{"id":4004,"date":"2026-06-21T18:52:22","date_gmt":"2026-06-21T21:52:22","guid":{"rendered":"https:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4004"},"modified":"2026-06-21T18:52:22","modified_gmt":"2026-06-21T21:52:22","slug":"a-fogueira-que-a-chuva-nao-apaga-parte-ii-por-flavio-chaves","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/gazetapernambucana.com\/?p=4004","title":{"rendered":"A fogueira que a chuva n\u00e3o apaga \u2014 Parte II &#8211; Por Fl\u00e1vio Chaves"},"content":{"rendered":"<h3 data-section-id=\"w69j8q\" data-start=\"232\" data-end=\"287\"><span role=\"text\"><strong data-start=\"236\" data-end=\"287\">Os amores que ainda dan\u00e7am no escuro da mem\u00f3ria\u00a0 \u00a0 \u00a0<\/strong><\/span><\/h3>\n<p data-start=\"289\" data-end=\"1173\"><strong>Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal\/Minc\u00a0 \u2013\u00a0 \u00a0<\/strong>Quando os palho\u00e7\u00f5es se armavam nas pra\u00e7as, nos col\u00e9gios, nos terrenos baldios das ruas antigas e nos cantos das comunidades onde o m\u00eas de junho parecia levantar uma cidade dentro da pr\u00f3pria cidade, feita de madeira, palha, bandeirolas, cheiro de milho, ch\u00e3o varrido, l\u00e2mpadas penduradas e esperan\u00e7a acesa, ningu\u00e9m imaginava que, por tr\u00e1s daquela aparente brincadeira de quadrilha, da noiva de vestido remendado, do noivo envergonhado, do padre improvisado, do juiz de mentira, do delegado de chap\u00e9u torto e dos gritos ensaiados de \u201colha a chuva\u201d, \u201c\u00e9 mentira\u201d, \u201colha a cobra\u201d, \u201c\u00e9 mentira\u201d, existia uma delicada conspira\u00e7\u00e3o da vida para aproximar cora\u00e7\u00f5es que talvez nunca tivessem coragem de se procurar fora daquele terreiro encantado onde tudo parecia permitido, inclusive o milagre de uma m\u00e3o tocar a outra e, no susto do passo marcado, nascer uma paix\u00e3o que ningu\u00e9m sabia explicar.<\/p>\n<p data-start=\"1175\" data-end=\"1922\">Foi assim que muita gente amou pela primeira vez, sem entender direito se aquilo era amor, alegria, nervosismo, febre ou destino; bastava o conjunto de forr\u00f3 come\u00e7ar a tocar no canto do palho\u00e7\u00e3o, com a sanfona puxando a noite pela cintura, a zabumba batendo como se fosse o cora\u00e7\u00e3o da terra e o tri\u00e2ngulo riscando no ar uma estrela mi\u00fada, para que os meninos e meninas de ontem, vestidos de matutos, sinhazinhas, noivas e cavalheiros de fita no chap\u00e9u, se encontrassem no meio da roda e descobrissem que o mundo podia caber inteiro no breve caminho entre um sorriso t\u00edmido e um olhar demorado, entre um passo trocado e um pedido quase inaud\u00edvel para dan\u00e7ar mais uma m\u00fasica, entre a vergonha de ser visto e o desejo secreto de nunca mais sair dali.<\/p>\n<p data-start=\"1924\" data-end=\"2529\">Quantos amores come\u00e7aram assim, Fl\u00e1vio, debaixo de bandeirolas que tremiam ao vento como se tamb\u00e9m sentissem frio na barriga; quantas promessas foram feitas sem palavras, apenas no aperto suave dos dedos, no balan\u00e7o do xote, no giro desajeitado da quadrilha, no \u201canarri\u00ea\u201d que afastava os corpos por um instante e no \u201cbalanc\u00ea\u201d que devolvia os dois ao mesmo compasso, como se a pr\u00f3pria festa dissesse aos apaixonados que amar \u00e9 isso mesmo, um ir e vir permanente, uma aproxima\u00e7\u00e3o e uma fuga, uma m\u00fasica que chama e uma vida que, \u00e0s vezes, leva para longe justamente aquilo que o cora\u00e7\u00e3o mais queria segurar.<\/p>\n<p data-start=\"2531\" data-end=\"3181\">Alguns daqueles pares seguiram juntos para al\u00e9m do S\u00e3o Jo\u00e3o, atravessaram outros meses, outras chuvas, outros carnavais, cresceram, mudaram de roupa, perderam a fantasia junina, mas conservaram na alma a lembran\u00e7a daquele primeiro encontro iluminado por uma fogueira; namoraram na cal\u00e7ada, trocaram cartas, esperaram na porta da escola, juraram amor eterno em pra\u00e7as onde hoje talvez passem carros apressados, casaram-se de verdade diante de padre, juiz, testemunhas e fam\u00edlia, como se aquele casamento inventado da quadrilha tivesse sido apenas o ensaio inocente de uma hist\u00f3ria que Deus, o tempo e o desejo resolveram escrever com tinta mais s\u00e9ria.<\/p>\n<p data-start=\"3183\" data-end=\"3898\">Outros, por\u00e9m, ficaram pelo caminho, e talvez sejam esses os que mais doem na mem\u00f3ria, porque n\u00e3o se despediram com explica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o brigaram com motivo, n\u00e3o terminaram com senten\u00e7a clara, apenas foram se perdendo na mudan\u00e7a dos endere\u00e7os, na transfer\u00eancia de escola, na viagem da fam\u00edlia, no emprego que apareceu longe, na carta que nunca chegou, no telefonema que n\u00e3o foi feito, no orgulho que calou o pedido de volta, na vida que abriu uma rua entre dois destinos e empurrou cada um para uma margem diferente, deixando no meio apenas a lembran\u00e7a daquele forr\u00f3 antigo onde um dia dan\u00e7aram t\u00e3o juntos que chegaram a acreditar, com a f\u00e9 ing\u00eanua dos primeiros amores, que ningu\u00e9m no mundo teria for\u00e7a para separ\u00e1-los.<\/p>\n<p data-start=\"3900\" data-end=\"4678\">Existe uma tristeza muito doce nesses amores juninos que n\u00e3o chegaram ao altar da vida, mas foram casados por alguns minutos no teatro sagrado da festa, diante de um padre improvisado que talvez nem soubesse a import\u00e2ncia do papel que representava, de um juiz menino que batia na mesa como se decretasse senten\u00e7as eternas, de convidados rindo, de colegas aplaudindo, de m\u00e3es emocionadas com a beleza simples dos filhos fantasiados, e de dois cora\u00e7\u00f5es que, mesmo brincando, sentiram por um instante que aquilo podia ser verdade, que aquela cerim\u00f4nia de mentirinha talvez revelasse um segredo escondido nas dobras do destino, que aquele par escolhido pela professora, pela vizinha organizadora ou pelo acaso tinha alguma coisa de provid\u00eancia, de press\u00e1gio, de delicada anuncia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p data-start=\"4680\" data-end=\"5372\">Mas o tempo, esse grande dan\u00e7arino sem piedade, muda o ritmo quando menos se espera; transforma palho\u00e7\u00f5es em estacionamentos, ruas de terra em avenidas, col\u00e9gios antigos em fotografias amareladas, conjuntos de forr\u00f3 em grava\u00e7\u00f5es guardadas no fundo de uma pasta digital, e aqueles rostos que um dia brilharam \u00e0 luz da fogueira passam a existir apenas no territ\u00f3rio misterioso da lembran\u00e7a, onde ningu\u00e9m envelhece completamente, onde a menina de tran\u00e7as continua sorrindo no meio da quadrilha, onde o rapaz de camisa xadrez ainda procura coragem para segurar sua m\u00e3o, onde a m\u00fasica nunca termina e onde o amor, mesmo perdido, permanece dan\u00e7ando como se ignorasse a not\u00edcia da pr\u00f3pria despedida.<\/p>\n<p data-start=\"5374\" data-end=\"6105\">Talvez cada pessoa carregue dentro de si um arraial que ningu\u00e9m v\u00ea; um palho\u00e7\u00e3o \u00edntimo, iluminado por l\u00e2mpadas antigas, onde ainda tocam os forr\u00f3s que embalaram suas primeiras esperan\u00e7as, onde ainda circulam os rostos de quem partiu, de quem ficou, de quem prometeu voltar, de quem nunca explicou a aus\u00eancia, de quem amou demais e de quem teve medo de amar o suficiente; nesse lugar secreto, os amores que sobreviveram dan\u00e7am abra\u00e7ados com os amores que se perderam, as hist\u00f3rias conclu\u00eddas dividem o mesmo terreiro com as inacabadas, e a alma, feito sanfoneiro cansado, puxa de vez em quando uma melodia triste, n\u00e3o para ferir, mas para lembrar que at\u00e9 a dor, quando nasce de um amor verdadeiro, tem uma forma estranha de ternura.<\/p>\n<p data-start=\"6107\" data-end=\"6829\">Porque amar, no fundo, \u00e9 tamb\u00e9m participar de uma grande quadrilha da exist\u00eancia, onde a vida chama, empurra, aproxima, separa, troca os pares, manda avan\u00e7ar, manda recuar, anuncia chuva, desmente a chuva, inventa cobra, ri do susto da gente e, quando percebemos, j\u00e1 estamos em outro lugar, segurando outras m\u00e3os, pisando outros ch\u00e3os, tentando seguir a marca\u00e7\u00e3o de uma m\u00fasica que nunca dominamos completamente; e talvez o desespero de amar e se perder venha exatamente disso, dessa descoberta de que ningu\u00e9m possui para sempre o corpo que abra\u00e7a, a voz que promete, o olhar que acende, o par que dan\u00e7a, porque tudo o que \u00e9 humano, por mais bonito que seja, vive entre o desejo de perman\u00eancia e a fragilidade da despedida.<\/p>\n<p data-start=\"6831\" data-end=\"7572\">Ainda assim, benditos sejam os amores que nasceram nos palho\u00e7\u00f5es de junho, mesmo os que n\u00e3o duraram, mesmo os que se dissolveram sem explica\u00e7\u00e3o, mesmo os que foram desfeitos pela dist\u00e2ncia, pela pressa, pela imaturidade, pelo sil\u00eancio ou por essa for\u00e7a invis\u00edvel que \u00e0s vezes desata os la\u00e7os sem pedir licen\u00e7a ao cora\u00e7\u00e3o; benditos sejam porque, durante uma m\u00fasica, uma noite, uma festa, uma juventude ou uma vida inteira, eles ensinaram a algu\u00e9m que o peito podia bater mais forte, que a m\u00e3o podia tremer de felicidade, que um olhar podia abrir uma estrada, que uma dan\u00e7a podia virar destino, e que certas pessoas, mesmo ausentes para sempre, continuam morando em n\u00f3s como uma fogueira pequena, protegida da chuva pelas duas m\u00e3os da saudade.<\/p>\n<p data-start=\"7574\" data-end=\"8081\">E quando junho retorna, com seus palho\u00e7\u00f5es, seus conjuntos de forr\u00f3, suas bandeirolas, suas comidas de milho, suas ruas enfeitadas, seus casamentos matutos e suas quadrilhas escolares, n\u00e3o \u00e9 somente a festa que volta; voltam tamb\u00e9m os nomes que n\u00e3o pronunciamos mais, os rostos que evitamos procurar nas redes, os bilhetes que se perderam, os retratos que ficaram nas gavetas, os perfumes confundidos com a mem\u00f3ria, os passos que demos com algu\u00e9m e nunca mais conseguimos repetir do mesmo jeito com ningu\u00e9m.<\/p>\n<p data-start=\"8083\" data-end=\"8157\">Porque existem amores que acabam no mundo, mas n\u00e3o acabam dentro da gente.<\/p>\n<p data-start=\"8159\" data-end=\"8189\">Eles apenas mudam de endere\u00e7o.<\/p>\n<p data-start=\"8191\" data-end=\"8260\">Saem da casa, da rua, da rotina, do abra\u00e7o, da promessa, da presen\u00e7a.<\/p>\n<p data-start=\"8262\" data-end=\"8337\" data-is-last-node=\"\" data-is-only-node=\"\">E v\u00e3o morar, silenciosos e eternos, no palho\u00e7\u00e3o iluminado da nossa saudade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os amores que ainda dan\u00e7am no escuro da mem\u00f3ria\u00a0 \u00a0 \u00a0 Por Fl\u00e1vio Chaves \u2013 Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. 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