s vezes, come\u00e7a quando lhe arrancam a pessoa diante de quem ele finalmente havia encontrado um lugar no mundo. Desde ent\u00e3o, ele pode continuar morando na mesma casa, andando pelas mesmas ruas, encontrando os mesmos amigos e realizando os gestos habituais da vida, enquanto uma parte secreta de sua alma atravessa desertos, carregando consigo o nome daquela que se tornou sua p\u00e1tria perdida.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Talvez escrever seja a \u00fanica forma de regresso que me restou. N\u00e3o um retorno ao tempo, porque o tempo n\u00e3o devolve aquilo que levou, mas um regresso \u00e0 subst\u00e2ncia do amor, \u00e0quilo que nenhuma separa\u00e7\u00e3o conseguiu destruir inteiramente. Volto pelas palavras, atravesso as fronteiras da mem\u00f3ria e reconstruo, cap\u00edtulo ap\u00f3s cap\u00edtulo, a paisagem interior onde um dia minha alma deixou de se sentir estrangeira. E, se a literatura n\u00e3o pode curar toda aus\u00eancia, ela ao menos realiza este milagre discreto e profundamente humano: oferece perman\u00eancia ao que a vida tentou transformar apenas em perda.<\/p>\n<p>Violeta tornou-se a p\u00e1tria perdida de Gaspar. Talvez porque, muito antes de pertencer \u00e0 literatura, tenha sido o lugar humano onde meu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o reconheceu uma casa. E agora, enquanto escrevo, compreendo que concluir este romance ser\u00e1 tamb\u00e9m recolher o homem exilado que permaneceu caminhando dentro de mim e conduzi-lo, pela \u00fanica estrada que ainda n\u00e3o lhe foi interditada, de volta ao territ\u00f3rio indestrut\u00edvel da palavra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 amores cuja perda n\u00e3o nos deixa apenas sem algu\u00e9m: deixa-nos estrangeiros dentro da pr\u00f3pria vida Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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